agosto 05, 2005

Esquecimento

Continuo a visitar-te de forma pérfida, uma religião sufocante que me leva até ti, como que a um deus.
Preciso das tuas palavras como preciso de vida.
Preciso lê-las e sentir-te em mim, mesmo que não estejas, mesmo que estejas muito longe... Cada vez mais longe.
Sei-te perdido dentro de ti.
Continuo a visitar-te... E isso rasga-me por dentro.
Saber-me viciada nos teus retalhos é por demais doloroso...

Nego-me a brancura dos teus olhos. O azul dos teus cabelos. O negrume das tuas mãos.
Desfio-me e teço-me de novo. Desfio-me... mais e mais uma vez.
O amor não foi criado para os poetas. Foi criado para o povo. Para o ludubriar. Para fazê-lo acordar todas as manhãs convencido que talvez nessa mesma manhã pudesse finalmente encontrar o príncipe encantado dono do império da cerveja e do putedo.
E todas as manhãs acordam e vão nos autocarros a cheirar a suor e sabe-se lá mais o quê.
E tu, ainda assim, não estás em mim, nem nas tuas palavras.

Quando te leio, sei à partida que tu não és tu. Que tu já não te escreves.
Escreves apenas o que gostarias de sentir.
Mas a verdade, essa, esconde-la dentro do teu ser a apodrecer cada vez mais, a contaminar-te as íris e os pés cansados.
A verdade, disseste-me um dia, é outro engano de Deus ao povo.
Uns vivem em busca do amor e outros da verdade... mas no fim, ensinaste-me tu, tudo o que resta é o esquecimento.
Esse, amor, é fodido.

Fico a imaginar se a malta do autocarro se sente tão enojada com o suor e a mediocridade como eu.
Será que eles também temem o esquecimento?
Será por isso que querem campas horrivelmente desiguais, com flores manchadas e lágrimas frias dos que se sentem compelidos a pagar os seus pecados junto dos antepassados... será por isso?

Eu quero apenas ser cremada e ser celeremente esquecida.
Se tem de ser que seja rápido e indolor.

Fico a pensar se poderia cremar os teus poemas, as tuas palavras, os teus olhos pateticamente inteligentes.
Pateticamente grandes.
Não sabias que os homens não foram criados para terem olhos grandes? Nem mãos suaves e esguias?
Pateticamente esguias.

Trocava a Verdade e o Amor pelas tuas mãos nos meus seios.
Agora.
Sem mais palavras ou poemas inúteis.
Apenas o orgasmo de te ter e te poder foder sem pensar nas consequências e no amanhã.
O futuro.
O meu futuro não tem nada de novo dentro dele. São apenas os mesmos dias numa repetição de péssimo gosto.
Deus também está em época de contenção de despesas.

Trocava Deus e o Futuro para poder ter-te agora.
Morrer logo a seguir.
Morrer extasiada contigo dentro de mim e a promessa inconfessada que não me irias esquecer... Ficarias para sempre com os meus olhos e a minha boca

entreaberta num grito cravados na memória.
Morrer...

Como poderemos ambicionar alguma dignidade na morte se os nossos nos querem colocar naqueles cemitérios bafientos? Os cemitérios parecem-me palhaços quando choram e borram toda a maquilhagem...

Trocava toda a lucidez pela loucura de ter-te.

Engulo as tuas palavras. Tapo os buracos da tua ausência com elas.
Tapo-me.
Faz frio lá fora.

Irina Santos

Publicado por Fairy_morgaine em agosto 5, 2005 03:35 PM
Comentários

mais frio faz aqui dentro..

[sentes?] *

Afixado por: Rita em agosto 5, 2005 09:23 PM

Olá doce sobrinha,
Vejo que a Irina voltou..e como já o disse imensas vezes fico arrepiada,muito arrepiada quando a leio, porque como te conheço (um bocadinho...) sei desse interior em gritos o que me deixa pensativa..!
Minha doce, quero ver-te escrever coisas magnificas (como tão bem sabes fazer) mas que me marquem pela positiva!
De qualquer forma.. deixo o meu humilde comentário, e ao mesmo tempo agradecer teres visitado o blog da tia!
Um beijo imenso cheio de saudades e esperando o tal.. café que está para acontecer desde Abril!

Tia {{coral}}

Afixado por: {{coral}} em agosto 6, 2005 01:17 AM

ai mas isso é extremamente gó. demais para mim.

engolir palavras faz-nos soluçar

e soluçar muito faz-nos chorar

Afixado por: eyeliner em agosto 6, 2005 01:46 PM

Gostei muito, muito deste teu texto. E posso dizer-te que o entendo. Talvez não da forma como o escreveste, mas entendo. Da minha forma. Com a minha dor. Hoje, quando estava na rua, tinha esta frase na cabeça "é estranha a forma como te procuro religiosamente em cada autocarro que passa, mesmo sabendo que já não me vens visitar". Foi estranho chegar aqui e ler esse texto agora.
Sei bem o que é haver um sitio cheio de palavras que sabes que te vão magoar/entristecer/whatever e mesmo assim veres os teus dedos digitarem aquele endereço e os teus olhos engolirem cada uma daquelas palavrinhas que queimam por dentro.

Estou a falar demasiado, não estou? Ás vezes sou assim. Desculpa.

