outubro 29, 2008

Metamorfose

Na casa bafienta em que guardo o teu corpo
chegam-me histórias desfocadas de mães
ausentes. Se atentasse o tempo suficiente
para pertencer às verdades do mundo
saberia que o cordão umbilical
não é fonte de amor. Nem incondicionalidade.
Vejo crianças adultas semear as lágrimas
no chão donde brotam pequenas fadas
ocultas em corpos monstruosos.
Pergunto-me se é do pó das janelas
que me faz crer ver crianças tatuadas
de dor e amargura com que constroem
pontes para mundos longínquos.
Disseram-me um dia que as crianças
tatuadas podem nunca mais voltar.
Perdem-se nos meandros da noite.
Disseram-me também que as fadas
as procuram incessantemente, atraídas
pela luminosidade baça das suas mãos
fracas. Sonho quadros com que visto as paredes
e os espaços vazios. Sonho crianças
livres e iluminadas. Sonho crianças negras e sujas
e feias e escorraçadas. Negras de pancada, de
traições, de amargura. Sujas dos pecados
que ainda não cometeram. Feias aos olhos de todos
menos aos das fadas solitárias do bosque.
[lembro-me de ti, como eras bela e só. lembro-me
que escondias dos adultos a mulher que serias um dia,
os segredos que te pesavam nos joelhos. a forma
como encerraste a tua infância num baú envelhecido.
lembro-me como eras tão docemente imperfeita,
a tua voz segura e os pensamentos agudos
que rasgavam a tua mente.
lembro-me de ti. eras já uma anunciação
de todos os dias e amanheceres tardios,
de todas as noites quebradas na posição
fetal. e sabias já tanto. e não sabias ainda
da imensidão dos teus erros e das tuas dores.]
Existe um limbo onde morrem todos os
corpos abandonados das crianças
que nunca o puderam ser. Disseram-me.
À noite ouço-lhes os gritos abafados.
E os pesadelos psicadélicos.
Em tempos, acreditei que poderia salvá-las,
ter um ventre infinito onde coubessem todos
os que perderam o cordão umbilical.
[lembro-me de ti e de como poderias ter sido tudo.
de ti com caracóis louros e com olhos vivos. lembro-me
que apreendias este mundo e todos os outros.
lembro-me que poderias ter salvo todas as crianças
que conhecesses, como a tua solidão era apanágio
de um novo dia e de um sol a nascer mais cedo.
lembro-me que um dia trocaste os olhos
por umas asas de fada. lembro-me que
partiste em busca das crianças.
que nunca mais voltaste. que te amei como
nunca. que te tornaste morgaine.
que te perdeste. que te soube rasgada,
violentada, já não eras tu, já não eras criança,
já sabias tudo, já sabias demasiado.
e eu, eu não te salvei.]
Em tempos acreditei-me.

Publicado por Fairy_morgaine em 06:57 PM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 27, 2008

Implosão

Ardo no fogo intenso
da tua voz, do teu desejo palpitante
e da veracidade poderosa
dos teus ombros.
A tua pele branca escorre
nos meus seios,
arqueio-me no prazer
de perder a noção do real.
Tocas-me, os dedos perfumados
do meu cheiro
e da minha presença,
tocas-me no mais profundo
da minha mente,
entras em mim
faminto
[o desejo que me cobre
os sentidos].

Existe escuridão
e amargura no mundo
exterior
ao teu corpo.
A minha mente apaga
toda e qualquer lembrança
e racionalidade
para quebrar-me no
teu peito
e no teu sexo.

[estás em mim]

Guarda-me na tua retina.
Nos momentos em que me tomas
não consigo pensar
no hoje, no amanhã, no que dissémos
ou fizémos ou pensámos.
Não penso no Amor.
Não penso.
Sinto.
Sinto-te.
Explodes e implodes em mim
com a veracidade crua
das ondas que atravessam
a dança das minhas ancas.
[fode-me...]

