outubro 19, 2006

Pombas brancas

"Tell the truth you never wanted me... Tell me"


As verdades que ocultas
são como pombas brancas
imaculadas, nas minhas mãos.
Pequenos pontos referenciais
do teu corpo abandonado
na estrada que é a minha cama.
A ausência pesada do teu coração
e a chama fria da tua respiração
no meu pescoço que não queres
e não anseias. E que é
dolorosamente teu.
O negro opaco das paredes
que aprisionam os teus braços
e condenam as tuas lágrimas
ao fio condutor das minhas
pernas. O rio sereno que
apaga as pegadas suaves
que deixas nas noites em que
me tomas e me esqueces.
O vento fustigante que
grita lá fora as verdades
incompreensíveis
da tua aparência serenamente
quedada no final da existência.
Amanhã, dizes-me tu,
já não irás acordar
e as tuas pálpebras
fechadas vão cruzar
os sonhos de todas as mulheres
que amaste.
Deleitas-te com a única
maçã que os teus lábios
provaram, a verdade inabalável
da árvore vital.
Sabes-me.
Tocas-me.
Escondes os papéis com
os quais tapas o rosto
todas as noites que não
estás aqui e que percorres
o corpo nu de todas as mulheres
que amaste.
Proteges-me, pensas tu.
Proteges-me da tua ausência,
do teu rosto branco,
da barba hirsuta,
dos dedos esguios e assassinos.
Degustas as palavras
que um dia escreveste
para todas as mulheres que amaste.
A noite é um maravilhoso caleidoscópio,
dizes-me.
A noite é um manto que cobre
os erros da humanidade.
Deitas-te no chão.
Páras de respirar.
Deixas de existir.
Morres-me.
Morres.
Morres ao lamentar
todas as tuas ausências.
Deitado.
Finalizas a tua existência
sem poemas, nem palavras,
nem pombas brancas.
Nunca me irás contar as tuas verdades.
Morreram contigo.
Morreram contigo,
quedo,
aqui comigo.
Negro. Coberto pelo
manto materno da noite,
o ventre cansado e imortal
da lua cúmplice dos teus
desvarios febris.
Morres-me.

Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em outubro 19, 2006 06:52 PM
Comentários

Ela escreve muito bem!

Um poema extraordinário.

Afixado por: João Norte em outubro 19, 2006 08:39 PM

Fabuloso, Sílvia! Talvez se morra mesmo dessa forma. Inconscientemente devastado por todas as peles, sabendo que apenas uma era a que deveria ter permanecido. Mas quem sou eu, se me perco nas minhas próprias ausências?
Beijos, miúda genial

Afixado por: unicus em outubro 19, 2006 08:57 PM

Querida Sílvia
Mórbido e sofrido...
Que seja só literatura.
Um beijo
Daniel

Afixado por: Daniel Aladiah em outubro 23, 2006 09:43 PM

Poupo-te...
Por favor não penses que não te quero mais.
Tenho de ir... sabes que vou...
Poupo-te a dor de te amar mais uma última vez.
Vou sozinho, montado nas lembranças que me deixas.
Não vou por querer, mas por ter de ser...
E se não controlo este meu fado, controlo então a tua dor...
Mas não duvides... é amor...
Mas não te posso amar quando me despeço, quando parto para parte incerta.
O fado é meu... O fardo de ninguém!
Levo-te comigo, mas não te quero deixar mais marcas de mim.
O sorriso com que parto, foste tu que mo deste.
Todas as outras mulheres que te disse que amei...
...
mentiras puras que saiem da boca numa angústia que me contorce o ser...
Mas não tens de sofrer.
Sou eu que vou...
A morte por vezes é penosa, por vezes inimiga.
Não julgo a minha morte...
Vivi-te em toda a minha vida...

Um beijo,
Sandro

Afixado por: Sandro em outubro 26, 2006 12:47 PM

Adorei o que escrevei, porém, após ter lido a resposta do Sandro pude perceber, o tamanho do amor deste homem por voce,pois renunciou os seus ultimos momentos de prazer ao lado de seu grande amor, para tentar poupa-la da dor da partida, inútil bem verdade pois, se ha uma dor que não tem rémedio é esta, pois guardo dentro do meu peito a 17 anos a dor de ter perdido bruscamente por um tiro fatal, omeu primeiro e inesquecivel amor.Por tanto aconselho a vcs que não antecipem a sepação que será inevitável...

Um abraço.

Afixado por: Dinha em outubro 27, 2006 08:01 PM

Tanta sensibilidade, ternura e ao mesmo tempo, tanta energia destrutiva, tudo isso em uma mesma pessoa.

Você tranpira emoções em suas palavras, dá para sentir a brisa e a tempestade vindos do seu interior.

O que está escrito é muito menos do que esta entre as palavras, você é incrivelmente transparente, sem filtros, sem freios, sem forças, que possam impedir tanto sentimento...

Um dia quero poder sair das cinzas e ao orvalho dizer ao mundo que também tenho um coração.

Afixado por: Marcos em novembro 4, 2006 03:20 PM