outubro 05, 2008

A queda do anjo

Acendo a tv e as imagens queimam-me
os neurónios, a morte e o cheiro intenso
de desonestidade. O rasgo da humanidade,
o choro das crianças e o pulso fraco da
moribunda verdade.
Bloqueio a transmissão essencial de informação
para apreender ínfimas partes do degredo
que é labuta diária do povo.
Quero cortar o cordão umbilical que me une
aos homens e a deus. Quero cortar
a linha que traça o destino.


Lá fora, no frio da cidade corrompida
homens engolem crianças puras e
apagam a inocência dos justos.
(crianças cospem crianças pelas pernas
desnudas)
No calor da noite vítrea há mulheres
que gritam, os cabelos vincados nos dentes.
As mãos coladas e a incapacidade
de atravessar uma adaga no peito.
(o rio corre para o mar num movimento
infindável)


Noutra terra, noutra poeira,
há corpos que fertilizam o chão que
abandonaram. Os dedos roídos
de sida e de miséria.
Mães afogam as filhas no suor
do campo. Mães entregam as filhas,
vendem-lhes o corpo e a alma.


[O mundo tornou-se infinitamente
mais pequeno. Os braços do tempo
envolveram a queda abrupta
do anjo]


20-09-2008

Publicado por Fairy_morgaine em outubro 5, 2008 01:41 AM | TrackBack
Comentários

Tragicamente realista e actual.

Afixado por: joao norte em outubro 5, 2008 03:12 PM

Querida Sílvia
Não é a primeira vez que presenciamos a queda de um anjo... desde sempre aconteceu... voamos, subimos, olhamos, sentimos, choramos, descemos e misturamo-nos...
Um beijo
Daniel

Afixado por: Daniel Aladiah em outubro 5, 2008 03:23 PM

As quedas dos anjos são choradas pelas estrelas, que caem num rasto luminoso pelo céu...

Blood Kisses

Afixado por: BloodTears em outubro 6, 2008 08:30 PM