maio 24, 2008

A manhã

Partes e levas-me contigo, em mais uma de muitas viagens que fazes no silêncio da noite.
Aguardo-te. Sei que eventualmente voltarás, o rosto amargo e os joelhos gastos.
Fio. Fio um cordão umbilical que nos une de forma (im)perceptível.
Afastas de mim a memória das tuas mãos no meu seio. Afastas de mim os teus dentes afiados e a tua necessidade do meu sangue e das minhas lágrimas. Afastas-te.
Não verto uma lágrima. Não posso. Estou a fiar. E quando fio, não existe mais nada no mundo. Nem o Sol, nem a Lua, nem o lago escuro onde banho a pele branca.
Sabes que sonho contigo e com as tuas escuridões. Nos sonhos falas comigo, tocas o meu rosto, bebes as minhas lágrimas. Sim, sonho contigo.
Longe. O vento traz-me sussurros dos teus gritos e do cheiro do sangue que vertes das feridas antigas e reabertas. Podia ignorar. Podia encerrar-me dentro de mim e fingir que não ouço a tua angústia, que não a palpo, que não sei como te dilaceras até que apenas restem os ossos.
Deixo cair o fio que teço. Deixo cair o corpo. Deixo cair o silêncio e grito contigo, na angústia profunda de te saber longe de mim.

A manhã chega, as verdades escondem-se da luz do Sol. Refugiam-se na noite sagrada. Afasto o cabelo do rosto. Ergo o corpo esmagado pela fúria da noite e dos teus gritos lancinantes. Lavo-me. Apago-te. É manhã, e na manhã a nossa solidão reina.
Logo à noite virás. Agarrarás o meu corpo e entrarás em mim com a mágoa de não quereres ouvir-me gemer e sussurrar que não quero que partas. Partirás.
No breu da noite, gritarás. E eu gritarei de impotência. E de manhã, não estarás ali. No quarto. No silêncio.


Não quero que partas…

Publicado por Fairy_morgaine em maio 24, 2008 02:04 PM | TrackBack
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