abril 17, 2006

A inconsequência dos teus actos repetitivos

"Telefonei-te.
Mais uma vez, cega das (im)possibilidades.
Saber-te aí, num sítio qualquer, a beberes as tuas palavras, a embriagares-te de inutilidade, a tornares-te fútil, a arruinares o sentido das tuas memórias. Não aguento.
Não, não, não...
A repetição infantil dos meus próprios erros e fatalidades, puxar o teu nome da lista enquanto tento acalmar o corpo febril na cama vazia.
Trazer-te até mim.
Ouvir a tua voz embargada da emoção de seres tu, tão negro e errado e azul. E saberes que, aqui, eu me retorço na inevitabilidade da ressaca das tuas mãos na minha pele.
Dizer-te
: diz que sou a pessoa mais importante da tua vida...
Ouvir-te suspirar, abatido pela força da ausência de outras palavras que não estas: claro que és...
Saber e ouvir no silêncio que me mentes com um sorriso escarninho nos lábios.
Desligar e morrer mais uma vez no calor da noite muda.
Escrever numa folha de papel estéril a verdade da tua ausência. Da ausência de verdade em ti.
Do teu rosto esquálido no líquido do espelho que te mostra a inconsequência dos teus actos repetitivos."

Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em abril 17, 2006 06:42 PM
Comentários

Um texto que me recorda muito de mim...
Gostei!
Um abraço e continuação de uma Páscoa serena...

Afixado por: Poesia Portuguesa em abril 17, 2006 07:12 PM

Que bom ler-te!
Obrigado... a ler-te!
daniel

Afixado por: daniel santi'ago em abril 18, 2006 12:59 PM

Quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama

Afixado por: Carlos em abril 19, 2006 08:52 PM

Forte!
Olá amiga, que bom ler-te, adoro! Parabéns sempre.
Muitos beijinhos.

Afixado por: anne em abril 19, 2006 09:39 PM

Abril é um mês tão estranho. Pra ele, pra ela. Pros dois...

Abril também é um mês estranho pra mim...

(oi, perdoa, é que eu tava matando a saudade de teus textos...)

Seth, o que continua sem asas...

Afixado por: Seth em abril 20, 2006 05:42 AM

:)
e continua azul*

Afixado por: Lúcia em abril 20, 2006 12:45 PM

Já não é necessário dizer que o teu texto é lindo. São todos.
Entretanto tu arrastas outros. Refiro-me ao soneto aqui deixado pelo Carlos.Muito bonito também.

Um abraço a ambos.

Afixado por: João Norte em abril 20, 2006 02:57 PM

Gostava de escrever assim quando estou feliz. Só sei fazer isso quando estou deprimida.

Afixado por: kate em abril 20, 2006 10:00 PM

profundo...*

Afixado por: osimachina em abril 21, 2006 12:12 AM

Olá,
Fairy Morgaine (a meia irmã do Artur), em alemão quer dizer miragem, não é? Coisa curiosa, esse fenómeno, no qual os nossos olhos "projectam", num ecrâ feito de refracções, aquilo que o nosso cerebro gostaria de ver. É uma espécie de magia, das que desconsolam.

Afixado por: Goiaoia em abril 21, 2006 12:20 PM

São estes textos, este sentimento, que faz que ao voltarmos de uma ausência prolongada, nos apercebamos do que realmente faz falta!
Tinha saudades de te ler...
Um beijo

Afixado por: Sandro em abril 21, 2006 03:22 PM

um sentimento nem sempre pode ser da cor do nosso desejo...

beijos

Afixado por: contador de histórias em abril 21, 2006 08:19 PM