Desistência
As absurdidades da vida alcançam-me
a pele escamada, superficial com que oculto
a brancura imaculada do seio. Nada existe
para além do plano real do caminho obscuro
entre os dedos e as acusações. Desisti há muito
tempo do ser humano, da humanidade da
minha condição pequena. Percorro linhas
e eventualidades como quem percorre poemas
melódicos e distantes. O mundo é uma esfera
ao contrário. O mundo está repleto de mentes
e sentires que não reconheço e não sei.
Nos intervalos do tempo recolho o corpo
e as máscaras com que protejo a sanidade,
escondo os livros, escondo os poemas,
escondo-me na casca grossa de uma árvore
e morro-me. Assim. Pontualmente. Entre um
espaço e outro. Um dia e outro. Entre um
suspiro e outro. Morro-me. Assim.
E porque a lua vai alta e me esqueço do meu
corpo morto na casca de uma árvore,
percorro os espaços da casa envelhecida
com a leveza abstracta da ausência.
As absurdidades da alma esquecem-me
o rosto cinzelado. Desisto do corpo largado
na árvore. Desisto do vento e da noite. Desisto
da morte. Desisto. Desisto. Desisto.
Desisto de desistir. Não acredito na realidade,
na vida, na linha que me leva diariamente
ao fim da página. Não acredito.
Eu já não sou eu em mim.
Publicado por Fairy_morgaine em novembro 4, 2008 09:44 PM
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