maio 20, 2006

Memórias a preto e branco

Existem pessoas que apenas vivem nas minhas memórias.
São donas de sorrisos e mãos que nunca mais se pousaram nas minhas.
Estremeço quando me seguram nas mãos. É como se, por um momento, lessem toda a minha alma, todos os meus segredos, todos os caminhos que não ousei tomar.
Essas pessoas, esses sorrisos, levou-os a vida. Arrancou-os dos espaços onde me habituei a vê-los. Onde sabia, poderia encontrá-los.

Quando estou parada... nunca sei onde hei-de pousar as mãos. Deve ser por isso que aprendi a carregar livros. Para poder abri-los.
Ocupar as mãos. Escondê-las.
Às vezes, esqueço-me delas desmaiadas no regaço. E as pessoas lêem-me as mãos. Esquecem o tempo.
Esquecem-me em detrimento das mãos.

Existem memórias que só existem dentro da minha memória...
Vão-se esbatendo com o tempo. Mesmo quando pensamos que são espelho de um acontecimento tão nítido e singular que jamais se apagarão dos nossos olhos.
Ainda assim, os pormenores somem-se. Desaparecem.
Suponho que seja por isso que gosto de recordar. Rir-me de piadas gastas. Rir-me de piadas que só eu conheço o sentido. Rir-me de situações que só eu lembro.
Rir-me perdidamente. E depois ficar muito séria. Estupidamente séria.
Saber que, dali a dez anos já não me vou recordar de todos os pormenores que dão o colorido à memória.
Lentamente... elas tornam-se a preto e branco. Por muito que as recorde... Que lhes tente dar vida. Que sorria, que chore, que as abrace contra mim.

Quando caminho pelos corredores das gares do metro... As pessoas vão e vêm a uma velocidade estonteante e eu julgo sempre que vou em sentido contrário ao da multidão.
Nunca vejo quem vai ao meu lado.

As memórias tornaram o meu rosto preto e branco.
As crianças são as únicas que me ficam na memória gravadas a cores. Os meus irmãos... Pequeninos. A J. Pequenina. Os imensos caracóis. Os olhos pequenos e marotos. O riso fácil. O M. Pequenino. As pernas rechunchudas. As bochecas brancas. O sorriso tímido. As mãozinhas pequeninas. Onde eu lia pedaços da minha vida. O M. sentado no meu colo. Eu a enterrar os meus dedos nos seus caracóis infinitamente suaves. Ele a estender-me os bracinhos pequeninos. São... infinitamente coloridos.

Quando escrevo as mãos tomam vida própria. Os dedos. As falanges de onde emergem os fios que me ligam a deus.

As memórias... a preto e branco compõe o quadro da minha vida. Compõe-me. Esboçam risos e lágrimas e poemas.
Quando escrevo as memórias voltam a viver e a dançar e a ficar coloridas.
E a J. e o M. tornam a estender-me as suas mãozinhas pequeninas.

Publicado por Fairy_morgaine em maio 20, 2006 04:41 PM
Comentários

"quando escrevo as memórias voltam a viver"

lindo e real ao mesmo tempo.


Um beijo.

Afixado por: João Norte em maio 20, 2006 06:27 PM

olá, como entendo as tuas memorias feitas de vidas e de sonhos...

Afixado por: lobodomar em maio 20, 2006 10:50 PM

tão bonito!

Afixado por: lyra em maio 21, 2006 03:15 AM

As tuas memórias podem perder a cor, mas nunca desaparecerão, pois elas sãos o que de bom fica.
Lindo texto...

Afixado por: Necare em maio 21, 2006 12:44 PM

Tal como o quadro de Edward Munch, agora percebemos o verdadeiro sentido deste blog.

Temos dito.

Alfinete Tobias

Afixado por: Alfinete de Peito em maio 21, 2006 02:28 PM

entre

Afixado por: silêncio atrás da porta em maio 21, 2006 05:16 PM

Ligam-te, de facto, a deus...O poder maior sai-te pelas mãos. O dom

Um beijo

Afixado por: Princesa* em maio 21, 2006 08:45 PM

Sublinho-te as memórias de sentimento por este lado também, e juntas traçam um post memorável. Vai fazendo mais, :)

Afixado por: Rising deecaY em maio 24, 2006 04:42 AM

As lembranças. em branco e preto ou a cores... nao importa
importa apenas que sejam coisas que nos façam crescer.
te beijo

Afixado por: Nefertari em maio 24, 2006 09:30 PM

Esses dois nunca estiveram tão perto :)
Merece-los.

Afixado por: OffLimitZ em maio 25, 2006 01:53 AM

Tens as mãos duma vida, tal como alguém que tem a vida nas mãos… Porque nelas possues memórias que desencadeiam risos de vária ordem… Nem sempre essa ordem é fixamente entendível. Por vezes, passam despercebidas oportunidades que correm junto à multidão. Multidão desconhecida, multidão fraterna que traz recordações e faz brotar a vida nos dedos de uma mão. Mãos da vida, umas a preto e branco, outras coloridas, mãozinhas pequeninas...

Afixado por: Amaral em maio 26, 2006 11:54 PM

As memórias são o livro que vamos escrevendo, são o ensinamento que vamos colhendo, são retalhos de nós, momentos que ficaram estáticos no tempo, são a imagem de nós, vista do futuro.

Afixado por: Noite em junho 2, 2006 04:40 PM

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Afixado por: mary em agosto 27, 2006 03:28 PM