maio 27, 2006

A Verdade da Solidão

Habituo-me todos os dias à solidão.
Uma solidão intensa, existencial.
Uma solidão omnipresente. Mesmo quando estou acompanhada. Mesmo quando estás.

Habituo-me ao sentimento prostrante e cansativo que é a solidão.
Há na solidão um espelho que reflecte o meu olhar. Há na solidão uma ausência das verdades que escolhi para mim.
Aqui, não pode haver espaço para enganos. É tudo demasiado meu.
Na solidão, não há lugar ao som. Há apenas um silêncio. Um silêncio demasiado silencioso. Que não grita. Que não esconde as minhas falhas atrás do preto. Que não me abandona.
Há sempre silêncio na solidão.

Existe na solidão um retrato de mim em mim que é demasiado poderoso para ser negado.
Um olhar desfocado.
Existe na solidão uma panóplia de mãos sem dono, de esgares e vómitos e rios, rios de sangue e colorido e lilás.
Existe silêncio.

Mora na solidão o outro eu de mim mesma.
Que me assombra. Que me persegue.

Conta-me estórias. Tantas estórias... Fala por dentro do silêncio que nada mais pode ser que o antónimo do meu sorriso.
Mora um outro na minha solidão.

E que ainda assim, não muda. Não muda o peso e o infinito da solidão. Não muda o S. O ÃO. Não muda as sílabas. Não muda as mãos sem dono. Não transforma a solidão em antítese da solidão.

Há na solidão um livro que fala acerca de mim. Que escrevo todos os dias. Nas palavras que são todas elas silêncio.

Porque na solidão não há lugar para as palavras. Porque na solidão só há lugar para um corpo. Várias ausências. Vários medos. Imensos monstros.

Há ainda na solidão um livro que fala acerca do mundo. Do mundo que não está presente. Do mundo que não conheço, nem sei agarrar com as mãos. E os dentes. O medo de fugir. O medo de agarrar. O medo de ser eu. O medo da Verdade.

Há na solidão um fio que me liga ao Tempo. Ao Tempo que passa e não me muda. Não altera o meu rosto infantil.

Não transforma as minhas mãos quedas em mãos febris.
O Tempo. Que nada mais é que um Silêncio ameaçador e implacável.

O Tempo é apenas o outro rosto da Solidão. O Tempo e a Solidão são o outro eu de mim mesma.

A solidão... é demasiado grande para que eu a suporte sozinha.

Publicado por Fairy_morgaine em 06:25 PM | Comentários (28)

maio 20, 2006

Memórias a preto e branco

Existem pessoas que apenas vivem nas minhas memórias.
São donas de sorrisos e mãos que nunca mais se pousaram nas minhas.
Estremeço quando me seguram nas mãos. É como se, por um momento, lessem toda a minha alma, todos os meus segredos, todos os caminhos que não ousei tomar.
Essas pessoas, esses sorrisos, levou-os a vida. Arrancou-os dos espaços onde me habituei a vê-los. Onde sabia, poderia encontrá-los.

Quando estou parada... nunca sei onde hei-de pousar as mãos. Deve ser por isso que aprendi a carregar livros. Para poder abri-los.
Ocupar as mãos. Escondê-las.
Às vezes, esqueço-me delas desmaiadas no regaço. E as pessoas lêem-me as mãos. Esquecem o tempo.
Esquecem-me em detrimento das mãos.

Existem memórias que só existem dentro da minha memória...
Vão-se esbatendo com o tempo. Mesmo quando pensamos que são espelho de um acontecimento tão nítido e singular que jamais se apagarão dos nossos olhos.
Ainda assim, os pormenores somem-se. Desaparecem.
Suponho que seja por isso que gosto de recordar. Rir-me de piadas gastas. Rir-me de piadas que só eu conheço o sentido. Rir-me de situações que só eu lembro.
Rir-me perdidamente. E depois ficar muito séria. Estupidamente séria.
Saber que, dali a dez anos já não me vou recordar de todos os pormenores que dão o colorido à memória.
Lentamente... elas tornam-se a preto e branco. Por muito que as recorde... Que lhes tente dar vida. Que sorria, que chore, que as abrace contra mim.

Quando caminho pelos corredores das gares do metro... As pessoas vão e vêm a uma velocidade estonteante e eu julgo sempre que vou em sentido contrário ao da multidão.
Nunca vejo quem vai ao meu lado.

As memórias tornaram o meu rosto preto e branco.
As crianças são as únicas que me ficam na memória gravadas a cores. Os meus irmãos... Pequeninos. A J. Pequenina. Os imensos caracóis. Os olhos pequenos e marotos. O riso fácil. O M. Pequenino. As pernas rechunchudas. As bochecas brancas. O sorriso tímido. As mãozinhas pequeninas. Onde eu lia pedaços da minha vida. O M. sentado no meu colo. Eu a enterrar os meus dedos nos seus caracóis infinitamente suaves. Ele a estender-me os bracinhos pequeninos. São... infinitamente coloridos.

Quando escrevo as mãos tomam vida própria. Os dedos. As falanges de onde emergem os fios que me ligam a deus.

