setembro 25, 2008
O vento Norte
O vento Norte sopra na direcção
do futuro e deixa mensagens impressas
nas árvores, poesia imersa no papel condensado
das páginas que compõem a vida.
O vento encontra a superfície do mar,
a sombra da lua, o rosto inocente da criança,
o absurdo, o impensável, o rasgo.
Inverte na curva, sobe, desce, ladeia
a solidão dos velhos, o cansaço dos homens,
a vergonha das mulheres e a delapidação
da carne. O vento sucumbe à fatalidade
do emergente ciclone, a destruição
e reconstrução da Natureza, a infantilidade
menina das crenças, das esperanças, das paixões.
O início. E o F I M.
O vento tem vários rostos, vários braços,
vários sexos, vários ângulos,
várias verdades, várias ânsias.
Recolhe sonhos no amanhecer e medos
embalados na noite escura.
Abraça o sofrimento e a decadência,
a espiral aguda da (r)evolução.
O vento não tem identidade, não tem
um olhar, não tem traços nem serenidades.
O vento tem, tão só, melodia.
Notas, perfeições e espaços criados para o crepúsculo
pela Dama de Branco.
O vento é a única herança
dos deuses no final da criação.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:50 PM
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setembro 24, 2008
A bússola
Escrevo-te cartas saudosas, palavras
com que cruzo a distância e o tempo.
Reflicto-te nas águas queimadas do espelho morto.
Desfilam nos meus olhos todos os momentos
em que a tua voz não me acariciava.
Os enganos, os erros e as aprendizagens banais,
as feridas fétidas e profundas,
o pólo negativo.
Submirjo o corpo na água plana do presente.
No vazio da criação encontro-te.
Plácido. Terno. Verdadeiro.
Fito o teu rosto, os olhos grandes e perscrutadores,
a liquidez do prazer a escorrer-me o corpo.
Piso a areia quente da praia onde enterrei todos
os cadáveres, todos os sonhos, todas as quimeras.
Danço embriagada de ti e do poder das tuas mãos.
Ouço-te. Cheiro-te. Sinto-te.
Procuro-te, atraída pela carícia dos teus silêncios.
Encontro-te. Tens o corpo vergado pelo peso dos anos
e das caminhadas. Pergunto-me se me vês,
na cegueira do medo e da impossibilidade.
Tacteias-me. Murmuras palavras incompreensíveis
enquanto a luz violeta volta aos teus olhos castigados.
Olhas-me. Vês-me. Entras em mim com a força
implacável da água, do rio, do som das palavras inaudíveis,
do ritmo da poesia clandestina, da travessia que entrega o teu corpo
ao meu. Rompes o véu, a barreira, a cortina de água que cobre
a nudez pálida do meu corpo. Transformas
palavras em gestos, gestos em palavras, olhares em destinos.
A bússola da minh'alma esqueceu-se do Sul para
apontar na direcção dos teus dedos.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:11 PM
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setembro 21, 2008
A puta da loucura
O mar lava os dejectos de uma vida cansada.
Enrola-os em ondas perpétuas,
lodo de um passado eminentemente presente.
A luz fere-me os olhos e as mãos,
a ferida que abre e respira e é real
e é fétida. Encolho o corpo e a mente,
encolho-me no abismo da noite profunda,
escondo-me, escondo-me, engulo lágrimas
e palavras, silêncios assassinos que guardo
junto ao seio. Quebro o espelho. Quebro
a brancura da pele e do tempo sereno,
quebro-me, quebro-me, quebro-me
num incessante atropelar de eventos e erros.
Deito-me no chão e respiro o ar rarefeito
do meu quarto, respiro e arranco os olhos
grandes, os olhos que viram e guardaram
toda a merda que comi, todas as mentiras,
pontos de interrogação, reticências,
linhas mal paridas
com que escrevi a minha história.
"Era uma vez..."
uma criança nauseada num barco em que vê
o seu futuro e as suas crises e as suas falhas,
uma criança um beco um recomeço,
zero zero zero zero zero.
pum,
zero zero zero zero zero.
recomeço.
pim
zero zero zero zero zero
a loucura, a puta da loucura e
a mancha a mancha dos meus olhos nítidos
a mancha dos meus olhos curvos
a mancha de esperma nos lençóis
e o sangue o sangue negro que me escorre
da alma da doença do ventre
do amargo dos dias a puta da
l o u c u r a
ah e os dias eram mais claros
e dias houve que o sol nasceu mais cedo
e a criança nauseada sorriu
e sorriu muito e era feliz e era muda
e era um rol de palavras
e
e
e
e
e
e
zero.
fim.
recomeço.
pim.
quem és tu?
quem és tu?
que me olhas?
quem
és
tu
foda-se?
eu. sou. a. menina. quebrada.
[abraço-te]
pensasses no sol e nas cores
quando vendeste a alma
ao diabo.
Publicado por Fairy_morgaine em
02:12 AM
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setembro 19, 2008
Recriação
Penso em oferecer-te poesia.
Palavras inéditas, palavras rubras, palavras cinzas.
Palavras, apenas.
Penso em oferecer-te seios.
Seios brancos, alvos, honestos.
Seios, apenas.
Penso em oferecer-te dedos.
Dedos frenéticos, apaixonados, trémulos.
Dedos, apenas.
Penso em oferecer-te um rasgo, um beijo,
um sentimento, uma possibilidade.
Possibilidades, apenas.
Sentimentos.
Penso-te.
Ofereço-te
a imensidão da imaginação,
a ferida e a cura,
a lágrima e o sorriso.
Não te ofereço poesia, não me ofereço.
Recrio-te. Apenas.
Publicado por Fairy_morgaine em
02:34 PM
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setembro 18, 2008
Não me amanheças
As fogueiras de Beltaine ardem-me no sangue
(ouves o som do tambor?)
