dezembro 31, 2006

O futuro

Quando o fim se aproxima do nosso peito com a força implacável do inevitável abraçamos o que temos de melhor e encolhemo-nos, como se assim o mundo se esquecesse de nós.
Eu esqueci-me de mim.
Esqueci-me dos caminhos que me levam aos que me amaram e possivelmente também já não me recordam.
Guardei os meus sonhos. Dei-tos num saco velho e desbotado.
Não me sobrou nada. Nem uma flor, nem um regaço suave onde deitar o rosto.
Apenas Eu e o Vazio rugoso da vergonha.
Sinto alguém aqui. Nos meus espaços.
Quero esquecer que algum dia alguém penetrou o meu corpo e conspurcou a inocência da minh'alma.
Morreu-me hoje o último resquício da criança que fui um dia.
Morreu-me nas mãos o sonho, o filho, o futuro.
Já não me resta nada.
Já não me restas.
Estou sozinha. Como sempre. Amanhã o dia não clareia mais cedo.
Amanhã o corpo amargurado encolhe-se para enfrentar mais uma odisseia de loucura.

Publicado por Fairy_morgaine em 07:24 PM | Comentários (10)

dezembro 23, 2006

Um bom Natal a todos

Quero desejar a todos os que me leem e que comigo viajam pelos meandros de mim um Natal cheio de Amor, Paz e Harmonia e já agora, porque não, presentinhos na chaminé.
Esperemos que o Ano de 2007 nos traga mais motivos para festejar que este que agora finda.
Esperemos que haja mais poesia na vida dos portugueses.

Sempre vossa

Sílvia

Publicado por Fairy_morgaine em 12:53 PM | Comentários (259)

dezembro 11, 2006

Corpo salgado

"Aqui onde o Sol nasce mais cedo morre-me o teu corpo nu"

Fico a pensar se te posso ensinar mais caminhos que levem aos meus segredos.
Imagino-te sentado, pensativo, imerso em navegações e explorações secretas. Imagino-te, tão somente.
E porque me sentes e me sabes, ergues as mãos e acaricias-me o rosto.
Pergunto-me onde deixaste o desejo que te consumia e o substituíste por um sereno sorriso pálido. Pergunto-me onde me deixaste. Algures num tempo cansado e vão.
As minhas palavras tornam-se tão repetitivas como as tuas. Um dia virá que a poesia não nascerá mais em qualquer fonte junto a meus pés e apenas me restará o teu nome e algumas lembranças poeirentas. Nesse dia, saberei que o rouxinol terminou o seu canto.
Simplesmente saberei.
Existe um Eu que vive o mundo e os homens e o cansaço eterno de começar todos os dias uma nova estória e terminá-la antes de o Sol se pôr.
Existe um outro Eu que só vive no teu mundo. Um Eu mais largo e mais profundo, com lábios liláses e vozes ocas.

Escrevi-te uma carta. Deixei-ta algures num dos meus recantos. Sei que a saberás encontrar. E quando o fizeres sei que morrerei algures. E sorrirei porque só tu és o meu legado no mundo.
Só tu e as tuas mãos curvas e o teu corpo salgado.
E basta(s)-me.

Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em 07:08 PM | Comentários (919)