Descobertas (a proximidade da caminha inglória para a morte)
Pergunto-me vezes sem conta o que move o ser humano na sua caminhada inglória para a morte.
Será o sorriso desdentado do filho? A mão suada do(a) companheiro(a)? A possibilidade de ler um livro, ver um filme, rasgar uma folha de papel. Será a eterna possibilidade de amar mais do que ama no momento, sem saber nem sentir que o momento é hoje e é agora e não retorna nunca mais?
Pergunto-me vezes sem conta o que faz do ser humano, humano. Para além da palavra e da condição.
Será a capacidade inata de sonhar? De esticar os dedos e voar? De pincelar músicas na escuridão?
Navego a imensidão do silêncio da manhã onde esvoaçam pombos que odeio com uma força implacável. Odeio pombos. O barulho que fazem. O bater das suas asas chochas. Odeio pombos.
Dia após dia, noite após noite, nada me faz sentido dentro de mim.
Continuo a jogar o jogo dos porquês. "Porque é que o fulano agiu assim? Porque não fez assado?".
Sento-me em frente ao televisor e descubro que algures lá longe, lá tão longe que nem sabemos onde fica e onde é e por isso não conseguimos ter pena suficiente há uma mulher que deixou o filho e fugiu para Portugal.
Sento-me em frente ao televisor. Pergunto-me o que é uma mãe. Pergunto-me o que é um filho. O que é uma guerra. O que faz da guerra uma faca que corta o coração, a garganta, os laços e as esperanças. Pergunto-me o que é a insanidade.
Pergunto-me também o que é uma bomba. Uma sirene. A romper-nos o silêncio. A romper-nos. A obrigar os nossos pés assustados a movimentarem-se ao encontro da morte.
Pergunto-me o que é sentir a morte tão perto todos os dias, saber que amanhã o sol poderá não nascer aos nossos olhos e o nosso mundo terminar e que importa, que importa digam-me, que outros olhos vejam o mesmo sol e que a vida continue aqui neste planeta ridículo quando os nossos olhos se fecharam e o nosso ser cessou e nunca mais nascerá um ser igual com iguais olhos e iguais aflições e temores.
Tantas perguntas no meu rosto. Sulcadas nas minhas mãos. Aflige-me a previsibilidade inocente do ser humano. A ambição desmedida do seu destino de encontro à dama de negro. Ou de branco? Quem sabe? Aflige-me a previsibilidade dos meus dedos e das minhas palavras e das minhas aflições imaturas.
Descubro em frente ao televisor a negação primordial do ser humano. O nascimento do míssil e da explosão e do medo e da dor e das lágrimas escuras.
Descubro que nada sei sobre a guerra o que me impede de a escrever e de me afligir verdadeiramente com ela.
Descubro que em milhões de lares se come pão e se bebe sumo e se bebe cerveja e se come frango e se comem crianças e sonhos e temores e aflições, enquanto nos deleitamos com a sensação que é não estarmos ali. E podermos conjecturar acerca disso.
Descubro que a morte nunca está demasiado perto para ser nossa.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:13 PM
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Comentários (36)
Bem haja :)
Peço desculpa pela minha prolongada ausência mas estive em época de exames. :)
Espero que tudo vos tenha corrido bem. Virei mais vezes agora. Inundar-me de poesia. E carinho...
Para todos vós um bem haja.
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em
05:49 PM
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Comentários (17)
Nos extremos dos meus dedos
As músicas são sempre as mesmas no meu coração.
Descobri os motivos da solidão lilás que habita os meus olhos escuros. Escuros do cansaço e das portas fechadas que escondem os segredos do mundo.
Essa descoberta pesa-me nas mãos. Tento explicar-te os motivos da seca que se abate nos campos do mundo. Tento explicar-te os motivos da morte prematura das crianças.
Tento, em vão, explicar-te os meandros da minha alma.
Existem em mim pedaços reservados ao sorriso benigno de deus. Pedaços de seda, veludo, carvão, lava.
Existem em mim pedaços de ti e de todos. Do homem. Da mulher. Do espaço entre eles.
Tento, em vão, explicar-te o sentido da vida. Os sentidos que não sei e não conheço. Mas sinto.
Os laços invisíveis que ligam o meu corpo ao abismo.
As mãos que me seguram e as que me empurram num equilíbrio doentio. Tento em vão explicar-te os meus olhos cansados habituados à escuridão do poema.
Caio. Caio... Caio vezes sem conta num abismo sem fim. De onde regresso para cair novamente. Apreendendo novos sentidos. Novas mãos. De onde me puxam e me empurram e me amam e me odeiam.
Nos extremos dos meus dedos morres-me todos os dias. E eu amo-te e odeio-te por isso.
Publicado por Fairy_morgaine em
03:26 PM
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