maio 30, 2008
Conversas com Deus
- Estás aqui? Mas tu não estavas lá? Longe?
- Sim estava.
- E eles?
- Não é tão linear como pensas. É complicado.
Abraço-te.
- Têm-me arrancado toda a inocência que sobrou de ti. Tem sido tudo tão difícil. Quando estou triste a minha mente procura-te, desenterra-te. Pensei que estavas longe, mas estás aqui, estás aqui não estás? Eu sou uma criança em ti, não sou?
O teu rosto é tão perfeito como o recordo. Como ainda o recordo. Passaram-se dias, meses, anos. Estás cravado no mais profundo do meu ser. Ainda te recordo.
- Não é um sonho, pois não?
Sim, é um sonho.
- Já não me recordo da dor. Não me recordo da dor. Só do teu rosto. E do teu cheiro. O teu cheiro ainda me dói.
Sim, é um sonho.
- Lembras-te de mim, da minha inocência ridícula? Das minhas mãos no teu sexo? Da minha ignorância no teu sorriso? Lembras-te que estavas nu e eu fechei os olhos e eu olhei para o teu rosto, apenas o teu rosto, decorei o teu rosto. Lembras?
Sim, é um sonho.
Ouve, Deus! Ouve-me! Porque és tão cobarde, porque nos largas aqui? Porque nos dás tudo para sermos felizes e depois nos tiras? Porque nos impedes, porque nos amarras? Ouve-me!!! Estou aqui!!!
Sim. Eu ouço-te. Tens a certeza que é esse o destino que queres? Depois dos anos em que ele esteve longe, ele já não é quem tu conheceste. É esse o destino que queres? É?
…
Sim é.
Sim. É um sonho. Acordo.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:36 AM
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maio 26, 2008
Rain (liberto nas palavras o grito)
Liberto nas palavras o grito
E o imenso rancor que sinto
De todas as noites que ocultas o teu
Coração do meu. Arranco de mim
O teu cheiro, a tua silhueta, o teu medo.
Arranco-te de mim.
Arrasto os pés pesados, arrasto
O corpo molestado,
Arrasto o passado,
O presente, o futuro.
O som de todas as palavras
Que jamais proferiste e
Todos os abraços que nunca me deste,
O peso das lágrimas e da angústia profunda
Em que me submergi voluntariamente.
Lá fora chove.
It can rain all of the time.
It can and it will.
‘Cause nothing grows in here.
Not even me.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:26 AM
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maio 24, 2008
A manhã
Partes e levas-me contigo, em mais uma de muitas viagens que fazes no silêncio da noite.
Aguardo-te. Sei que eventualmente voltarás, o rosto amargo e os joelhos gastos.
Fio. Fio um cordão umbilical que nos une de forma (im)perceptível.
Afastas de mim a memória das tuas mãos no meu seio. Afastas de mim os teus dentes afiados e a tua necessidade do meu sangue e das minhas lágrimas. Afastas-te.
Não verto uma lágrima. Não posso. Estou a fiar. E quando fio, não existe mais nada no mundo. Nem o Sol, nem a Lua, nem o lago escuro onde banho a pele branca.
Sabes que sonho contigo e com as tuas escuridões. Nos sonhos falas comigo, tocas o meu rosto, bebes as minhas lágrimas. Sim, sonho contigo.
Longe. O vento traz-me sussurros dos teus gritos e do cheiro do sangue que vertes das feridas antigas e reabertas. Podia ignorar. Podia encerrar-me dentro de mim e fingir que não ouço a tua angústia, que não a palpo, que não sei como te dilaceras até que apenas restem os ossos.
Deixo cair o fio que teço. Deixo cair o corpo. Deixo cair o silêncio e grito contigo, na angústia profunda de te saber longe de mim.
A manhã chega, as verdades escondem-se da luz do Sol. Refugiam-se na noite sagrada. Afasto o cabelo do rosto. Ergo o corpo esmagado pela fúria da noite e dos teus gritos lancinantes. Lavo-me. Apago-te. É manhã, e na manhã a nossa solidão reina.
