agosto 30, 2006
A verdade da mentira
Apesar dos anos me pesarem nas mãos e me curvarem os ombros sou jovem. Há algo de inexplicavelmente jovem nos meus olhos, uma fé inabalável no amanhã da humanidade. Um toque de seda no coração. Um impenetrável suspiro.
Apesar do destino me apagar os sonhos e me ensinar que ninguém é infalível, que amanhã todos me vão desiludir e claro que vou acreditar neles outra vez, porque é dessa massa que sou feita, desse explodir encantado de braços, muitos braços que envolvem o mundo e as crianças e os animais e os sorrisos e apagam as lágrimas e sorriem a todos por entre os meus cinzentos.
Apesar das horas que escondem o meu semblante, que me mostram tão diferente, tão mudada, tão estupidamente mulher, tão esquecida de mim menina.
Apesar dos momentos em que me quedo na cama, cansada, arfante, cansada de arrastar o corpo morto por entre os escombros das minhas ilusões, tão cansada meu deus, tão cansada... Apesar dos momentos em que me falham as palavras, em que as procuro, em que as tomo para mim, em que as engulo e as degluto e as emaranho no meu peito e as trago para os outros e lhes finjo e lhes finjo infinitamente ter descoberto sentidos que a vida não tem, não, não, a vida não tem sentidos e não tem ângulos, a vida é circular. Apesar dos azuis e dos liláses, dos vermelhos e dos negros, dos abusos e dos esgotamentos, apesar de ti e de mim e de todos e do passado e do presente e do futuro...
Apesar das letras a unirem-se em frases, a criarem espaços onde jamais irás habitar porque não podes, porque não sabes, porque intimamente não queres como nunca ninguém quis, apesar da chuva e do sol e do vento e do recomeçar, apesar dos pássaros e dos cães e do meu cão e do seu sorriso sem lábios, do seu sorriso impresso nos olhos porque sim, sim os olhos também sorriem e choram, eles choram como só o coração sabe chorar. Apesar das lágrimas com que hoje deturpei a minha visão, apesar das tuas mãos a enchugarem as lágrimas que ninguém fez cair, apenas eu, apenas eu e a minha triste incapacidade de gritar dentro do silêncio, do amargo silêncio.
Apesar do teu corpo deitado, apesar das famílias e dos seus engodos, apesar dos amigos e das suas ausências, apesar da minha mãe e da tua e da falta que os seus ventres nos fazem e do cheiro intenso a éter dentro da minha cabeça e do latejar incessante das minhas têmporas, apesar da morte e da vida e da morte da vida e da vida que existe dentro da morte, apesar dos perdões que iremos conceder antes que a morte nos ceife e nos semeie de novo, apesar dos peitos que nunca iremos estreitar contra o nosso, apesar do apesar, apesar do meu rosto ali, pálido e branco e sereno e neurótico e circular, apesar do piano, apesar do violino, apesar da relva e do chão e do céu e de tudo e de tudo e de nada...
Apesar de mim e da outra que vive em mim, apesar do silêncio...
Eu respiro. Eu vivo. Eu acordo. Eu morro. Eu renasço. Eu sou. Eu vou... sem rumo. Sem fim. Sem príncipio. Eu sou... eu sou terrivelmente verdadeira.
Publicado por Fairy_morgaine em agosto 30, 2006 12:19 AM
Não te conheço...
Não sei o queés, embora saiba que o és, não sei a que cheiras, embora reconheça que devas ter um cheiro característico, temos todos..
Não sei a tua cor preferida, embora já te tivesse pintado de azul, vermelho, amarelo e laranja, de cinzento e até mesmo, por vezes, de preto...
Mas sei que estás. Seja de que cor for, estás... Por vezes maravilhosa, outras mais cinzenta...
Ma sempre "terrivelmente verdadeira"... e gosto disso...
Apesar dos apesares todos ainda bem que estás viva.
A vida são os apesares.
beijos
Conheço poucos capazes de uma escrita tão pessoal e intimista...e tão universal. Ou serão as nossas diferenças apenas máscaras onde escondemos ansiedades, medos e desencantos tão absolutamente semelhantes?
Soberbo, como sempre.
Parabéns.
Conheço poucos capazes de uma escrita tão pessoal e intimista...e tão universal. Ou serão as nossas diferenças apenas máscaras onde escondemos ansiedades, medos e desencantos tão absolutamente semelhantes?
Soberbo, como sempre.
Parabéns.
Conheço poucos capazes de uma escrita tão intimista e no entanto e ainda assim...universal. Ou serão as nossas diferenças apenas máscaras onde escondemos ansiedades, medos e desencantos tão absolutamente semelhantes?
Soberbo, como sempre.
Parabéns.
Querida Sílvia
Tu és verdadeira.
Um beijo
Daniel
A verdade que eu nunca vira assim escrita - este pequeno tesouro que tenho o previlégio de ler e absorver e saborear - esta pérola aqui exposta, ponto por ponto, faz-me erguer a cabeça, levantar os braços e aplaudir, entusiasmado.
A mentira só pode ser verdadeira dentro da verdade a que pertence.
Parabéns!
apesar de tudo ainda te adoro ler.
apesar de euter mudado muito
apesar de ser tanto que nem imaginas
apesar de tudo és unica nesta maneira linda de escrever
adorei esta passagem pelo teu blog
Somos quem somos mesmo que por vezes isso não nos baste.
beijos
nas possibilidades que és, que fazes das que não és?
A última frase é uma mentira... mas fica sempre bem... no fim.
Dark kiss.
A vida na sua vastidão de incertezas e incoerências, injustiças e crueldades torna-se por vezes num inferno, a quem procura o céu nela. Porém, talvez não seja a vida que tenha culpa, mas sim a direcção que queremos que ela tome, seguindo o padrão dos nossos desejos e dos anseios, os quais idealizamos, no complicado mundo dos nossos sonhos, onde planeamos o que queríamos que a nossa vida fôsse, e as cores que pretendiamos que ela pintasse na tela da nossa existência, e quando a vida não segue os parâmetros que determinamos que ela contemplasse para nós, jamais podemos cair num mar de tristeza e amargura. Não podemos nos sentir frustados de ela não nos oferecer os favos de mel que dela exigiamos. Talvez ao invés de exigirmos, pedissemos. Talvez ao contrário de querermos sómente para nós os favos, os aceitássemos dividir com os iguais que tambem como nós, guardam a esperança de os saborear. Mas porquê baixar os braços, se não somos dônos da nossa própria vida? Muitas felicidades para a rainha das fairys.
Dominio dos Anjos