junho 25, 2007
A loucura (ou o tão ansiado fim)
Queria dizer-te que sou bela, que sou única,
que sou uma pessoa e que sou digna,
que não procuro dentro de ti motivos
para te odiar na mesma intensidade que me odeio a mim.
Queria dizer-te que não estou louca,
que não conheço os meandros de mim,
que não conheço o colo escuro e frio
da morta que me segura,
que aprendi a ser diferente, a ser inteira e
amada, que aprendi a apagar as pegadas
da solidão do meu quarto.
Queria escrever sobre a água, sobre as flores, sobre
corações abertos e verdadeiros,
queria escrever sobre o Sol e a chuva e a mão
de uma criança na minha, queria escrever
algo doce, algo sincero,
queria fingir que não arranco o coração do peito
para o esfaquear, queria fingir que já não
me arranho, que já não inflijo feridas profundas
na minha alma, queria dizer-te que finalmente acabou
a dor.
Mas escrevo negro de novo, pincelo de novo o meu rosto
de lágrimas de carvão, ouço músicas que já tinha esquecido.
Ouço o som seco dos meus soluços.
Apago-me. Só me consigo escrever
na escuridão do palco abandonado,
na loucura colorida que me toma nos braços
e me embala.
E tinha prometido a mim mesma jamais
escrever novamente sobre ela.
Lembro-me num qualquer pedaço de cérebro
que me ensinaram regras que já ninguém
usa e que estão fora de moda.
Durante a noite os anjos levam-me e depositam-me
branca num sonho alternativo. Eu
era uma menina e acreditava que a felicidade
é um requisito de ser-se humano.
Eu era menina e acreditava que dentro
de todo o ser humano existe um pedaço de
algodão. Durante a noite os anjos
resgatam a menina que fui e levam-na
a voar mundos soterrados na memória
de Deus. Durante a noite os anjos beijam-me
o rosto e sussurram-me ao ouvido
que a loucura sou eu que a trago no peito
como um tesouro que ninguém mais pode tocar.
Está tão perto. O fim.
O ansiado fim.
Publicado por Fairy_morgaine em 01:54 PM
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junho 14, 2007
A lembrança (a saga do eterno ódio)
Abriu os olhos e já era de manhã. O Sol entrava-lhe pela janela como um carrasco que aguarda pela presa. Levantou o corpo cansado, entrou na casa de banho e olhou-se no espelho. Os olhos continuavam cravados no rosto, seguidos por enormes olheiras negras e sinceras.
Fez tudo o que qualquer homem faz de manhã. Fez tudo com o corpo cansado e os olhos cravados. Sentou-se em frente ao computador. Tinha uma mensagem dela. Sorriu, mas o sorriso não lhe pintou os olhos de brilho. Sorriu o sorriso estranho que lhe torcia os lábios de esgar mesmo quando não queria.
Cerrou as mãos e pensou em todas as palavras que poderia escrever-lhe em resposta. Cerrou os lábios, fechou o sorriso que lhe consumia a alma de pensamentos sombrios. Pensou pela milésima vez todas as palavras que ainda estavam suspensas no tempo, no quarto, na estrada que o levava até ela. Escreveu apenas um "oi". Não escreveu mais nada.
Pensou se valia a pena deixar que ela estivesse perto dele. Infinitamente longe. Muito mais longe que todos os quilómetros que sempre separaram os seus corpos e as suas mãos. Lembrava-se vagamente dos olhos dela. Tinha tentado demasiadas vezes apagá-los da mente. Os olhos dela eram o fogo da sua raiva. Os olhos traidores dela.
Continuou uma conversa de circunstância. Sempre que ela era simpática apeticia-lhe despedaçá-la como ela o despadaçara a ele num tempo que já não era tempo. Conhecia todos os movimentos dela, os medos que ela ocultava de si e dos outros, conhecia os momentos e as lágrimas de sal que de quando em vez lhe roíam as pálpebras. Conhecia isso tudo e queria rasgar esse conhecimento.