Sei que voltarei a respirar,
voltarei a pensar em Amor,
em ti, em mim, no hoje e no amanhã.
(amor) hoje sou tua.
Engole-me. Toma-me. Quebra-me.
Reconstrói-me. Valsa-me.
Explode.
Implode.
Em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:03 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 22, 2008

Boneca

"Bonequinha:

Pareceu-me ter visto o teu vestido branco preso no ramo de uma árvore antiga. Era o cheiro doce dos teus caracóis perfeitos e das mãos pequeninas.
Reparei que trazias uma orquídea lilás presa no cabelo dourado. Ou terá sido um sonho?
Na neblina do dia, a tua presença é tão difusa como Avalon envolta nas brumas. Saberás que um dia Morgaine habitará o teu cansaço? Saberás, ou adivinharás já as traições, o coração mastigado, os gritos e os silêncios?
Quando o dia escurece e o Sol verga o orgulho e a solidão, imagino os sonhos que atravessavam a tua mente confusa e infantil.
Inalo a frescura da noite.

Um dia, minha pequena boneca de porcelana serás Morgaine, o corpo vincado da amargura eterna de viver, as mãos vazias de tudo e preenchidas de nada, o rubor convertido em palidez, as mãos pequeninas nervosas e inseguras.
Um dia, menina-promessa, serás a mulher-rainha de sonhos não cumpridos, de promessas vãs e de espirais imensas.
Um dia, vais suspender a respiração e mergulhar no abismo.
Aguardar-te-ei aqui.
Irás algum dia emergir, mais bela, mais tu? Mais menina? Mais eterna?
Aguardar-te-ei.
Aqui."


escrito por Ela
outubro 20, 2008

Publicado por Fairy_morgaine em 11:19 PM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 21, 2008

Aceitação

Hoje aceitei
que tens
os olhos
doentes.

Hoje aceitei
que a doença
dos teus olhos
colou-se-me
aos ossos
e às ausências.

Hoje aceitei
que o fim
esteve sempre escrito
desde o primeiro
momento.

Hoje aceitei
que desde o primeiro
beijo
nunca
foste
meu.

Publicado por Fairy_morgaine em 07:14 PM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 20, 2008

Julgamento

Finalmente sou julgada pelos erros,
as meias verdades, as ilusões,
os enganos.
Finalmente sou esquecida no lodo
do palco onde desfilei
todas as minhas máscaras e mistérios
pouco conseguidos.
Finalmente.
[eterno silêncio]

Publicado por Fairy_morgaine em 09:44 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 13, 2008

Quase

Escrevo-te cartas com tinta da china,
tinta invisível e inodora.
Tinta que ninguém nunca conseguirá comprovar
que existe ou existiu em tempo algum.
Quando se erguerem vozes estridentes
a provarem a inocência rigorosa
dos meus desejos
direi simplesmente que os queimei
numa praia com a chuva
a lamber-me os dedos
e os cabelos escuros.
Gastei os sonhos e as necessidades
no lancil de um passeio
que nunca conheceu o meu nome.
[visto-me com roupas demasiado
grandes para a minha infantilidade
e percorro a casa, sorrio aos adultos
pergunto-me se me veêm, se me sabem,
se me pariram realmente num
dia choroso de Inverno]
Escrevo-te cartas, perfumadas e bonitas,
letras perfeitas, bem delineadas, azuis,
negras, rosas, liláses, todas as cores que
eu imaginar, escrevo-te cartas
onde gravo os meus desejos,
os últimos suspiros.
Digo-te em poucas palavras
do sentimento, da presença,
do sorriso, das lágrimas, do medo,
do espaço, do tempo,
da infinita valsa das estrelas
vacilantes no céu escuro.
[e tu não me ouves, pois não?]
Abro um livro velho, guardo as cartas
imaginadas e brancas
onde sei que poderias encontrá-las
se procurasses dentro do teu
peito. Coloco-o devagar na prateleira
para não perturbar as partículas de pó
que contam a história triste
dos dias.
Abandono a mansão antiga
e imponente, não olho
para trás, não te sinto, não te ocupo,
não te trago.
Anseio apenas que me leias
em todas as cartas que deixo
no escuro da vastidão
do teu mundo. Anseio apenas
que me encontres. Em ti.
[onde estás?]
Deito-me na cama etérea
da cabana onde habitei milénios.
Finjo-me adormecida. Para que me possas
acordar. Finjo-me frágil. Finjo-me tão eu.
[onde estás?]
A noite arrasta o seu manto desbotado
e eu sei que não virás. Ainda não.
Talvez não amanhã, também.
Mas sei que estás quase,
quase aqui
[estás quase...]
quase dentro de mim,
quase inebriado,
quase apaixonado,
quase meu,
quase quase quase
a amar-me.

