janeiro 20, 2008

O tempo (uma tapeçaria desbotada do vestido que vesti menina)

Existem tantas palavras no meu peito,
a quererem rasgar a noite, romper o dia,
sentirem o frio imenso da ausência
de mim em mim mesma.
São destinos que pincelei para mim,
num tempo que não era tempo, era
um navio que viajava no mar e trazia
todos os segredos do Novo Mundo,
do vazio. Existem livros e poemas que
quero cantar, tantas personagens e sombras
que quero vestir, tantos sons e lágrimas que quero
soltar e não posso, não sei a arte da comédia.
Abro os olhos e sei que amanhã o dia amanhece
exactamente igual, sei que a cadência da música
já não me pode salvar, que as mãos e os sonhos
com que fechei este quarto já não são meus para recuperar.
As crianças que velei no meu seio, já não são crianças
são espectros, mentiras, estradas quebradas entre
o rosto que pensei ter em menina e o rosto sulcado
e pálido com que mascarei os meus ossos.
Abro os olhos e sei, sei porque não posso deixar de saber,
porque a evidência me grita aos ouvidos, porque amanhã
vai chover no meu peito como ontem, como hoje, como sempre
e para sempre no tempo que deixou de ser tempo
para ser uma tapeçaria desbotada do vestido que vesti menina.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:04 PM | Comentários (4)

janeiro 15, 2008

A miragem

Lembro-me dela.
Era pequena, os lábios rubros.
Tinha as mãos eternamente brancas
e o regaço em flor.
Lembro-me da música com que
lavava o cabelo escuro.
Das letras com que mascarava a solidão.
Lembro-me do fio negro que lhe
queimava a alvura da pele,
do linho com que cobria a nudez.

Lembro-me dele.
Era alto e tinha o corpo marcado pelo vento.
Tinha as mãos eternamente finas e suaves,
um pianista rejeitado pelo som do piano
Lembro-me do sorriso torto e do cabelo
revolto, as letras com que enganava
o destino. Lembro-me do dourado
que lhe rodeava as íris.

Lembro-me dos dias infinitos
em que tomavas os meus lábios,
como um sonho perpetuado pela ânsia
de saber todos os momentos,
todos os poemas, todos os sonhos.
E tu estavas ali. E disseste - lembro - que
ficarias sempre.

E eu acreditei.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:58 PM | Comentários (2)