junho 05, 2007

Amor intemporal (o destino do corpo)

Conheço o vazio como quem sabe o destino do corpo mole.
Conheço todos os rostos que abandonei na beira da estrada,
que violei e conheci de forma impetuosa deixando-lhes
a vil marca escura do meu toque e do meu beijo.
Sei-te perdido no mundo egoísta da poesia, no
beco faminto da filosofia, sei-te embrenhado nas tuas letras
e na soma branca dos teus olhares.
Conheço o caminho sujo que leva aos pés de Deus.
Conheço também a indiferença da Natureza perante
a morte do homem e do lobo, da baleia e do unicórnio.
No céu nocturno há uma estrela que se rebelou contra Deus.


Espero tranquila a morte do sofrimento.
Vejo rostos e sonhos que perecem ao fim da tarde quente,
nas ruas de Lisboa. Aqui no limiar da sanidade
sente-se tudo mas não se sente nada ao sentir o infinito.
Espero tranquila o nascimento da vã esperança.
Morrem em mim os dedos suaves e belos
com que passeaste o meu corpo e escravizaste a minha alma.
Amo-te demais e esse amor proibido corrói tudo o que sei,
tudo o que sinto, tudo o que crio, tudo o que é meu.
Deito tudo o que conheço a teus pés,
dou-te até a estrela rebelde que iluminou as minhas noites,
dou-te mesmo a minha honesta decadência.
Ensino-te assim que neste amor não há limites
nem certos nem errados. Não há nada neste amor
para além dele mesmo, nem Deus, nem a indiferença da Natureza
pura, nem o lobo, nem o homem, nem mesmo o som grave do piano.
Acabo assim, fundida em ti, perco a noção do Eu, perco a dualidade
do corpo e da alma, eu não sou mais eu, nem tu, nem ninguém,
eu sou apenas um traço do teu rosto, um sorriso dos teus lábios,
um suspiro da tua boca.
Finalizo-me feliz, estupidamente enganada que alguma vez
poderás sentir o traço esculpido do rosto e saberes que nele padeci
e deixei de respirar e deixei de ser Eu.
Deus não me salvou da insanidade nem da Poesia.
Deus não me salvou de mim. Nem de ti. Nem do Amor intemporal
que semeaste no meu coração.

Publicado por Fairy_morgaine em junho 5, 2007 07:17 PM
Comentários

Mágico!
Palavras que nos desnudam a alma como a mais perfeita e completa confissão que possamos fazer...

Afixado por: João em junho 7, 2007 03:50 AM

Deus não te salvou também de meia dúzia de pessoas dementes, de um curso infindável, e de uma madrinha (a par com outras promitentes madrinhas). Resumindo: Deus não te salvou da quantidade ingente de esterco que recolheste na tua vida. E o esterco, ao que me parece, padece de um grande mal - o milagre da multiplicação.

Beijinho
-> madrinha sentida e magoada <-

Afixado por: a_tua_madrinha em junho 10, 2007 02:24 PM

Lindo :)

É bom voltar a ler-te *

Sissi*

Afixado por: Silvia em junho 10, 2007 08:28 PM