Os olhos escorrem-me de prazer e antecipação
(dispo-te e há uma fogueira que arde em ti)
Abro o espaço do teu coração
onde guardas os segredos e o mar
(percorro-te o corpo com os dedos)
Observo a tua nudez honesta e o negro
da tua sombra
(pinto em ti os meus lábios e a sobriedade
de anos de negação)
Observo-te
(deito-me no teu corpo, entro no teu espaço,
saboreio a tua pele)
Penetro a languidez da noite,
a perfeição das tuas mãos vazias
(entras em mim e devassas todas
as barreiras)
Escondo-me em ti, nos teus braços
e no teu sangue
(sinto-te)
Não me amanheças.
(chama-me...mais uma vez)
Gosto-te.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:59 PM
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setembro 15, 2008
Atravesso-te
Traço a linha com que encerro o passado,
a linha com que traço o futuro
e o Sol que navega a tristeza e o poder calmo das palavras
com que deus subjugou o mundo.
Traço a leveza do espírito e a perseverança
com que os dias decorrem no parapeito da minha janela.
Ouves os passos velhos da Terra?
Atravesso o véu que divide o mundo corpóreo
do sonho, a mancha esbatida do sangue
que bombeia o coração de deus.
Atravesso-te.
A cura da noite é o bálsamo de todas as guerras
e de todos os suspiros. As pessoas rasgam
a surpresa dos dias, a inocência das folhas
e o grito do silêncio.
a
t
r
a
v
e
s
s
o
-
t
e
Teço o tapete que forra o caminho de deus
no êxodo do sonho,
na foz da amargura.
Alinhavo o véu que cobre a seiva da
árvore e o bater do teu coração.
És-me.
Publicado por Fairy_morgaine em
02:30 AM
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setembro 09, 2008
A entrega
Navego no som da tua voz que me transporta ao infinito do tempo, à passagem do mar e da ternura.
Perscruto o teu rosto e os teus lábios. Dormes. Cubro os teus lábios com a suavidade dos dedos, com a nudez da pele pálida.
Tens as pálpebras fechadas. Pergunto-me que sonhos corrompem a inocência do teu sono. Ainda adormecido estendes um braço e enlaças-me. Apagas de mim as dúvidas e os caminhos.
És quente e és real. Estás a meu lado e respiras-me no pescoço. Suspendo a respiração quando sinto os teus dedos irrequietos na brancura do meu seio. Sei-te acordado.
Mergulhas a tua alma na curva da minha anca, na humidade do meu desejo, mergulhas em mim.
Tapo o teu rosto com os meus cabelos, tapo os teus lábios com os meus, a gravidade da tua solidão a rasgar-me a alma e o sexo.
Sinto-te. Sinto-te mesmo quando não estás, mesmo quando trazes em ti a poeira dos dias e das noites.
Gemes no meu ouvido e na transformação dos meus braços no teus braços e na tua imensidão.
Explodes e implodes em mim. Uma vez e outra.
Sussurras-me: "Sabes o que é a paixão?".
Entrego-te o meu silêncio e o meu orgasmo.
Publicado por Fairy_morgaine em
04:08 AM
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setembro 05, 2008
A incógnita
Teço um manto de silêncio e perfume
com que cubro a imperfeição das noites caóticas
e da fragilidade dos ossos.
Escondo-me nele e em ti, na partilha
do vazio das minhas mãos e das tuas mãos,
dos teus dedos frenéticos.
Cubro-te o rosto com os meus cabelos,
a palavra que pensavas proferir,
cubro-a de lábios e de imensidão.
Ofereço-te o linho, um caminho, um passado nulo
e um presente transversal.
Ofereço-te uma incógnita.
És a doença que me consome os dias, as noites
e os dedos e a cura que me rebela o coração.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:09 PM
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setembro 02, 2008
Sabes o que é a paixão?
Navego no som da tua voz que me transporta ao infinito do tempo, à passagem do mar e da ternura.
Perscruto o teu rosto e os teus lábios. Dormes. Cubro os teus lábios com a suavidade dos dedos, com a nudez da pele pálida.
Tens as pálpebras fechadas. Pergunto-me que sonhos corrompem a inocência do teu sono. Ainda adormecido estendes um braço e enlaças-me. Apagas de mim as dúvidas e os caminhos.
És quente e és real. Estás a meu lado e respiras-me no pescoço. Suspendo a respiração quando sinto os teus dedos irrequietos na brancura do meu seio. Sei-te acordado.
Mergulhas a tua alma na curva da minha anca, na humidade do meu desejo, mergulhas em mim.
Tapo o teu rosto com os meus cabelos, tapo os teus lábios com os meus, a gravidade da tua solidão a rasgar-me a alma e o sexo.
Sinto-te. Sinto-te mesmo quando não estás, mesmo quando trazes em ti a poeira dos dias e das noites.
Gemes no meu ouvido e na transformação dos meus braços no teus braços e na tua imensidão.
Explodes e implodes em mim. Uma vez e outra.
Sussurras-me: "Sabes o que é a paixão?".
Entrego-te o meu silêncio e o meu orgasmo.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:55 AM
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setembro 01, 2008
A sina perfeita dos meus dias
Penso em ti.
Ofereço-te uma flor, um cuidado, um sorriso
e mãos, duas mãos vazias e serenas.
Afasto-te do fogo que consome a tua imperfeição
e trago o teu coração preso no peito.
Ofereço-te uma marca no rosto,
uma impetuosidade sincera e o alastrar de um
vermelho nos meus olhos cansados.
Aceitas-me?
A tua imperfeição é a sina perfeita dos meus dias.
Publicado por Fairy_morgaine em
02:19 AM
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