novembro 23, 2008

O fim do sentir

Sempre padeci de dois vícios complementares e extenuantes: pensar e sentir.
Talvez tenha sido por isso, que em pequena me apelidaram de menina-sombra.
Dizia-se pelos cantos que nos meus olhos morava já uma mulher e um fauno.
Quando cresci, os meus ossos quebraram-se com a força das marés e o meu semblante
vestiu-se de negro e de vermelho. Os vícios não me abandonaram o corpo nem a alma.
Continuo seca, a pensar o demasiado e a sentir o infinito. Longe, existem velhos do Restelo
que se incomodam com as vagas do meu coração. À noite, as estrelas
atravessam o espaço nu que divide os planetas e as canções e abraçam-me as dores e os erros.
Talvez seja por isso que as flores me invejaram a pele branca. Em tempos idos, fui bela.
Trazia promessas no regaço e palavras imensas onde cabia o mundo inteiro.
Em tempos idos, fui sorriso. E mel. Hoje, os cansaços abatem-se sobre as pálpebras
e o vício de pensar consome-me as íris. Deus sabe do meu destino e sonha-me.
Deus amou-me, em tempos. Idos. Quando era bela e era sorriso. Deus amava-me
e perfumava a minha imaginação de ninfas e fadas secretas. Consumo
as lembranças no vício de sentir. E ao sentir, defino-me. Quebro-me.
Reconstruo-me. Arrasto no seio o fulgor da paixão e do húmus.
Sempre padeci de dois destinos complementares e extenuantes: ser eu e ser a outra.
Talvez tenha sido por isso que me apelidaram de mulher-lua.
Dizia-se pelos cantos que nos meus olhos mora um furacão e um abismo.
Quando penso, quando sinto, volto ser eu. Deus sente-me. No seu reino
longínquo. Deus lembra-me. Continuarei, seca. A pensar e a sentir demasiado
o pulsar da vida. A aguardar a morte. O seu beijo quente. No fim do sentir.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:19 PM | Comentários (3)

novembro 19, 2008

Vampiro Branco

Aguardo como sempre aguardei
o princípio do fim. A intemporalidade
da dor. Da faca que se espeta nas costas.
Entre o ventre e as costelas frágeis.


Partilho as palavras e o silêncio,
os espaços, as músicas
e a necessidade de compreensão.
Sou tão terrivelmente humana.


(ou não...)


Abraça-me o corpo branco
marcado pelo calor do inferno
da doença. Deixa-me sair,
segurar-te as mãos trementes
e ensinar-te todas as ladeiras
que te impelem ao abismo.


As paredes conhecem todas
as possibilidades em que tropecei
no decorrer do tempo magro.
Coloco a tua fotografia num espaço
vazio e sorrio-lhe com a nostalgia
da amargura.


Abraças-me ainda.
Amaldiçoas os olhos que te tragaram
a alma. Lambes os lábios secos.
Abres-te num sorriso que não
te toca as íris. Descais o rosto no meu
pescoço. E sugas-me.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:43 PM | Comentários (1)

novembro 16, 2008

Silêncio branco

No silêncio benigno da tarde
implodiste, no espasmo do orgasmo
e
[amo-te]
abraçaste-me o corpo cansado
apagaste o rasto quente de dor
e
[amo-te]
num soluço gritaste as palavras
(ou terás sussurrado?)
e
[amo-te]
entregaste-mas, ainda vivas
ainda pulsantes.


Havia silêncio nessa tarde,
mas era branco, entregou-se na valsa
dos gemidos
e
[amo-te]
porque as palavras existem e se entregam
quando o silêncio é benigno.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:42 PM | Comentários (2)

novembro 05, 2008

Não sejas

Traço linhas liláses nas fotos desfocadas que são as minhas memórias.
Aprendi caminhos e becos.
Desaprendi esses mesmos caminhos.
Esses mesmos desvios. Tornei-me vazia.
Numa tarde de Outono precisei de saciar a sede imensa dos lábios.
Bebi o sangue puro de estrelas recém-nascidas.
Afaguei o corpo cansado e torpe.
As tempestades que fustigam o rosto das crianças
e dos velhos ainda não cessaram.
Nem o ruído dos sons vagos que alcançam o meu coração.
Nem tu pudeste alterar o vazio da consciência.
Nem as tuas mãos roídas. Nem o teu corpo vivo
e pulsante. As tuas palavras não penetram a máscara
com que escondo o grito do silêncio.
Preciso de precisar-me. Preciso não precisar-te.
Esqueço-te. Devagar. A cada dia. A cada momento
corrompido na nesga da visão. Esqueço-me.
A cada passo. A cada grito
[prometi, em tempos, a uma pessoa moribunda
que não voltaria a sonhar, a acreditar, a querer.
prometi, em tempos, que jamais iria abrir os braços
e atirar-me num abismo sem fé]
Desacredito-me. Desacredito-te.
Desaprendo-te. Não digas mais nada.
Não fales. Não respires. Não vivas. Não pulses.
Não sejas tu.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:06 PM | Comentários (6) | TrackBack

novembro 04, 2008

Desistência

As absurdidades da vida alcançam-me
a pele escamada, superficial com que oculto
a brancura imaculada do seio. Nada existe
para além do plano real do caminho obscuro
entre os dedos e as acusações. Desisti há muito
tempo do ser humano, da humanidade da
minha condição pequena. Percorro linhas
e eventualidades como quem percorre poemas
melódicos e distantes. O mundo é uma esfera
ao contrário. O mundo está repleto de mentes
e sentires que não reconheço e não sei.
Nos intervalos do tempo recolho o corpo
e as máscaras com que protejo a sanidade,
escondo os livros, escondo os poemas,
escondo-me na casca grossa de uma árvore
e morro-me. Assim. Pontualmente. Entre um
espaço e outro. Um dia e outro. Entre um
suspiro e outro. Morro-me. Assim.

E porque a lua vai alta e me esqueço do meu
corpo morto na casca de uma árvore,
percorro os espaços da casa envelhecida
com a leveza abstracta da ausência.
As absurdidades da alma esquecem-me
o rosto cinzelado. Desisto do corpo largado
na árvore. Desisto do vento e da noite. Desisto
da morte. Desisto. Desisto. Desisto.
Desisto de desistir. Não acredito na realidade,
na vida, na linha que me leva diariamente
ao fim da página. Não acredito.
Eu já não sou eu em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:44 PM | Comentários (1) | TrackBack