*

Afixado por: Carolina em agosto 6, 2005 07:21 PM

Adorei passar por aqui e ler tuas palavras, tão intensas, deixei-me levar por tuas palavras e acredite encantei, passarei aqui mais vezes.
bjos

Afixado por: Vivis em agosto 6, 2005 07:34 PM

O esquecimento será para sempre o eterno veneno...que todos tomam e não sabem...acontece todos os dias...e mesmo assim continuamos com o mesmo ópio de amor...o mesmo que nos esmurra as caras e nos desfaz por dentro.
Viver é fodido...
Um beijo*

Afixado por: Luana em agosto 6, 2005 08:45 PM

Eu confesso Fairy ou Irina que fiquei absolutamente pregado a esta belissima obra de arte, não pela profundidade das palavras mas sim pelo sentimento bonito e simples que contem. A admiração sincera e honesta por alguêm que embora não seja um deus, é para ti uma luz que ilumina o teu lado escuro, iluminando toda a tua vida, de alegria e contentamento, e isso é verdadeiramente uma benção dos céus, uma vez que este mundo anda tão insensível a sentimentos de genuína confiança e pura amizade. Mas sentirá ele por ti o mesmo sentimento e a loucura de que falas sentir por ele? Será ele digno da tua admiração? Ou será mais um triste engano? Fairy é sempre cativante vir até aqui, folhear um pouco das palavras que divulgas, cimentar a amizade e agradecer a tua presença sempre simpática na Esfera dos Anjos.

Afixado por: HumbertotheWizard em agosto 7, 2005 01:13 PM

Ainda bem que voltaste, os céus agradecem e neste País de "mansos" fazes-nos falta.
As palavras que me vÊem à memória depois de te ler, é desespero, dor, acho que até vou escrever um post sobre o amor, a verdade, a traição das consciências ...
Podíamos escrever muito sobre o que disseste mas como um comentário não deve ser mais do que isso eu se permites utilizo uma frase tua para resumir o comentário:
Troca a loucura da "ausência" pela lucidez no brilho dos olhos de uma criança.
Quanto à verdade ...há muitos a tentar distorcê-la mas os factos ...
Amor fodido ...uns fazem amor a foder, outros são fodidos no amor.
Quanto ao orgasmo e as consequências do amanhã, apenas depende do número. Aroveita as férias e...experimenta vários orgasmos, várias vezes ao dia ...e depois diz-me onde estão as consequencias do amanhã e ...os poemas inúteis.
Um beijo ...e continua a gritar no silêncio.

Afixado por: Luis_Duverge em agosto 7, 2005 01:26 PM

Poderoso! ;-)

Afixado por: amcatarino em agosto 7, 2005 02:20 PM

:) respiro agora. depois de ler. (continuo em banho maria que a alma precisa de descanso. a minha. está cansada. sei que sabes. não sei como ou porquê mas sei.)

Afixado por: lyra em agosto 8, 2005 04:55 AM

porque me faz lembrar alguém?
*

Afixado por: Persephone em agosto 8, 2005 12:24 PM

Quem é Irina Santos?
Beijos

Afixado por: Cassiopeia em agosto 8, 2005 01:09 PM

alguém tirou as palavras da minha boca
escrevo.

abs do arruda

Afixado por: arruda em agosto 8, 2005 02:17 PM

eu tb preciso das tuas palavras como preciso de vida... porque ler-te é um presente... jinhuz

Afixado por: soldeinverno em agosto 9, 2005 12:33 PM

Querida Sílvia (Irina?)
Tudo por um único momento? Por que não?
Um beijo
Daniel

Afixado por: Daniel Aladiah em agosto 9, 2005 09:40 PM

Como fiquei feliz por te ver de novo escrever,
Irina foste muito tempo a minha inspiração de vida
O meu lufar de ar fresco, que me fazia pensar,
Em que valia a pena viver.

Mas também sinto a falta da Sissi, lembras-te
“Fabulas de um mundo maior”, “Rumos de fada pelas almas desumanas”
Ah “ dar voz ao espírito da alma”
E o “ Anjo azul” ?

Que saudade que saudade de te ouvir falar dos teus reis, esses teus seres reais
Que sei que amas!!!

Que saudade, que alegria, de ter ver de novo Irina,

Fico triste de não te acompanhar Irina e Sissi, fico triste por te ter perdido, perdido
Essa tua força e essa tua amizade

Mas tudo isso é menor por te ver voltar Irina essa tua força vai me alegrar

Um abraço do tamanho do mundo

Afixado por: sete sois em agosto 9, 2005 10:17 PM

Fortissimo. Sobretudo belissimo, para quem souber e quiser ler nas entrelinhas.
Beijos minha querida Sílvia...

Afixado por: letrasaoacaso em agosto 10, 2005 11:49 AM

Estive por fora uns tempos, devo ter perdido tanta coisa. Vamos lá a ver se ponho tudo em dia. Abraço.

Afixado por: Ofeliazinha em agosto 10, 2005 02:44 PM

quando faz frio dentro de nós, faz frio fora também...
e sempre vamos buscando uma lembrança para nos aquecer.

te beijo

Afixado por: Nefertari em agosto 10, 2005 02:54 PM

N concordo com td o que li, ainda bem k assim é!vou apenas comentar um comentario que aqui li...Há momentos em que precisamos de gritar tristeza.respeitem-na, n a queiram florir com cores baratas e mentidas. É bom ouvir os gritos, sejam de dor ou de prazer, são os nossos gritos, aquilo que nos diferencia e nos une, por estranho que pareça...Gostei do teu grito ;) também o sinto um pouco meu!

Afixado por: Sara em agosto 21, 2005 03:45 PM