A fada-menina
Guardo-te, pequenina e frágil numa caixa
de música poeirenta, as asas encolhidas
com brilho de estrelas que descem do cabelo
loiro e ondulado. As mãos em frente ao rosto,
a inocência do teu semblante triste.
Guardo-te, pequenina e frágil,
uma mera recordação de anos
passados e quase esquecidos.
De tempos a tempos olho-te,
os olhos vagos de desesperança,
os pés cansados de viagens vãs.
Pergunto-me que sonhos sonhava
quando o meu rosto era o teu rosto
e as minhas asas rasgadas eram tuas asas
de estrela. Que sonhos alados segurava
nas minhas mãos eternamente brancas.
As respostas, sei-as de cor.
Conheço os mundos liláses que
pintei nos meus anos de infância
interrompida, conheço os vestidos
com que me vesti, os livros com que
forrei o meu coração, o rubor das faces
que não se apagou com o passar dos anos
e está perpetuado na minha imagem,
na menina-fada que guardo preciosamente
na caixa de música que já não existe
senão na minha memória e que tentei queimar
com o fogo da realidade humana.
Mas a menina que fui e que dorme, loira
e bela envolta no brilho das estrelas
ainda respira suavemente,
ainda existe, uma memória viva
nos confins da minh'alma.
Deixo-a e parto. A realidade lá fora,
os ventos uivantes da mentira
esperam-me. Lanço-lhe um último olhar
envergonhado cravado no momento
que a adormeci para não a dilacerar.
Nos seus sonhos talvez ela me veja.
Talvez ela saiba que a mulher que sonhou ser
não passa de uma máscara desbotada.
Rasguei todos os seus sonhos,
todos os livros, todos os mundos liláses
e abracei o mundo fétido com demasiada
força, demasiada ânsia. Rasguei-me.
Eles chamam-me lá fora.
E ela dorme, a pequena fada-menina,
o brilho de estrelas que vive no seu peito.
Publicado por Fairy_morgaine em
03:16 PM
|
Comentários (7)
|
TrackBack