Quarto escuro
Cai a teus pés meu véu lilás,
máscara obtusa de porcelana,
pequeno engano da morte
que alimentou meu leito de menina.
Escureço o quarto em que guardo
meus livros, meus sonhos, minhas bonecas,
irmãs de carne e de sangue,
de leviandades e desesperos.
Atravesso a casa, rasgo o silêncio neutro
com meus passos de bailarina quebrada.
Quebro os espelhos
para não ver o que não pode ser visto.
O tempo não corre
na casa pequena, no amargo do
meu coração. O tempo escorre
pelas frestas das paredes,
pelos buracos do chão.
Sento-me esmagada pela verdade
da minha condição
de boneca-menina.
Os erros.
Sempre os mesmos erros,
as mesmas falácias.
As páginas rasgadas dos livros
que li no tempo passado
quando o tempo ainda era tempo
nesta casa, neste espaço,
neste coração.
Na escuridão do quarto abafado
escondo-te ainda, minha boneca
preferida, meu rosto, meus olhos,
minh'alma roubada,
guardada em teu corpo pequeno,
em teus lábios rubros, tua pele branca.
Escondo-te encostada a meu peito
enquanto te alimento da seiva
das minhas palavras e dos momentos
fingidamente felizes com que forrei
o teu vestido.
Quando o tempo voltar a ser tempo
deixar-te-ei voar, minha boneca
preferida, com os teus cabelos
mel ao vento e serei teu porto.
Quando o tempo voltar a ser tempo
voltarei a amar.
Publicado por Fairy_morgaine em
03:41 PM
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A rotura
O dia amanheceu perigosamente
escuro, fechou-se uma porta
ruidosa e eu soube.
Simplesmente soube
que o Fim tinha chegado.
Deixei escorrer todas as lágrimas
que ficaram por chorar
dos anos que vivi por ti e para ti.
Nada mais restou do que vivemos.
Apenas e, tão só a lembrança
vaga de um sonho que me faz
gemer noite dentro,
o corpo sulcado pela fome de
uma solidão verdadeira.
Acreditei ter-te dentro do peito,
acreditei verdadeiramente poder
ser banalmente tua.
Lentamente o entorpecimento
abandona o meu corpo,
os lábios movem-se,
retomo a respiração.
Apago o teu nome de mim.
Já não quero ser
banalmente
tua.
Publicado por Fairy_morgaine em
07:49 PM
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