Na verdade, às vezes achava que queria esventrá-la. Obrigava a mente a concentrar-se em ser uma pessoa normal na vida dela, na vida que ela tinha continuado, na vida que ela tinha entregue a um outro qualquer.
Duvidou pela milésima vez se a tinha amado. Duvidou pela milésima vez da felicidade que tinham partilhado. Duvidou de tudo. Das palavras que ela lhe disse, das estradas que tinha viajado, das gargalhadas que ecoavam na escuridão da sua memória. Perguntou-se se a sua solidão alguma vez a tinha tocado.
Ela nunca o compreendeu. Nunca soube de que cor pincelava os dias em que não estava com ela. Ela nunca quis saber. Cerrou as mãos novamente.
No passado, escrevera-lhe e-mails que não enviou. Pensou em escrever muitos outros. Pensou muitas coisas e sentiu outras tantas e escondeu isso de si e dos outros.
Aos poucos as pessoas deixaram de lhe perguntar por ela. Frequentava os espaços que sabia que ela gostava. Apaixonou-se por outras pessoas. Talvez até tivesse amado. Mas isso não mudava as linhas da casa que ainda tinha a marca dela. E os cafés. E a pizzaria. E todos os mundos que eram dela.
Parou de lhe responder. Canalizou a febre no trabalho. Queria esquecer-se que ela estava do outro lado da linha. Queria esquecer o nome dela. Queria esquecer sequer que ela existia.
As horas correram-lhe no colo. Olhou novamente para o ecrã. Sabia que eventualmente lhe ia responder. Sabia até que eventualmente ela iria telefonar. Sabia que ouvir a voz dela lhe rasgava os olhos e lhe tatuava palavras na pele. Palavras de ódio. De raiva.
Às vezes desejava que ela sofresse tudo o que ele tinha sofrido. Às vezes desejava que ela fosse consumida pela solidão. Às vezes desejava que ela entrasse pela porta e que nada tivesse acontecido e que deitasse a cabeça no seu colo e lhe enlaçasse o corpo e fosse tudo o que nunca tinha sido.
Guardava dentro dele os sentimentos e a fobia de a ouvir e de a sentir mais próximo, não os contava a ninguém porque ninguém ia entender. Também não queria contar. Queria apagar o passado. Guardava dentro dele o medo de a dilacerar a qualquer momento.
Ao princípio acordava a meio da noite, consumido pelas dúvidas e pelas certezas. Ao princípio imaginava que ela ia abandonar tudo e ia pedir-lhe desculpa e ia deitar-se a seu lado e dormir como se nada se tivesse passado. Ao princípio imaginava que não a tinha conhecido e que ela não tinha dormido no seu peito. Ao princípio fingia que não sabia o corpo dela mais do que o seu.
Um dia veio outra mulher. Esqueceu o sorriso dela. Substituiu-o por um outro. Agarrou essa mulher desesperadamente contra si. Vendeu a alma e o resto de si que tinha salvo. Deu-lhe tudo. Deu-se-lhe. Acreditou que já não a odiava. Acreditou que nada disso importava porque agora finalmente podia ser feliz. Com outra mulher. Acreditou que já não se interrogava o que ela via nele que não via em si. Viveu. Foi feliz. Até ao fim. E o fim estava-lhe muito próximo. A outra mulher corrompeu o que restava dele. Mastigou-lhe a alma, trocidou-lhe o destino. E era tudo culpa dela. Era tudo culpa dela e da sua traição e da sua falta de lealdade.
Nesses dias morreu a cada sol. Já não havia um sorriso para ocultar o seu sofrimento.
Rasgou as feridas. Procurou-a. Vestiu-se com as suas palavras. Sonhou que ela estava à sua espera na pizzaria e lhe ia dizer que era tudo um engano e ele ficaria novamente seguro com ela. Chorou tudo o que não tinha chorado. Chorou o que ainda havia para chorar.
