O momento suspenso
Despes o meu corpo. Despes a minha alma e o teu coração, a meus pés.
Deixas que o tempo se suspenda algures entre a minha atrapalhação e os teus olhos enormes e profundos. Escondes alguns segredos. Desvendas outros.
Imerjo no teu cheiro e no teu cabelo. Faço-te perguntas. Imensas perguntas. Tiro-te o chão. Devolvo-to. Irrompo no teu mundo, com as mãos vazias e a vastidão da ignorância dos erros humanos. Devasto-te. Pergunto-te. E tu respondes. Ou não.
Silêncio.
Olho para ti. Olho para dentro de ti. Vejo-me. Vejo-te. Vejo o teu medo. E o meu. E o abismo, ali tão palpável. Vejo um caminho. Vejo vários. Alguns levam ao fim de nós. Os outros levam-nos para dentro. Para a espiral do âmago.
Escorregas sobre mim e eu seguro a tua mão. Estás ali. Estás sempre. Estás. Sempre. Comigo. E em mim.
Passam-se alguns momentos numa cadência perfeita. Alguns momentos. Momentos eternos. Como os poemas que não permites que leia, embora saibas que te leio os dedos e os cansaços.
Eu sei e tu sabes que parte deste momento suspenso é um erro. Eu sei e tu sabes que parte deste momento suspenso é o momento de felicidade mais perfeito que deus poderia ter criado. Entre o erro e o sonho está cravado o nosso medo. O medo que tu tens das emoções. O medo que eu tenho do abandono. O medo que ambos temos da solidão. O medo que eu tenho de ti. O medo que tu tens de mim.
As palavras que não consegues guardar quando te trago no peito. As perguntas que não colocas porque não é preciso. Eu sou para ti, o espelho em que te reflectes todos os dias.
Tocas-me. E eu suspendo a respiração. Não posso respirar. Quando me tocas. Porque és tu. Porque sou eu. Porque não podemos ser nós.
O momento vai terminar e eu sei que algures espreita o fim. Espreita também o caminho que nos traz para dentro. Da espiral do âmago.
- Nunca me vais abandonar, aqui neste quarto sozinha pois não, amor?
- Não.
- Quando foi que deixaste de reclamar por te chamar amor?
- …
- Deve ter sido algures entre o momento que te tentaste afastar de mim e o que o momento em que não conseguiste.
- Talvez.
- Eu sou o teu sorriso. Hoje e sempre.
- Eu sei.
Publicado por Fairy_morgaine em maio 23, 2008 01:47 AM
| TrackBack