Crónicas do Desespero
Espero que compreendas que estou saturada que me vendas teorias como se fossem verdades inabaláveis. Os teus caminhos já não me são sagrados, e o meu corpo já não te sabe.
Entende, ao menos, que no fundo já não preciso de ti. A Solidão que me roeu o corpo já é minha velha conhecida. Não há nada que me separe do Abismo. Nem tu, nem ninguém. Nem estas palavras gastas com que envolvo a escuridão.
Há muitos anos atrás tive uma irmã. Era bela e jovem e tinha os olhos enormes e avelã. Era deliciosamente imperfeita. Erguia-lhe um altar e oferecia-lhe palavras como quem oferece ouro. Ensinei-lhe onde se encontrava cada árvore, cada segredo do bosque infinito que é a minha alma. Compreende, que em tempos, tive uma irmã.
Quando chovia e a cor desaparecia do céu e dos telhados, eu pincelava quadros para a minha irmã e dizia “Não me importa que os rios sequem e os olhos mudem, porque a minha irmã estará sempre aqui e será sempre bela. Os seus braços serão eternos e neles poderei apagar as minhas lágrimas. Não me importa o destino nem a injustiça do tempo, porque ela estará sempre para apaziguar a minha dor”.
Compreende, que em tempos, tive alguém. E então o mundo mudou e ela partiu e nunca olhou para trás, para que o seu corpo nunca fosse Sal e as suas mãos nunca fossem folhas de Outono. Nesse dia eu soube que o Amor não é eterno e que o Tempo que chove em mim não é o Tempo do Mundo Novo.
O Tempo, aqui, não chove. O Tempo, aqui, desgoverna e leva as almas como um Rio implacável e muda tudo no seu caminho. Compreende, que em tempos, tive Esperança no Tempo e na Imensidão do sentir. Compreende, que em tempos, eu fui inocente.
Não há nada em mim, agora, que possa acreditar que o teu rosto estará para sempre no quadro da minha vida. Não há em mim, sequer, uma réstia da criança que fui.
Compreende, que já não posso mais lutar e gritar no silêncio que crias no meu coração. Já não há mais nada que ligue o meu olhar ao teu sofrimento.
No fim, eu sei que sofri muito mais do que tu e que tu nunca viste nem verás nem saberás nem metade do meu Inferno. No fim, eu sei que não és mais que um espectro egoísta que ficará enterrado no meu Passado e que eu abraçarei nos momentos de maior desespero. No fim, nada mais resta que os teus olhos e a promessa de um amanhã que nunca foi o que poderia ter sido.
No fim, só ficou o Vazio…
Publicado por Fairy_morgaine em fevereiro 1, 2008 12:35 AM