A realidade do sonho
Sinto as palavras.
Gordas. Manchadas. Poeirentas.
Sinto as palavras e os sonhos.
Os lamentos de uma psique quebrada
e ateada em fogo puro.
Sinto-me em palavras,
rodeadas do espasmo da criação
e da infantilidade da verdade e da mentira.
Sou boa? Sou má? Sou eu? Sou? Sinto?
Preciso-me. Afasto-me das palavras
e do abismo surdo que é o mistério
do universo e do peito nu.
Partilho-me. Com o vazio.
Com a negação obtusa da minha mente
drogada e pequenina.
Sinto ainda as palavras. Visto-me.
Danço. Escondo-me. Rio. Danço
outra vez. Fecundo o espaço-tempo
com a lembrança de um sonho maduro
e uma inocência de criança.
Preciso-me…
Jazo serena num altar de cristal
e bruma onde encerrei o último reduto
de paz. Jazo. Ali. Sei-me. Ali.
Partilho-me com a noite e com a negação
da (in)felicidade.
Não sei escrever fim. Não posso. Não saberei.
Nunca. Nem no fim. Do fim. Do sono profundo
da minha memória gasta.
Preciso-me e traço traços e serenidades
No chão de um monumento que ergui para ti,
Num prédio, numa cidade, numa janela.
Num cruzamento de (im)possibilidades.
Sonho-te.
Cheiro-te.
Vejo-te.
Acordo.
Para a frieza implacável da realidade.
És-me (ainda) tão real.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:16 AM
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Os pombos
Entende:
Há pombos que cagam nas tuas moradas. E nas tuas pseudo-felicidades.
E tu não dizes nada. O silêncio comeu as tuas palavras.
O Silêncio comeu(te).
Publicado por Fairy_morgaine em
08:21 PM
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A música
A música liberta as palavras.
Rasgam-me. Liberto a dor e a impassividade
Com que a Outra assiste ao babar da multidão.
Sei que me imaginam. O corpo, a pele, as mãos,
A língua rubra. Sei. Os nomes e os pecados
Com que dançam em torno de uma fogueira.
Longe, alguém expressa a descrença no ser humano.
E Ela concorda. Ela não acredita em ninguém.
Ela não acredita em mim.
Guardo poemas como quem guarda pombas
E serenidades. Abraço o corpo e as feridas,
O sangue e a incapacidade de tecer crianças.
Puxo o imenso nada e crio poemas, crio
Personagens, crio-me, lanço-a no abismo de
Estar presente aqui. Ela. A Outra. Eu.
A que não acredita em sonhos e dispersões.
A que não acredita no poder do colectivismo.
Cravo as unhas na solidão, cravo-me na
Alvura de uma parede, classifico-me, desclassifico-me,
Arrasto-me, rasgo-me, aprendo-me, escondo-me.
A música liberta-me. Voo.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:54 PM
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