fevereiro 08, 2006

O abismo de Ana Capítulo I parte II

01 de Janeiro de 2005 - 00:15 am

Ana olhava-se no espelho. Os olhos grandes estavam vazios de algo que ela não sabia o nome.
Ana sentia-se vazia. A razão? Apenas porque sim.
Existiam dúvidas e respostas dúbias que lhe emendavam o espírito e as náuseas da passagem de Ano. Ana sempre detestou as festividades.
Porquê? Porque sim. Qualquer razão seria só sua e logo, necessariamente (in)suficiente.
As nossas razões são-nos sempre muito chegadas. Muito nossas. Necessariamente patéticas.
Era nisso mesmo que Ana pensava quando olhava o escuro pintado de cor na janela. A janela sempre tinha sido um meio de olhar os outros. Os seus olhos eram janelas sem direcção.
Os seus olhos eram manchados de cor.
Ana deixou-se cair na cama e suspirou. Tinha de estudar para os exames da faculdade durante essa semana e não lhe apetecia.
Porquê? Seria demasiado óbvio dizer "porque sim". Porque Ana sabia que não tinha escolhido a faculdade certa. De qualquer das maneiras, ela não sabia qual a faculdade certa porque nunca a tinha cursado. As faculdades certas são aquelas que sabemos como funcionam e nos fazem sentido. Quando saímos do Ensino Secundário nenhuma faculdade é certa. Não conhecemos nenhuma.
Ana sentia-se melancólica. Gostava de poder beber até o corpo deixar de lhe doer aquela dor permanente de não saber que rumo seguir e não ter forças para o encontrar.
Ana sabia-se deprimida. E isso... não lhe importava minimamente.
Percorreu o rosto no espelho e sentiu vontade de lhe cuspir pela sua fraqueza, pela sua mediocridade gritante.
Não existe nada pior que a mediocridade.
Pelo menos não existia para Ana.
Nem para o namorado.
Seria importante para ela saber onde estaria ele, naquela noite escura pintada de cor?
Essa era uma dúvida pertinente. Válida. Fiel aos seus sentimentos.
Ainda assim, não fez qualquer gesto para lhe telefonar ou enviar mensagem. Nem mesmo um e-mail.
Tinham combinado na semana anterior que Ana ficaria com os pais (uma decisão acertada, segundo lhe tinha explicado o irmão) e que Marco iria sair com os amigos, ou comparsas, ou algo assim.
Tinham combinado... Mas não deixava de sentir raiva pelo excesso de liberdade do namorado e o excesso da sua reclusão.
Por momentos fitou a medicação que estava na mesa de cabeceira. Tomava-a há demasiado tempo para não lhe ocorrer que poderia terminar com tudo.
Com a doença que lhe consumia os nervos, com o namorado ausente, com os pais autoritários, com o irmão imaturo.
E no entanto...nunca o fazia. Gostava de pensar que era uma escolha sua continuar viva.
Que podia desafiar o mundo e a vida e a morte e continuar a acordar mais uma manhã.
Simplesmente, nem sempre via muito sentido nisso...
Porquê?
Provavelmente... porque sim.

Publicado por Fairy_morgaine em fevereiro 8, 2006 05:32 PM
Comentários

tou a adorar... volto para a continuação...

Afixado por: deusadosol em fevereiro 9, 2006 05:23 PM

eu também volto para a continuação. :)

Afixado por: Silvia em fevereiro 9, 2006 11:43 PM

Promete... promete..

Afixado por: Sandro em fevereiro 10, 2006 02:43 PM

quero ver o resto... :)

Afixado por: Saliva em fevereiro 10, 2006 07:02 PM

Parece-me que vem lá uma pérola geradora de ostras... ;)*

Afixado por: a_tua_madrinha em fevereiro 11, 2006 10:41 AM

Eu gosto da tua Ana. Já me apanhaste com a sua história! Vou segui-la ;)

Afixado por: FataMorgana em fevereiro 14, 2006 12:10 AM

Olá

O teu blog, surgiu-me quandod eu escrevi umas palavras no Google, essas palavras apareceram num dos teus poemas. Gostei muito, escreves muito bem e és criativa. A partir dai, venho de vez em quando fazer aqui uma visita...

Estive a ler "O Abismo de Ana"....está interessante. Também, fiquei curiosa para continuar a ler.

Jinhos

PS - Fica a qui o endereço do meu: http://desabafosdiaadia.blogspot.com/

Afixado por: Rita A. em fevereiro 15, 2006 09:53 PM

A tua Ana não tem um único motivo válido para se sentir deprimida. Porquê? Porque não!
Ana tem os seus pais e tem um irmão. Estuda, fez o secundário e entrou na faculdade. Namora.
Ana é uma jovem. Tem uma vida "enorme" à sua frente. Tem um caminho "árduo" a percorrer. Tem muito, muito ainda para conhecer… para evoluir como ser humano…
Se não lhe apetece estudar, isso não passa dum estado de ser "passageiro"; se não sabe se a faculdade escolhida foi a "correcta", isso é um problema menor, porque a vida é muito mais do que isso; se não sabe que rumo seguir, isso é uma "quebra de personalidade" momentânea que, com uma perspectiva diferente, pode corrigir...
Ana sente-se deprimida, sente-se medíocre, "por isso"???... A mediocridade pode ser um conceito. Nunca uma via, muito menos uma ideia para um estado de alma…
Ana hoje namora, mas amanhã pode decidir ter outra forma de viver, que lhe traga mais alegrias, maiores encantos… Ana tem "todo o tempo do mundo" para se reencontrar como mulher, como estudante, como ser humano… Porque o mundo e a vida continuarão a sua marcha, quer a Ana queira, quer não!... O que a Ana "deve" é retirar da vida toda a sua beleza e gozar de todas as maravilhas que ela contém!...

Afixado por: Amaral em fevereiro 16, 2006 08:10 PM