Metamorfose
Na casa bafienta em que guardo o teu corpo
chegam-me histórias desfocadas de mães
ausentes. Se atentasse o tempo suficiente
para pertencer às verdades do mundo
saberia que o cordão umbilical
não é fonte de amor. Nem incondicionalidade.
Vejo crianças adultas semear as lágrimas
no chão donde brotam pequenas fadas
ocultas em corpos monstruosos.
Pergunto-me se é do pó das janelas
que me faz crer ver crianças tatuadas
de dor e amargura com que constroem
pontes para mundos longínquos.
Disseram-me um dia que as crianças
tatuadas podem nunca mais voltar.
Perdem-se nos meandros da noite.
Disseram-me também que as fadas
as procuram incessantemente, atraídas
pela luminosidade baça das suas mãos
fracas. Sonho quadros com que visto as paredes
e os espaços vazios. Sonho crianças
livres e iluminadas. Sonho crianças negras e sujas
e feias e escorraçadas. Negras de pancada, de
traições, de amargura. Sujas dos pecados
que ainda não cometeram. Feias aos olhos de todos
menos aos das fadas solitárias do bosque.
[lembro-me de ti, como eras bela e só. lembro-me
que escondias dos adultos a mulher que serias um dia,
os segredos que te pesavam nos joelhos. a forma
como encerraste a tua infância num baú envelhecido.
lembro-me como eras tão docemente imperfeita,
a tua voz segura e os pensamentos agudos
que rasgavam a tua mente.
lembro-me de ti. eras já uma anunciação
de todos os dias e amanheceres tardios,
de todas as noites quebradas na posição
fetal. e sabias já tanto. e não sabias ainda
da imensidão dos teus erros e das tuas dores.]
Existe um limbo onde morrem todos os
corpos abandonados das crianças
que nunca o puderam ser. Disseram-me.
À noite ouço-lhes os gritos abafados.
E os pesadelos psicadélicos.
Em tempos, acreditei que poderia salvá-las,
ter um ventre infinito onde coubessem todos
os que perderam o cordão umbilical.
[lembro-me de ti e de como poderias ter sido tudo.
de ti com caracóis louros e com olhos vivos. lembro-me
que apreendias este mundo e todos os outros.
lembro-me que poderias ter salvo todas as crianças
que conhecesses, como a tua solidão era apanágio
de um novo dia e de um sol a nascer mais cedo.
lembro-me que um dia trocaste os olhos
por umas asas de fada. lembro-me que
partiste em busca das crianças.
que nunca mais voltaste. que te amei como
nunca. que te tornaste morgaine.
que te perdeste. que te soube rasgada,
violentada, já não eras tu, já não eras criança,
já sabias tudo, já sabias demasiado.
e eu, eu não te salvei.]
Em tempos acreditei-me.
Publicado por Fairy_morgaine em outubro 29, 2008 06:57 PM
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