E ainda assim, não sabia se a tinha amado.
Mas isso tinha sido ao príncipio. Agora ela estava ali, sorria para ele, brincava com ele, lançava-lhe perguntas que ele não queria responder.
Às vezes ficava em silêncio. Outras respondia-lhe coisas sem nexo. Às vezes queria mandá-la à merda.
Prometia a si mesmo que ia ter uma relação normal com ela. Que ia deixar que ela fosse sua amiga. Que ia esquecer o passado e vê-la colorida e não a preto e branco.
E ainda não sabia se a amava. E ainda tinha medo de a dilacerar. E ainda duvidava de tudo o que tinha vivido com ela. E ainda não fazia ideia do que ela tinha visto no outro. E ainda a esquecia todos os dias. E ainda a lembrava.
Publicado por Fairy_morgaine em 04:33 PM
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junho 07, 2007
Depois de um período em que estive talvez excessivamente virada para dentro e ausente das letras que não as minhas (e mesmo as minhas vinham-me em escassos lampejos) sinto uma falta imensa de vos ler.
Após variadas formatações de resultado semi-desastroso (long, long story) venho pedir a quem tem um blog e não consta da lista de links (que está também ela francamente desactualizada) que me envie um mail ou deixe aqui um comentário para que eu possa recuperar os vossos endereços.
A todos um muito obrigada e um bem haja. Penso que desta vez estou a sair do buraco onde guardo as recordações um pouco mais curada do que é costume.
Faço-vos uma vénia... e aguardo os vossos contactos.
Publicado por Fairy_morgaine em 06:59 PM
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junho 05, 2007
Amor intemporal (o destino do corpo)
Conheço o vazio como quem sabe o destino do corpo mole.
Conheço todos os rostos que abandonei na beira da estrada,
que violei e conheci de forma impetuosa deixando-lhes
a vil marca escura do meu toque e do meu beijo.
Sei-te perdido no mundo egoísta da poesia, no
beco faminto da filosofia, sei-te embrenhado nas tuas letras
e na soma branca dos teus olhares.
Conheço o caminho sujo que leva aos pés de Deus.
Conheço também a indiferença da Natureza perante
a morte do homem e do lobo, da baleia e do unicórnio.
No céu nocturno há uma estrela que se rebelou contra Deus.
Espero tranquila a morte do sofrimento.
Vejo rostos e sonhos que perecem ao fim da tarde quente,
nas ruas de Lisboa. Aqui no limiar da sanidade
sente-se tudo mas não se sente nada ao sentir o infinito.
Espero tranquila o nascimento da vã esperança.
Morrem em mim os dedos suaves e belos
com que passeaste o meu corpo e escravizaste a minha alma.
Amo-te demais e esse amor proibido corrói tudo o que sei,
tudo o que sinto, tudo o que crio, tudo o que é meu.
Deito tudo o que conheço a teus pés,
dou-te até a estrela rebelde que iluminou as minhas noites,
dou-te mesmo a minha honesta decadência.
Ensino-te assim que neste amor não há limites
nem certos nem errados. Não há nada neste amor
para além dele mesmo, nem Deus, nem a indiferença da Natureza
pura, nem o lobo, nem o homem, nem mesmo o som grave do piano.
Acabo assim, fundida em ti, perco a noção do Eu, perco a dualidade
do corpo e da alma, eu não sou mais eu, nem tu, nem ninguém,
eu sou apenas um traço do teu rosto, um sorriso dos teus lábios,
um suspiro da tua boca.
Finalizo-me feliz, estupidamente enganada que alguma vez
poderás sentir o traço esculpido do rosto e saberes que nele padeci
e deixei de respirar e deixei de ser Eu.
Deus não me salvou da insanidade nem da Poesia.
Deus não me salvou de mim. Nem de ti. Nem do Amor intemporal
que semeaste no meu coração.
Publicado por Fairy_morgaine em 07:17 PM
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