março 29, 2006
Amanhã o céu nasce lilás
Hoje venho conversar convosco. Não venho gritar.
Venho até bem de mansinho sussurrar-vos ao ouvido.
A todos que me lêem, nas vossas vidas sem tempo. Nas cidades, nos campos. Onde estiverem.
Quero partilhar uma estória convosco.
Era uma vez uma menina, nem bonita nem feia. Era apenas uma menina.
A vida foi-lhe colocando obstáculos pelo caminho e ela deixou de ser menina. Ou assim pensava ela.
Os seus braços e os seus cabelos cresceram e cresceram. E os olhos. Os olhos tornaram-se tão grandes que abarcaram dentro de si todas as pessoas que ela amou nos seus vinte e qualquer coisa de vida. E foram tantas essas pessoas.
O vento levou-as, a água apagou os seus rostos e mãos e sobraram nomes bonitos gravados nos olhos da menina.
Por isso mesmo ela aprendeu a gritar. Para deixar a dor sair. Para amansar a fúria da tempestada que grassava no seu interior.
Mas hoje ela não grita. Tem mudado aos poucos. Não se enfurece. Deixa-se cair na cama e canta baixinho.
Hoje ela quer-vos dizer isso mesmo. Que gritar no silêncio onde ninguém nos ouve não muda a nossa dor. Não apaga as feridas. Não retira os dedos que as pessoas insistem em cravar nos nossos olhos.
Por isso mesmo é preciso saber mover a paisagem. Saber andar como anda a água implacável. Saber terminar um ciclo e começar outro.
Eu sei e vocês sabem que ainda vou gritar muito, porque ainda vai doer muito. Viver dói. Ver injustiças, dói. Magoarem-nos, dói.
Mas ao fim do dia há sempre música. Há sempre sorrisos. Há sempre um amanhã mais perto. Um desfecho, um ponto final.
Não apressemos o fim. Sentem-se aqui ao pé de mim e sintam a brisa.
Amanhã, meus amigos, o céu nasce lilás.
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em
09:24 AM
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Comentários (12)
março 15, 2006
A.L.I.C.E.
Desculpem não ter escrito mais sobre o Abismo, mas este precisa de tempo para surgir em mim, e tempo é algo que não tenho neste momento. Não está esquecido. Está apenas à espera que eu possa deixá-lo fluir.
Até lá vou-vos contar uma estória.
O nome dela era Alice.
Sabia isso e agarrava-se a essa noção para esquecer tudo o resto.
Inclusive a mão que lhe agarra o seio.
Sabia que o seu nome era Alice.
Sabia isso, pelo menos.
A. L. I. C. E.
E o tempo não passava.
O tempo nunca passava quando sentia aquelas mãos masculinas ásperas no seu seio.
Sentia nojo. Um profundo nojo do seu nome e de deus e da vida.
Sentia nojo. Agarrava-se ao seu sentido de nojo para provar a ela mesma que o grito que emitia, mudo, era válido. Por dentro ela sabia que gritava.
Os seus olhos gritavam. O seu peito gritava e rasgava a mão asquerosa que lhe segurava no seio ainda jovem. Ainda demasiado jovem.
Queria que o homem a deixasse. Chamaremos-lhe Lenhador.
Esse vinha de uma estória que Alice conhecia de pequena e que sempre achara ridícula. Ela sabia esse nome. L. E. N. H. A. D. O. R. Não se queria lembrar que o homem tinha outro nome. Tinha outra face. E outra mão. Que lhe subia pela perna.
Alice controlava a náusea e com as mãos trémulas afastava as mãos fétidas de si. Com um intenso sorriso amarelo. Um sorriso. A. M. A. R. E. L. O.
Tinha achado que o seu sorriso gritante e desesperado iria afastar o homem de si e dos seus seios. Pensara isso, a ingénua Alice.
Pensava ainda mais. Que no dia seguinte, Alice ia acordar e tudo era diferente. Por artes de magia e chás alucinogénios o homem deixaria de estar ali. Não estaria mais ali. Deixaria de ser um lenhador. Passaria a ser um gato. Um gato que ri. Um chapeleiro. Uma rainha de copas.
Tudo. Menos a mão que lhe cobre o seio no silêncio da noite enquanto ela engole os sorrisos amarelos, as lágrimas, a raiva surda e muda, o grito que ecoa no silêncio.
Alice não acorda.
Alice não sabe ainda que um lenhador é sempre um L. E. N. H. A. D. O. R. Mas Alice irá acordar um dia. Pensa ela. Espera ela.
Um dia. O seu sorriso amarelo irá transformar-se num grito já não mudo e irá romper as barreiras do socialmente esperado.
Alice pensa que um dia saberá pedir ajuda. Não terá medo dos esgares de nojo. De incompreensão. Dos gritos que irão manchar o seu silêncio.
Até lá, Alice sonha.
Que o mundo não é como ela o vê. É azul. Não é vermelho. É branco.
Alice sonha.
Enquanto lhe corrompem o seio.
Publicado por Fairy_morgaine em
07:41 AM
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Comentários (17)
março 01, 2006
Dois anos a gritar no silêncio
Hoje apercebi-me que faz dois anos que grito no silêncio.
A todos os que me lêem obrigada.
À Poesia, menina-mulher-mãe... Obrigada.
A ti amor que me inspiras... Obrigada.
Espero que daqui a muitos anos o meu silêncio ainda grite, sinónimo que o sangue rubro ainda me corre nas veias.
Deixemos então, o Silêncio gritar.
Publicado por Fairy_morgaine em
06:33 PM
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Comentários (19)
Hoje venho contar-vos que...
...a poesia é uma pena delicada que esvoaça pelo ar.
Nega-se, a maldita. E ainda assim... amo-a.
Com a força inegável do sangue que me corre pelas veias.
Ela deixa-me submersa em abismos de palavras e memórias absurdas.
Hoje lembrei-me menina. Hoje lembrei-me inocente e sonhadora. Sabia-te algures no meu caminho. Sabia-te escondido. Perdido de mim.
Hoje lembrei a poesia que escrevia há muitos anos atrás. Os meus amores e desamores. Os meus enganos.
Hoje lembrei-me de mim e escorreram lágrimas de luto pelas minhas faces pelo que fui outrora. Pelos devaneios que acalentei no coração.
Deles sobraram-me a imagem de um homem moreno e forte que me olhava lá longe, do outro lado do lago.
Ele olhava-me. Triste. Estendia-me uma mão. Duas. Mostrava-me os braços. Fortes.
E eu corria, corria para ele.
E nunca, nunca mais chegava.
Hoje tenho-te a meu lado e dos meus sonhos nada mais resta senão pós de perlimpimpim soltos no ar perfumado de primavera.
Hoje quero construir novos sonhos deitada no teu regaço.
Amor... amor... esquece o Passado, o Futuro, as linhas Temporais que se cruzam, cobre os meus lábios com os teus e enche-me da tua alma.
Hoje... quero sonhar.
Publicado por Fairy_morgaine em
06:27 PM
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