setembro 30, 2005
Sonhos mudos
Adormeço.
Sonho com sonhos mudos,
mundos brancos e liláses
que se escondem no escuro
da minha mente e do nosso quarto.
Sonho com sonhos mudos,
crianças brancas e liláses
que se aninham no escuro
do meu coração e
da tua boca.
Sonho com sonhos mudos.
E contigo.
Mudo.
Sonho-te.
Acordo.
(sussurro-te ao ouvido
que as nossas crianças brancas e liláses
bateram à porta do nosso quarto
num espaço-tempo impossível
de definir e que agora
tudo o que resta são as pétalas
de flores que traziam nos regaços pequeninos)
O Sol que rasga a janela
é o mesmo que hoje me irá
queimar as lágrimas invisíveis na pele,
tatuar-me o sal na epiderme.
O Sol mudo.
Pergunto-me se saberás
a dimensão do espaço que os
anos que não te tinha ocupam
nas palmas das minhas mãos.
(mudos)
Mundos de possibilidades inconcretizadas
que me levaram a mergulhar
nos teus olhos castanhos,
a mergulhar e esquecer
as tatuagens que o Sol
me crava na pele.
(tatuagens)
Pergunto-me se saberás
a dimensão do rio
de acontecimentos
que depositaram o meu corpo
na nossa cama.
Pergunto-me...
(amo-te)
Publicado por Fairy_morgaine em
07:13 PM
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setembro 25, 2005
O segredo que guardas nas mãos
Descobri que as frases curtas
têm o poder de abrir
as tuas mãos.
Nelas escondes-te.
Refugias-te.
Descubri-te.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:05 PM
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setembro 20, 2005
As minhas letras (o momento da escrita)
As minhas letras
todas as letras
são meramente o conjunto
das outras letras
todas as outras letras
jamais lidas
até ao momento
da escrita.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:01 AM
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setembro 16, 2005
Um dia destes
Um dia destes roubo-te o Tempo
desfio-te as Verdades
navego-te os Silêncios.
Um dia destes
amo-te.
Publicado por Fairy_morgaine em
03:13 PM
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setembro 13, 2005
Poesia vã (ou um nada branco a atravessar-te a retina)
Estou vazia.
De palavras.
De sentidos.
De ti.
De mim.
Vazia.
Sem expressão.
Sem começo.
Sem fim.
Um imenso
nada.
Um nada
obtuso,
negro.
Um nada
branco.
Quando atravessa
a tua retina.
Quando queima
a tua alma.
Um nada
nas palavras.
Poesia vã
dentro do meu
coração.
Publicado por Fairy_morgaine em
03:32 PM
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setembro 02, 2005
Palavra
Existe uma rivalidade inerente entre a palavra e o som.
A palavra quer ser escrita mas não quer ser declamada.
Ela quer a cobertura serena do silêncio, a solidão inconfessada da leitura clandestina.
A palavra é meretriz. Dá-se sem prazer pelo favor de ser escrita, de finalmente adquirir a forma orgástica da caligrafia.
A palavra é, sem dúvida, imoral.
A palavra fode-se a si mesma. Masturba-se eternamente enquanto aguarda a violação inevitável da caneta.
A palavra odeia-se.
Sabe-se à partida imortal e isso atira-a na angústia silenciosa da falta de amor. O tempo não ama a palavra. Não lhe concedeu, jamais, o doce sabor do fim.
O medo da morte.
A felicidade para o ser precisa dos limites do terror. Precisa saber que amanhã tudo poderá ser vazio.
A felicidade vive na necessidade do vazio.
Ansiosa.
A palavra não conhece felicidade.
A palavra não se conhece.
A palavra precisa da mão do Homem.
Vive subjugada às suas vontades.
Odeia-se.
A palavra vive na esperança do apogeu da palavra última, do ponto final.
Do fim.
Irina Santos
Publicado por Fairy_morgaine em
02:28 PM
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