Publicado por Fairy_morgaine em 01:01 AM | Comentários (4) | TrackBack

outubro 09, 2008

O Beijo

************** b e i j o - t e ****************


E no beijo transporto as histórias e
a cultura, as linhas com que desenho
o meu rosto na vaga da noite,
no sonho iniciado e no silêncio transparente
dos meus dedos.
E no beijo arranco-te as vergonhas,
os segredos, as sensibilidades
e as verdades. Encerro o ciclo,
a transformação das palavras em som,
a melodia que acompanha a cadência
dos meus dias e o acto da criação.
E no beijo afago a esperança
do amanhã e do sol e da lua
e da franqueza da pele branca.

E no beijo termino a procura
e inicio a descoberta
dos limites, do prazer, do corpo
cicatrizado e das barreiras.
Apago-as de ti.
Não temo abismos, nem mansões
nem quartos com sangue e mistérios.
Não te temo.
Entro-te.

E no beijo ofereço
o altar da virgindade da descoberta,
da experimentação dos dedos e dos olhos.
E no beijo ofereço-me.

Aceita-me.

*

Publicado por Fairy_morgaine em 01:46 AM | Comentários (5) | TrackBack

outubro 07, 2008

A imensidão dos sonhos

Na imensidão dos sonhos
dilaceras as pétalas
que cobrem os teus olhos cansados
assumes a rouquidão do mar
e das conchas liláses
na espuma serena
da melodia.
Acordas as forças outrora
inertes do meu coração
a franqueza complexa
da voz e da poesia
acordas o meu desejo
e o destino.
Choves em mim
molhado salgado soberbo
choves-me
nos cabelos nas mãos
na curva da minha anca.
Raias o sol em mim.
Quente verdadeiro
simples
entras em mim
pedaço espelhado
do meu corpo.
Fragmento perdido
da minh'alma
no momento infinito da criação
ponto final
som abertura
barco solitário
nos meandros de mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:02 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 05, 2008

A queda do anjo

Acendo a tv e as imagens queimam-me
os neurónios, a morte e o cheiro intenso
de desonestidade. O rasgo da humanidade,
o choro das crianças e o pulso fraco da
moribunda verdade.
Bloqueio a transmissão essencial de informação
para apreender ínfimas partes do degredo
que é labuta diária do povo.
Quero cortar o cordão umbilical que me une
aos homens e a deus. Quero cortar
a linha que traça o destino.


Lá fora, no frio da cidade corrompida
homens engolem crianças puras e
apagam a inocência dos justos.
(crianças cospem crianças pelas pernas
desnudas)
No calor da noite vítrea há mulheres
que gritam, os cabelos vincados nos dentes.
As mãos coladas e a incapacidade
de atravessar uma adaga no peito.
(o rio corre para o mar num movimento
infindável)


Noutra terra, noutra poeira,
há corpos que fertilizam o chão que
abandonaram. Os dedos roídos
de sida e de miséria.
Mães afogam as filhas no suor
do campo. Mães entregam as filhas,
vendem-lhes o corpo e a alma.


[O mundo tornou-se infinitamente
mais pequeno. Os braços do tempo
envolveram a queda abrupta
do anjo]


20-09-2008

Publicado por Fairy_morgaine em 01:41 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 01, 2008

Sensualidade

Sensualidade

Vens-te em mim
sabores,caminhos,carinhos
pássaros e rio.
Uma correnteza
de sentires, chuva, sol.
Vens-te num rasgo de
ternura.
Tu em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:40 PM | Comentários (3) | TrackBack