Logo à noite virás. Agarrarás o meu corpo e entrarás em mim com a mágoa de não quereres ouvir-me gemer e sussurrar que não quero que partas. Partirás.
No breu da noite, gritarás. E eu gritarei de impotência. E de manhã, não estarás ali. No quarto. No silêncio.
Não quero que partas…
Publicado por Fairy_morgaine em
02:04 PM
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maio 23, 2008
O momento suspenso
Despes o meu corpo. Despes a minha alma e o teu coração, a meus pés.
Deixas que o tempo se suspenda algures entre a minha atrapalhação e os teus olhos enormes e profundos. Escondes alguns segredos. Desvendas outros.
Imerjo no teu cheiro e no teu cabelo. Faço-te perguntas. Imensas perguntas. Tiro-te o chão. Devolvo-to. Irrompo no teu mundo, com as mãos vazias e a vastidão da ignorância dos erros humanos. Devasto-te. Pergunto-te. E tu respondes. Ou não.
Silêncio.
Olho para ti. Olho para dentro de ti. Vejo-me. Vejo-te. Vejo o teu medo. E o meu. E o abismo, ali tão palpável. Vejo um caminho. Vejo vários. Alguns levam ao fim de nós. Os outros levam-nos para dentro. Para a espiral do âmago.
Escorregas sobre mim e eu seguro a tua mão. Estás ali. Estás sempre. Estás. Sempre. Comigo. E em mim.
Passam-se alguns momentos numa cadência perfeita. Alguns momentos. Momentos eternos. Como os poemas que não permites que leia, embora saibas que te leio os dedos e os cansaços.
Eu sei e tu sabes que parte deste momento suspenso é um erro. Eu sei e tu sabes que parte deste momento suspenso é o momento de felicidade mais perfeito que deus poderia ter criado. Entre o erro e o sonho está cravado o nosso medo. O medo que tu tens das emoções. O medo que eu tenho do abandono. O medo que ambos temos da solidão. O medo que eu tenho de ti. O medo que tu tens de mim.
As palavras que não consegues guardar quando te trago no peito. As perguntas que não colocas porque não é preciso. Eu sou para ti, o espelho em que te reflectes todos os dias.
Tocas-me. E eu suspendo a respiração. Não posso respirar. Quando me tocas. Porque és tu. Porque sou eu. Porque não podemos ser nós.
O momento vai terminar e eu sei que algures espreita o fim. Espreita também o caminho que nos traz para dentro. Da espiral do âmago.
- Nunca me vais abandonar, aqui neste quarto sozinha pois não, amor?
- Não.
- Quando foi que deixaste de reclamar por te chamar amor?
- …
- Deve ter sido algures entre o momento que te tentaste afastar de mim e o que o momento em que não conseguiste.
- Talvez.
- Eu sou o teu sorriso. Hoje e sempre.
- Eu sei.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:47 AM
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maio 15, 2008
O poema
Porque às vezes as palavras não são minhas, mas de outros, aqui fica um poema que me foi dedicado :)
"Minha doce e querida criança,
amaste durante anos a fio quem não merecia.
e no entanto...não conseguias deixa-lo partir
sofreste por ele com ele...
e no entanto ele não te acalentou a tua maior dor
Quiseste chorar...
e no entanto ele estava lá, mas não te libertou as lágrimas.
Quiseste gritar
e no entanto ele abafou-te o grito.
Quiseste invandir-lhe o espirito
no entanto ele criou uma barreira que não conseguiste ultrapassar.
Quiseste que ele Te rasgasse
e no entanto rasgou estas e aquelas,
ás vezes querias ser livre
e no entanto ele não te liberta
ás vezes querias acabar com tudo
e no entanto ele prendia-te no seu mundo.
No fim acabou
e aquela dor no peito, permanece
e não te consigo aliviar a dor
no entanto não me cabe a mim fazê-lo...
ás vezes gostava de te abarcar as dores criança
e no entanto estão tão longe de mim, que não as consigo agarrar...
No fim sabes que não estás só."
