novembro 29, 2007

Um manto de silêncio

Cubro-me com um manto de profundo silêncio
e sei que algures lá fora a noite ficou ainda
mais densa e tortuosa. Aprendi os caminhos de
mim como quem aprende a ler o sal nas mãos
de quem amou. Procuro-me, cega, mas o meu
peito não reconhece o som asmático
do negro que perfura os olhos demasiado
grandes e perscrutadores.
Sei que quando me morrerem finalmente
as palavras nuas o som do meu nome
me será infinitamente estranho.
Sinto que quando me morrerem finalmente
as mãos turvas quedas no regaço,
todas as folhas amarelas que depositei
na tua campa se transformarão em regatos
de água doce. Cubro-me com um manto
de profundo silêncio e descubro
que a noite lá fora invadiu o meu espaço
e trespassou a minha alma como uma adaga
penitente e humilde. Cubro-me com um manto
e deixo que o sono e o profundo silêncio
se abatam no meu seio onde um dia
moraram os sonhos e as imperfeições.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:46 PM | Comentários (7)