janeiro 31, 2007
O poema (a lágrima)
Apetece-me chorar.
Apetece-me deitar para fora anos e anos de ódio e mágoa que as pessoas guardam de mim.
Nem todas as pessoas. Apenas as que me amaram. E que decidiram que o amor que lhes dediquei era pouco e que queriam mais do que eu na altura, e talvez ainda agora, possa oferecer a alguém.
Hoje despediste-te de mim. Ele também. Ele tem apagado de mim as memórias de um tempo em que éramos dois e que nunca fomos um.
Ainda assim guardei memórias que ele agora insiste em pintar de vermelho. Vermelho rubro de dor e sarcasmo. Ele mastigou tudo o que poderíamos ter dito um ao outro.
Ficou assim, suspenso.
Tu não. Tu sabes em mim as palavras que ainda são tuas. As que não sei dizer. As que escondo de ti e dos outros e de todas as pessoas.
Conheces-me.
Despediste-te de mim, com o poema que tantas vezes ansiei e que não continha as palavras que sonhei ler nele.
Um dia pedi-te que me escrevesses. E tu disseste que não sabias, que as palavras eram punhais que te rasgavam as pálpebras e te confundiam os sentidos ao ponto de deixares de reconhecer o teu próprio rosto e o teu destino.
Hoje deste-me um poema como quem dá uma lágrima.
Espelhaste nele o vazio que construíste para nós. Durante anos procurei o teu colo e a tua voz e o conforto manso do teu peito. Ainda que o teu peito nunca me tenha servido de colo. Ainda assim. Era no teu peito que apagava todas as dores de estar viva e pulsar e sentir e ser eu.
Hoje deste-me um poema como quem dá um grito.
A romper o silêncio. O silêncio que disse tanto e que não nos diz nada mais que não saibamos já, e não tenhamos escrito em papel violeta que deixámos voar e perder-se no lago pesado e azul.
Hoje deste-me um poema e deixaste o teu corpo morto nos meus braços. Num último suspiro.
Amei-te como nunca mais saberei amar ninguém. Amei-te com a força dos corpos que nunca se tocaram e o mistério dos abraços que se esqueceram no tempo.
Amei-te como todos quiseram ser amados e eu não podia e não sabia amar ninguém mais além de ti.
Hoje deste-me um poema e em troca levaste o amor que me susteve anos a fio. Deixaste-me aqui, sozinha, sem memórias, sem as tuas mãos e sem o teu rosto que me apagava as lágrimas cansadas em dias de chuva e noites de sal.
Ainda me apetece chorar... Ainda me apetece chorar... Francamente, ainda me apetece chorar.
Se eu tivesse dito "amo-te" e tivesse violado o teu corpo e tivesse arrancado a tua alma e tivesse gritado no teu quarto e tivesse rasgado os teus olhos e tivesse feito tudo ao contrário e tivesse esquecido a S., a I., todas elas, todas as mulheres que deslizaram nos teus braços e tivesse esquecido que me disseste que as amavas e tivesse esquecido que disseste que eras velho e cansado e gasto e tivesse revivido o menino que me deste um dia e te tivesse beijado loucamente e tivesse deixado o meu corpo nu nos teus braços e tivesse chorado e chorado e chorado todas as lágrimas que um dia semeaste em mim e tivesse pedido que ficasses... Ficavas?
Francamente, ainda me apetece chorar...
Escrito por Ela
31-01-2007
Publicado por Fairy_morgaine em
12:08 AM
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janeiro 27, 2007
Pensamento
Quando pensamos perdemos o equilíbrio.
Como eu, quando subo uma escada e penso e me surpreendo com o meu corpo e o acto de subir a escada e perco o equilíbrio.
Sim, o acto de pensar é uma perda.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:49 PM
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janeiro 10, 2007
A preto e branco
Olho em frente e vejo-me.
Tenho o cabelo solto e os olhos vagos.
O coração leve.
As mãos estendidas a agarrarem uma fotografia
a preto e branco.
As fotografias a preto e branco
captam bem os estados de alma.
Roubam as cores do futuro e pincelam
as feições de uma soturnidade bela.
Dentro de mim vivem perguntas
e certezas.
Dentro de mim vivem crianças
e disparates.
Gosto do teu sorriso e da possibilidade
de um dia saber o teu nome.
Gosto do teu rosto na minha almofada
a esquecer os dias em que fui doutro.
Gosto particularmente do teu rosto.
Tens umas mãos grandes.
Nelas abarcas a miséria de uma vida
perdida e lançada aos monstros que engolem
crianças inocentes e namorados apaixonados.
Tens uma sombra que vive atrás
do teu peito e se alimenta da rouquidão da tua voz.
Ninguém sabe das tuas dores e das tuas loucuras.
Nem mesmo eu.
Gosto da tua solidão.
Trazemos em nós os mistérios dos anos
que passaram e apagaram a credulidade
de sermos nós. Sem sermos mais nada.
Trazemos em nós as palavras não ditas,
noites não dormidas, os braços nus,
e uma imensidão de enganos.
Quero que venhas e me abraces
e esqueças os espaços que construímos
entre nós.
Quero que venhas e me tomes e me tornes
tua.
Quero que me escondas dentro do teu peito
nu, que me desenhes na tua pele, que me deixes
sonhar.
Gosto de ser eu dentro de ti.
Assim, simples e cru.
Complicadamente inevitável.
Inevitavelmente a preto e branco.
Publicado por Fairy_morgaine em
06:48 PM
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