fevereiro 22, 2006
O abismo de Ana - Capítulo I parte III
10 de Janeiro de 2005 15:34
Ana escreveu no caderno negro e dourado que trazia oculto na mala enorme cheia de tralha sem sentido para os outros e carregada de sentidos para si:
"As pessoas pensam que o amor pode tudo.
Que permite esquecer.
Que permite perdoar.
Que permite esconder dos outros e de nós mesmos a verdade única e inabalável.
As pessoas pensam muitas coisas. A grande maioria prova-se errada quando confrontada com a crueza da vida.
E eu... gosto disso."
Na perspectiva de Ana, Marco é uma daquelas pessoas que crê piamente que o Amor pode tudo. Pode apagar tudo. Pode sobreviver a tudo. À falta de confiança e conteúdo. À falta de intimidade e cumplicidade. À falta de assunto. À falta dos ingredientes que constroem o núcleo da relação.
O amor é uma festa atómica dos sentidos, pensou ela. O amor é um engano das hormonas e dos afectos.
O amor, pensou Ana, é uma merda.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:16 PM
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fevereiro 08, 2006
O abismo de Ana Capítulo I parte II
01 de Janeiro de 2005 - 00:15 am
Ana olhava-se no espelho. Os olhos grandes estavam vazios de algo que ela não sabia o nome.
Ana sentia-se vazia. A razão? Apenas porque sim.
Existiam dúvidas e respostas dúbias que lhe emendavam o espírito e as náuseas da passagem de Ano. Ana sempre detestou as festividades.
Porquê? Porque sim. Qualquer razão seria só sua e logo, necessariamente (in)suficiente.
As nossas razões são-nos sempre muito chegadas. Muito nossas. Necessariamente patéticas.
Era nisso mesmo que Ana pensava quando olhava o escuro pintado de cor na janela. A janela sempre tinha sido um meio de olhar os outros. Os seus olhos eram janelas sem direcção.
Os seus olhos eram manchados de cor.
Ana deixou-se cair na cama e suspirou. Tinha de estudar para os exames da faculdade durante essa semana e não lhe apetecia.
Porquê? Seria demasiado óbvio dizer "porque sim". Porque Ana sabia que não tinha escolhido a faculdade certa. De qualquer das maneiras, ela não sabia qual a faculdade certa porque nunca a tinha cursado. As faculdades certas são aquelas que sabemos como funcionam e nos fazem sentido. Quando saímos do Ensino Secundário nenhuma faculdade é certa. Não conhecemos nenhuma.
Ana sentia-se melancólica. Gostava de poder beber até o corpo deixar de lhe doer aquela dor permanente de não saber que rumo seguir e não ter forças para o encontrar.
Ana sabia-se deprimida. E isso... não lhe importava minimamente.
Percorreu o rosto no espelho e sentiu vontade de lhe cuspir pela sua fraqueza, pela sua mediocridade gritante.
Não existe nada pior que a mediocridade.
Pelo menos não existia para Ana.
Nem para o namorado.
Seria importante para ela saber onde estaria ele, naquela noite escura pintada de cor?
Essa era uma dúvida pertinente. Válida. Fiel aos seus sentimentos.
Ainda assim, não fez qualquer gesto para lhe telefonar ou enviar mensagem. Nem mesmo um e-mail.
Tinham combinado na semana anterior que Ana ficaria com os pais (uma decisão acertada, segundo lhe tinha explicado o irmão) e que Marco iria sair com os amigos, ou comparsas, ou algo assim.
Tinham combinado... Mas não deixava de sentir raiva pelo excesso de liberdade do namorado e o excesso da sua reclusão.
Por momentos fitou a medicação que estava na mesa de cabeceira. Tomava-a há demasiado tempo para não lhe ocorrer que poderia terminar com tudo.
Com a doença que lhe consumia os nervos, com o namorado ausente, com os pais autoritários, com o irmão imaturo.
E no entanto...nunca o fazia. Gostava de pensar que era uma escolha sua continuar viva.
Que podia desafiar o mundo e a vida e a morte e continuar a acordar mais uma manhã.
Simplesmente, nem sempre via muito sentido nisso...
Porquê?
Provavelmente... porque sim.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:32 PM
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Comentários (8)
O abismo de Ana -Capítulo I parte I
01 de Janeiro de 2006 - 03:50 am
Ana jaz morta na sua cama caiada de branco imaculado.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:31 PM
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