maio 26, 2009

fairy_morgaine

Muitas vezes as pessoas questionam-me o porquê da minha pele: fairy_morgaine.
Pensam elas que as fadas são queridas e meigas e sorridentes. Pequeninas e frágeis. Não sabem ainda que as fadas são imensas. E voláteis.
No meu mundo, as fadas são caprichosas. Podem amar e podem desprezar. Podem ajudar mas também podem não o fazer e aguardar pacientemente por uma viragem inóspita do destino.
Recolhem-se em flores, vivem em árvores, na terra molhada. Conhecem a terra, respiram vida. Pulsam com o pulsar da energia do Universo. São pouco pacientes com as mesquinhices do ser humano. Acham graça a situações que poucas pessoas acham. Podem não achar graça a tudo o resto.
No meu mundo, as fadas podem acordar um dia com muita vontade de serem boas e no dia seguinte com muita vontade de não serem nada em peculiar. As fadas não são boas ou más. Esses são conceitos que não se aplicam a elas. Têm, isso sim, um senso de humor peculiar e regem-se por regras diferentes das do mundo humano. São travessas.
As fadas não são belas ou feias. A definição de beleza não se aplica a estes seres. Podem ser belos ou horrendos, de acordo com o que o ser humano espera ver. Ou de acordo com o que ser humano reflecte nelas.
Morgaine. A irmã de Arthur, eternamente condenada a ser o catalisador da queda de Camelot, do final do reino. Mas não porque tenha feito algo nesse sentido. Apenas porque alguém teria que ter esse papel e a vida testou-a. Morgaine, a forte. Morgaine, a frágil. Morgaine, a errada. Morgaine. Tão ela e tão pouco ela. Sempre em fuga do inevitável, sempre angustiada, sempre com o coração retorcido de dor e mágoa de tudo o que lhe estaria reservado.
Morgaine amou Arthur. Como a um irmão e como a um homem. Morgaine amou Arthur e abandonou esse amor porque esperou que essa fosse a atitude mais correcta. Existirão correctos? Incorrectos? Morgaine, a filha das fadas. Tão bela e ainda assim, tão comum.
Morgaine, a das fadas. Morgaine, a fada. Morgaine, a rocha, o mar, o lago, o início e o fim.
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Publicado por Fairy_morgaine em 11:06 PM | Comentários (4) | TrackBack

maio 25, 2009

Destino (tempos em que te esqueci)

Tempos houve que te esqueci,
entretida com o fiar do destino.
Nesses tempos, o azul era tão vermelho
e o espaço era bafiento.
Perdi-me dentro de mim mesma.
Iluminada pela ilusão do conforto
e da segurança de uma ponte
movediça. Perdi-me dentro das minhas
esperanças vãs e do som gasto
da minha voz a pronunciar nomes que
já não sei. Tempos houve
em que me esqueci. Perdida
num arco-íris de dimensões não-minhas.
Desses tempos guardo uma cicatriz
profunda e um sorriso rasgado.
Como te encontrei no final dessa estrada?
Como é que o teu corpo desaguou no meu?
Tempos houve em que te esqueci.
Recordo esses tempos. Todos os dias.
A cada sol. Lembro-me todos os dias
dos tempos em que te esqueci.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 24, 2009

Soturnidade

O conhecimento do teu corpo e das tuas marcas
revela as soturnidades do teu espaço
quando reflectido nos meus dedos frágeis.
Meu reflexo, meu som, meu sorriso
inóspito. As mulheres que atravessam
o teu coração não sabem nem sonham
a violência silenciosa do teu cansaço.
Esperam, no desespero triste da despedida
que o teu dia amanheça mais claro e mais
solarengo. Conquistam-te com mentiras surdas.
Acreditam na redenção da tua alma.
Talvez um dia elas descubram,
como eu descobri, coberta do teu sangue
e da tua saliva, que saber-te não é sinónimo
de te possuir. Afinal, meu irmão, minha alma gémea,
meu amor, meu amante, meu eterno amado
eu não te conheço porque não te possuo.
Meramente sinto as batidas do teu coração
nas minhas veias.
As tuas palavras nos meus lábios.
Os teus sentires na minha pele.
As tuas mágoas. Os teus esgares. Os teus dedos.
Na minha garganta.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:33 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 09, 2009

Atracção

Atrai-me.
Prende-me na sensualidade dos teus lábios,
na amargura dos teus dias. Prende-me às tuas mãos,
à impetuosidade dos teus gestos comedidos.
Joga comigo um jogo perigoso onde apostamos
as almas e os cansaços.

