Solidão
Abraço o corpo que não é meu,
em espaços que já não são teus,
em momentos que nunca foram nossos.
Abraço o eterno sorriso de
boneca quebrada, como uma lágrima
que cai eternamente do céu,
como um beijo vermelho suspenso
nos lábios rasgados,
como um suspiro inadaptado.
Sei-te algures num qualquer
jardim de Outono com todas as folhas
caídas a teus pés como poemas
da Natureza dedicados às tuas mãos
leves e belas.
Abraço a minha solidão eterna
como um castigo severo
ditado à nascença,
um murro na mesa poeirenta
que destapa o bolor do pão,
o azedo da sopa.
Abraço-me.
Ninguém mais me pode abraçar
na imensidão da solidão com que me cobri.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:32 PM
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O presente
Deixo-vos um poema do meu poeta favorito como quem dá um presente com um sorriso:
"Durante a noite as palavras surgem
como gotas de suor após o pesadelo. Procuro
a tua voz, os teus dedos apaziguadores e
a pele que, de tão quente,
me faz renascer.
mas quem eras não está mais aí.
Tudo aquilo que possas dizer já foi dito e
nas mãos apenas existe esterilidade
frio sem rumo e
só a distância se torna sólida.
há terra a escoar em ambos os sentidos:
tinhas o meu olhar ali, tão perto que queimava
as opiniões que um dia pudesses vir a formar.
assim, à noite, apenas resta acordar em sobressalto,
vociferar inúmeros rostos dos quais já não sei
o nome
e permanecer acordado, sem que a tua mão
recaia, docemente, sobre as feridas
que já não curas."
Sérgio Xarepe
Publicado por Fairy_morgaine em
05:03 PM
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