As memórias... a preto e branco compõe o quadro da minha vida. Compõe-me. Esboçam risos e lágrimas e poemas.
Quando escrevo as memórias voltam a viver e a dançar e a ficar coloridas.
E a J. e o M. tornam a estender-me as suas mãozinhas pequeninas.

Publicado por Fairy_morgaine em 04:41 PM | Comentários (13)

maio 10, 2006

Metamorfose

"Se pudesse abrir os teus espaços, decifrar-te a imensidão dos segredos, a nulidade da perspectiva... Se pudesse tão só descobrir o momento que transformou a regularidade dos meus olhos na matéria fragmentada dos teus espelhos...
Existem desejos pequenos e imutáveis que se transformam nas linhas que definem o indefinível.
Tu existes no desejo de saber a natureza do espelho que sou eu.
O reflexo que te tornaste tu. Tu... que tentas compreender a forma como o reflexo que viste em mim se tornou parte de ti.
Adaptaste as palavras e os meios-sorrisos ao homem que foste nele, tornaste-te a promessa cumprida das mãos que nunca se fecham, que ficam, que permanecem profanadas de pássaros lânguidos.
Tu foste mais, foste menos que Tu em mim.
Tu cresceste dentro e para dentro do Espelho.
Criaste fios, cordões umbilicais, intermináveis espasmos de luz. Tornaste-te o Reflexo. Deixaste de ser Tu. Metamorfoseaste-te nas Leis com que criei o teu corpo, os teus olhos e os teus silêncios.
Renasceste. No Reflexo que criámos no Espelho que há em mim."

Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em 02:27 PM | Comentários (12)

maio 06, 2006

Sad Eyes

Por um motivo qualquer que ainda não compreendi todas as pessoas que vêem fotos minhas acham que eu tenho uns olhos profundamente tristes.

Talvez eles sejam realmente o espelho da alma.

Publicado por Fairy_morgaine em 05:09 PM | Comentários (14)

maio 04, 2006

O grito do silêncio (revisitado)

O grito irrompe-me o silêncio.
Hoje não grito sem voz.
Hoje grito até partir os espelhos.
Todos os espelhos.
Que reflectem a minha pele nua e pálida.
Sou frágil, penso.
Estou nua, desprotegida, cansada.
Estou cansada de lutar,
de rasgar o papel das paredes,
as bonecas de papelão.
Parem o carrossel...!

O grito irrompe-me a garganta.
Hoje grito para todos ouvirem.
Os que estão longe.
E os que estão perto.
Hoje não te poupo aos gritos
que me semeias nas mãos.
Hoje lanço-te,
farpas afiadas e agudas.
Verdadeiras.
Porque a verdade rasga.
A verdade dói.
A verdade, a puta da verdade...
Grita!
Ela rompe os meus limites,
os teus limites,
os nossos limites.
Hoje não somos nós.
Hoje sou só eu.
Eu... Nua. Sozinha.
Sem máscaras.
Hoje rasgo-te sem dó
porque a minha vida e a minha sanidade
estão em perigo.
Hoje não deixo mais que me
amarres os pulsos
ao teu sorriso amargo.
Hoje não permito, sequer,
que insinues o que não
pode
ser
insinuado.
Hoje odeio-te.

Grito...
Grito neste silêncio de mim,
tão meu,
tão inalterável pelo tempo
e pelas vivências de vida.
Há em mim um
mar revolto
que rasga o meu peito.
Há em mim
um estertor de morte.


Tomo II

(sussurrado)
Os passos dele
perturbam o silêncio
do meu espaço.
Invadem-me os sentidos
com uma urgência insuportável.
Os passos dele
apagam de mim
os rostos,
os nomes,
as vestes,
o que conheço.
O fim de mim em mim.
Os passos dele...
(grito)
OS PASSOS DELE
ARRASTAM-ME
PELO ESPAÇO
NÃO MEU...
NÃO MEU....
NÃO MEU...
APAGUEM DE MIM ESTE GRITO
APAGUEM DE MIM
ESTES PASSOS
ESTES... LÁBIOS,
ESTAS MÃOS NO MEU PESCOÇO
esta...asfixia...

Tomo III

Escrevo na parede
da loucura:
"Onde estás quando preciso de ti?
Estás infinitamente longe...
Quando...
preciso de ti
".

Publicado por Fairy_morgaine em 09:35 PM | Comentários (6)

maio 02, 2006

As pegadas das paredes

"Toquei-te, embora não estivesses ali.
Sabia-te prisioneiro da minha memória. Sabia-te escondido, aninhado nos meus braços.
Sonhei-te. Sonhei-te na clandestinadade da noite.
Estavas longe. E no entanto, estranhamente perto. Estavas ausente num refúgio que construíste para mim.
Abriste-me a porta, a voz rouca e cansada do passar poeirento dos dias.
Disseste-me: "se te desse todos os poemas que escrevi para ti, aprenderias o caminho de regresso ao teu mundo e abandonavas o espaço que é nosso. se te desse uma palavra que fosse poderias fugir. poderias mesmo morrer".
E eu disse-te: "se te soubesse mais do que te sei, descobriria em ti a Verdade final do ser humano. serias deus em mim".

Acenaste-me com a cabeça. Existem os silêncios em nós que apagam as pegadas das paredes."

Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em 07:17 PM | Comentários (8)