Atrai-me.
Porque a noite é pequena e deixa
a descoberto as nuances da impaciência
com que navego as horas.

Atrai-me.
Invade-me, não me deixes respirar outro ar
que não o que expiras pelos lábios famintos.
Deixa que a água escorra pela tua pele,
pelos dedos com que marcas as curvas do meu corpo.

Atrai-me.
Rasga-me as defesas e os sentidos,
as mentiras, as falácias e as máscaras.
Ensina-me todas as formas de te dar prazer.
Escraviza-me.
Domina-me.
Atrai-me.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:22 AM | Comentários (5) | TrackBack

maio 07, 2009

Labirinto de Fauno

Durmo, perdida num canto recôntido da tua mente febril.
Se me sentes ou me sabes, ocultas do teu rosto a verdade.
As tuas lágrimas pesam-me nos olhos fechados.
O teu braço repousa, morto, na minha cintura.
Os teus vazios, a mágoa que te esmaga a coluna,
todos os dias que sonhaste e que o teu sonho pereceu
a teus pés nus. Tu foste aquele que não acreditou
no fauno e no reino das fadas. Tu foste aquele que rasgou
o coração por dentro para abraçar as gargalhadas e os risos
falsos de quem te rodeia.
Tu foste, afinal, promessa incumprida na face de deus.
Tu, que amei perdidamente, que foste o outro lado do meu sorriso,
que foste o meu segredo e a minha Lua. Que me compreendeste
e traçaste os rumos com que encontro a verdade do meu ser.
Na tua mente febril, as minhas mãos percorrem o teu rosto,
as minhas pernas recebem o teu corpo e a tua imensidão.
Na tua mente febril, sou tua de maneiras que não consigo conceber.
Entras em mim, cravas-te em mim, violentamente.
Cobres-me os lábios com os dedos enquanto tatuas a minha pele.
Na tua mente febril, o meu amor pesa-te. Como te pesam as verdades,
os sonhos, as expectativas e o teu semblante oco.
É com o som da minha voz que imaginas todas as acusações
fundadas e infundadas com que rasgaste o teu coração.
É na alvura dos meus braços que morres todas as noites
na mais profunda solidão. Não existe vida nas minhas ausências.
Juras, em silêncio, que eu já não sou eu em ti.
Cobres-te de indiferença e foges do azul dos teus olhos
onde ainda nascem os caminhos que te trazem até mim.
Eu sou o símbolo de tudo o que poderias ter sido,
eu sou a honestidade cruel de uma promessa, a serenidade
inocente do tempo, a violenta impetuosidade do desejo.
O meu amor esvazia-te de ti.

Durmo e sonho, esquecida das regras que compõem
a prisão onde te encerrei. Durmo. Sussurras-me:
"Vem e vê-me. Porque só tu me vês e só tu me sentes
e é só no teu coração que cumpro as impossibilidades.
Vem e ama-me. Se o teu amor morrer, eu morrerei com ele.
Eu, o meu rosto e as minhas mãos, o azul profundo dos meus
olhos que é apenas teu. Porque não vivo fora do teu ser."

No meu sonho moram ainda as lembranças do que foste um dia
e que jamais voltarás a ser. No meu sonho, mora a tua infância,
em mim que sou a tua boneca, o teu porto e a tua acusação,
o teu fim e o teu começo. Morres-me sempre que as minhas pálpebras
abraçam a realidade faminta do Sol.

Publicado por Fairy_morgaine em 12:47 AM | Comentários (1) | TrackBack

maio 03, 2009

A imbecilidade dos homens

A imbecilidade dos homens transforma todos os laços,
caminhos e memórias em fumo vago e transparente.
Os espelhos ludibriam as certezas e convencem
os fracos da veracidade do azul, num mundo de
tonalidades liláses. Na retina guardas um mapa gasto.
Nele, assinalam-se as marés, os luares e as horas
em que o espelho reflecte o meu rosto.

Publicado por Fairy_morgaine em 01:12 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 01, 2009

A cobardia da memória

A memória viaja nos minutos intemporais da tua ausência.
Percorre a tua pele e a urgência das tuas mãos.
Trago-te ainda, tão vivo na minha garganta.
Diz-me, apenas, como sobrevives à imagem dos meus lábios
e dos meus olhos, do meu cabelo, de ti em mim.
Diz-me, fizeste-me tua para me decorares os soluços e
as imperfeições? Rompe o silêncio e toma-me.

Existe um caminho de palavras que te traz de volta até mim.
Serás sempre demasiado cobarde para o percorrer.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:47 AM | Comentários (1) | TrackBack