janeiro 25, 2006

As rainhas da noite

Percorro o quarto escuro.
Junto a mim jazem corpos de mulheres que fodeste ao longo da vida.
"Não importam. Não são nada para mim." - dizes-me tu.
Eu tento acreditar. Evito os corpos e as lembranças e o sonho quebrado que morre na cama lavada.
Sempre olhei para as pessoas com os olhos que olho para mim. Sempre me ouvi e me soube e assim tentava saber os outros.
Esse é o meu grande erro. O meu pecado.

Jazem os corpos de mulheres nuas e podres.
Vejo-as vezes sem fim a montarem-te, a serem montadas, a ganirem aos teus ouvidos.
Vejo-me a mim, pequena e feia e desajeitada, uma sombra apagada do glamour decadente das rainhas da noite.

Tento entender-te segundo os meus olhos e não entendo.
Tento desviar-me dos corpos mortos que jazem no chão do nosso quarto onde morre o sonho, mas tropeço neles e caio uma e outra vez e a porta parece cada vez mais longe.
E mais distorcida.

Queimo-me em lágrimas e angústia e medo e vergonha e cubro-me e não quero jamais que me vejas nua.
Jamais.
O som abafado das minhas lágrimas a rasgarem a penugem imperceptível da minha pele toldam-me os sentidos.
Deixo de ouvir a tua voz a explicar-me pela milionésima vez que sou a fada que salvou a tua alma de cair no abismo.
Deixo de te ouvir.

Queria apenas que tirasses estes corpos fétidos do nosso quarto.

Publicado por Fairy_morgaine em janeiro 25, 2006 11:01 AM
Comentários

Na beleza do texto prepassa o sentimento do ciúme.
Horrível esse sentimento, arrasa-nos a alma.É o contrapeso e o preço do amor. Sofrível!

Afixado por: João Norte em janeiro 25, 2006 12:23 PM

Porque as outras morreram nuas para ele e tu queres viver...

Afixado por: OffLimitZ em janeiro 25, 2006 11:22 PM

What pornography is really about, ultimately, isn't sex but death. (Susan Sontag)

Afixado por: jctp em janeiro 25, 2006 11:51 PM

Nada pode toldar os sentidos, principalmente nos momentos mais críticos. Medo, vergonha, angústia para momentos onde a lucidez deveria estar mais presente. Continua a ouvir! Mas ouve, antes do mais, a tua voz sem compromissos, sem abismos à tua frente. O drama só é criado na nossa mente, se os pensamentos a povoarem com o "inferno" que estivermos a criar... Nunca é tarde para aceitarmos o que parece inaceitável. As escolhas finais são sempre tuas...

Afixado por: Amaral em janeiro 26, 2006 01:08 AM

comecei a ler e achei que no final ia estar lá. o nome; Irina Santos. mas não estava. e se calhar foi isso que mais me surpreendeu. :) mas afinal...sao todas uma só..

Afixado por: lyra em janeiro 26, 2006 10:39 AM

Forte o texto...
Muito forte!

Mas o passado não deve condicionar o presente, certo?
Se calhar és tu que as tens de tirar do vosso quarto.

Um beijo

Afixado por: Sandro em janeiro 26, 2006 11:06 AM

o ciúme no seu extremo.
o texto flui lindamente apesar das imagens negras.
gostei muito.
beijos

Afixado por: Betty em janeiro 26, 2006 12:23 PM

faz-me lembrar alguem..
ele diz sempre o mesmo.. a todas..

Afixado por: Lúcia em janeiro 26, 2006 08:30 PM

Tão real... Adoro este pelos sentidos. Aprecio a forma como tornas o poema vivo :*

Afixado por: ashfixia em janeiro 26, 2006 10:14 PM

por dentro do teu texto, a forte genealogia da propriedade, vivida em corpo, numa espécie de corp-hors-texte.
Acrescento (será possível?) a amargura final de uma mulher que considerava o espelho um parente afastado e mesquinho: "Não consigo estar nua, a pele não deixa"

Afixado por: poma em janeiro 26, 2006 10:41 PM

Fazia-me falta a entrega intensa do dark side" tão claramente exposto, descrito e bem escrito por ti.***

Afixado por: hirondelle em janeiro 27, 2006 04:37 AM

Saudades de ler uma coisa que me arrepiasse por mexer cá dentro em coisinhas arrumadas que finjo esconder. Afinal também vês corpos fétidos e tens medo que te vejam nua, afinal os fantasmas não são só meus...e eu que pensava serem

Um beijo muito grande cheio de uma cumplicidade que me deste nestas palavras

Afixado por: Princesa* em janeiro 27, 2006 12:30 PM

Oi...
o amor é uma loucura não é?
a tristeza nos invade, a alegria também!

te beijo

Afixado por: Nefertari em janeiro 27, 2006 09:43 PM

No ártico o nobre urso polar decompõe rapidamente os "corpos fetidos" e não se importa se são ou não belos.

Convido-te a assistires ao acender do rastilho. O iceberg vai arder.

Afixado por: Esquimó em janeiro 28, 2006 05:11 PM

Já me senti assim... Mas não consegui descrever como tu... Obrigado por usares as palavras de uma forma tão espcial e conseguires dizer algo qu eu não consegui traduzir...

Afixado por: sara em janeiro 29, 2006 09:46 PM

adorei.adorei.adorei.adorei.adorei.adorei e digo-te mais:
é a 1ªvez q aki venho e nunca mais te perdoo:
tens um castigo:
escreverás até que as mãos te inchem para eu vir aqui todos os dias.
parabéns

Afixado por: Miguel em janeiro 31, 2006 02:55 AM

Todos esses corpos fétidos, fantasmas nesse quarto que se quer de um sentimento impar espalham cinzas para que deites o corpo nu sobre elas. Não deixes que o teu corpo seja mais um que deambula num qualquer espaço à procura da sua alma...!Porque nenhum corpo reconheçe outro que se perdeu na inércia.
Forte e belo este texto!
Que força imprimiste nas palavras...os meus parabéns!
Um beijo*

Afixado por: BloodyMary em fevereiro 1, 2006 01:25 PM

Impressionante o texto... Intimista o tema... Uma lição a força que se ergue de tão triste sentimento... a queda de um sonho...
Sublime... adorei

Afixado por: Pandora em fevereiro 2, 2006 10:42 PM