As palavras moram no silêncio
As palavras moram no silêncio
Do corpo arrastado.
Rompo-as na soleira de uma
Porta transfigurada.
Cubro com elas o espaço vazio
Na minha cama.
Oculto-me.
Todas as palavras aqui são minhas
São tuas, também.
Assim como o espaço vazio que
Teimas em não ocupar.
Na cama. E em mim.
Rasgas-me.
Preenches o tempo e o
Engano.
Preenches a imensidão do branco
Da minha pele.
Desejas-me com a força de um
Desengano.
Cobres-me. Ocultas-me
Escreves em mim os poemas
Futuros.
Sei e não escondo que fodes
Outra no vago da noite, os olhos
Marejados de mim.
Sei e não minto, que atiras as tuas
Mãos em seios que não são meus e em
Túmulos com que atravessas a amargura
Da noite.
Eu sou o teu sorriso.
E a ausência do teu sorriso.
Eu sou a tua insónia.
O rasgo no olho
A mancha na pele.
As crianças loiras e sãs acenam-me
Do outro lado da casa e do espelho.
Os olhos grandes e profundos
são meus e são teus e são um
Jogo de coincidências e magia.
As crianças louras e sãs atravessam
O tempo e tropeçam nela. Aqui. Na
Casa. Na janela.
Ela sonha-as. De manhã, entrega-mas
Num acto de retorno ao ventre.
'Olha-as' - diz-me ela - 'São tuas'
São oriundas do sonho, do conto
Interminável que escorre do espelho.
Não as vês?
Não as Sentes?
Aqui? Palpáveis?
As crianças loiras que Deus roubou
Ao destino e a sobriedade do tempo
Não assombram a tua noite, não roubam o teu sono, as minhas,
As tuas, as nossas crianças? Louras?
Mergulho no esquecimento.
'São tuas...'
'Não as vês?'
'Já esqueceu o sonho a vida?'
'Não as vês?'
'Não haverá nenhum rio a nascer
dos meus lábios para o mar'
'Já esqueceu a vida'
'Não as vês?'
'Sonho contigo'
'Sonho com elas'
'Gemes de noite, quando dormes
e isso aflige-me'
'Tu também'
'Não as vês?'
'E só me contas isso agora?'
'Já esqueceu a dor?'
'Não as vês?'
'Já me esqueceste?'
'Sonho contigo'
'E com elas'
'Já me esqueceste?'
'Esqueço-te'
'Hoje sonhei contigo'
'Hoje sonhei...'
'Não as vês?'
'Engole-me'
'...'
Esqueço.
Publicado por Fairy_morgaine em junho 4, 2008 11:46 PM
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"As palavras moram no silêncio"
Oh, é tão mais doce quando há um silêncio bom que mora nas palavras! É isso que eu te desejo.
O poema é lindo, li-o várias vezes, gosto da tua escrita. Dói.
Beijo*