A bússola
Escrevo-te cartas saudosas, palavras
com que cruzo a distância e o tempo.
Reflicto-te nas águas queimadas do espelho morto.
Desfilam nos meus olhos todos os momentos
em que a tua voz não me acariciava.
Os enganos, os erros e as aprendizagens banais,
as feridas fétidas e profundas,
o pólo negativo.
Submirjo o corpo na água plana do presente.
No vazio da criação encontro-te.
Plácido. Terno. Verdadeiro.
Fito o teu rosto, os olhos grandes e perscrutadores,
a liquidez do prazer a escorrer-me o corpo.
Piso a areia quente da praia onde enterrei todos
os cadáveres, todos os sonhos, todas as quimeras.
Danço embriagada de ti e do poder das tuas mãos.
Ouço-te. Cheiro-te. Sinto-te.
Procuro-te, atraída pela carícia dos teus silêncios.
Encontro-te. Tens o corpo vergado pelo peso dos anos
e das caminhadas. Pergunto-me se me vês,
na cegueira do medo e da impossibilidade.
Tacteias-me. Murmuras palavras incompreensíveis
enquanto a luz violeta volta aos teus olhos castigados.
Olhas-me. Vês-me. Entras em mim com a força
implacável da água, do rio, do som das palavras inaudíveis,
do ritmo da poesia clandestina, da travessia que entrega o teu corpo
ao meu. Rompes o véu, a barreira, a cortina de água que cobre
a nudez pálida do meu corpo. Transformas
palavras em gestos, gestos em palavras, olhares em destinos.
A bússola da minh'alma esqueceu-se do Sul para
apontar na direcção dos teus dedos.
Publicado por Fairy_morgaine em setembro 24, 2008 10:11 PM
| TrackBack