Publicado por Fairy_morgaine em
10:22 PM
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maio 13, 2008
This is our farewell
Fujo.
Fujo-te. Porque na miséria escura da noite, o teu corpo já não traz nada de novo.
Sei-te o sabor. Sei-te o corpo magro e cru. Sei-te e isso não me acalma as ânsias, nem as feridas, nem os cansaços.
Estou despida de serenidades e onde estou não há Primavera. Nem Inverno. Aqui, não há Sol nem Lua. Há apenas um espaço morto onde viveu uma criança que partiu. A criança que és tu. Que fui eu. Que foi o nosso filho, o nosso futuro e o nosso passado inexistente.
Preciso deixar este quarto e respirar o ar frio da noite. Preciso deixar aqui o teu cheiro e os teus lábios, as mãos com que rasgas o meu corpo e me abandonas nesta cama e neste imenso nada.
As feridas que poluem o teu corpo já não são curadas pelo meu sopro. Abandono-te agora.
Não… não chames o meu nome porque já não tornarei a quedar os meus passos. O abismo aguarda-me finalmente.
A queda será infinita. Agrada-me.
Lembro-me quando imploraste que não partisse e não te deixasse só e como os meus lábios se apartaram e murmuraram: “Amo-te” e tu acreditaste. Lembro-me que estava Sol e eu estava de linho branco e braços abertos.
Lembro-me que o teu coração era um mar de sonhos e padecimentos. E que os meus olhos eram o mundo onde repousavas o teu desamor. Lembro-me, que era no meu seio que lambias as tuas feridas.
Subitamente, a noite caiu em nós, demos as mãos e prometemos que jamais abandonaríamos o mofo do nosso quarto e do nosso chão.
Lembro-me que os teus olhos eram o céu em que espelhava o meu rosto. Disseste-me “eu não te amo” e eu não pude acreditar. E caminhei junto ao teu caminhar, e sonhei junto ao teu sonhar e pintei-te em todas as paredes e quis-te com a força de uma impossibilidade.
Lembro-me que as lembranças de hoje foram os sonhos de ontem.
Fujo-te.
Preciso de mim.
Não preciso de ti. Não estás aqui.
Não estarás mais aqui.
Não cumpriste a tua promessa. A tua promessa muda.
Por favor, devolve-me.
Para que te fuja.
This is our farewell.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:00 AM
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maio 05, 2008
O cão, o lobo e o homem
O tempo abandona o meu corpo como um amado abandona a virgem no leito de morte.
Olho-me no espelho e sei que vês em mim, hoje e ainda, a menina que te afagou a pele branca e antiga.
Eu já não sou eu. Embora tu não o vejas nem o saibas.
Vês no meu cabelo, o cabelo que te escorreu o rosto e o destino.
Ergues as mãos para segurar o meu corpo cansado, sem tomares consciência que em mim nada mais nascerá para além do erro torpe.
Dizes-me: "ausentei o meu coração, percorri caminhos que jamais imaginei percorrer, cuspi filhos e rezas, fui um cão e um lobo e um homem.".
Ouço-te, mas não te sei. Vives num mundo vermelho, rasgas o teu semblante em enganos puros com que vestes o teu passado.
Lá fora, ainda chove.Cai uma chuva que cobre o espaço lilás que medeia o meu coração e o de todos os outros.
Há em mim uma ânisia profunda de abandono e solidão.
Julgas-te igual, julgas o meu seio preenchido e maternal, julgas o meu olho vítreo e belo, quando na realidade eu sou apenas e tão somente um casulo donde jamais nascerá uma borboleta.
Um dia talvez te leve ao quarto onde jaz a menina que amaste e que eu encerrei. Um dia, talvez suporte um poema, um beijo ou uma pomba. Um dia, talvez te entregue num altar, longe do meu gelo, da minha dor e da doença que me consome o ventre.
E nesse dia tu saberás, tu terás uma clara noção do negrume da minha alma. Nesse dia, quando beijares o futuro saberás que eu serei sempre o teu passado.
E em sonhos, abraçarás a menina que fui, numa valsa eterna da tua angústia.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:30 PM
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