agosto 31, 2005
Fogo labiríntico
A rua cheira-me
a flores,
pensas tu.
A tua alberga-me
o corpo,
pensas tu.
A rua é o caminho
que me leva ao futuro,
pensas tu.
Mas eu digo-te:
a rua é um fogo
labiríntico que lambe
os meus pés.
É uma mão criminosa
que me aperta a garganta.
É um palco gasto
onde não sei actuar.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:18 PM
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agosto 28, 2005
O mundo que vive no olho
Olho o olho no espelho.
Vejo o espelho reflectido
na íris.
Na superfície da pele.
Na mão aberta e muda.
Trinco o olho
que cai, redondo, no chão.
Por ele e através dele
conheço-me.
Sei-me.
Aprendo a digerir
o mundo.
O mundo que vive
no olho.
Gasóleo imundo
que escorre em mim.
Irina Santos
Publicado por Fairy_morgaine em
02:41 PM
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agosto 23, 2005
A janela
Hoje escrevo apenas para dizer que os meus pesadelos não são como os das outras pessoas.
Eu não sonho com perseguições. Eu sonho com janelas a quebrarem-se no chão. Uma e outra vez. E outra. E mais outra. Até à loucura.
Os meus pesadelos viajam na ténue linha entre a falta de sentido e o sentido da falta.
Com isto quero dizer que sonho que engulo as minhas unhas até sufocar.
Os meus pesadelos não se resumem a contos do lobo mau para adultos.
São hinos à depressão do negrume.
Com isto quero dizer que sonho que voo embora não alto o suficiente para fugir do tempo e dele.
Os meus pesadelos não são como os teus. Ou os teus. Ou ainda os teus.
São cubos redondos.
São impossibilidade da mente se esticar mais e tocar a lua vermelha.
Com isto quero dizer que mais uma vez sonhei que abria a porta e fugia e voava e voava e voava e planava em cima da água e lembrava-me com um frio no estômago que não sei nadar.
Os meus pesadelos são tão grandes como os meus olhos.
Tão pequenos como as minhas mãos.
Tão inúteis como os meus pés quando tento voar.
(ouves a janela em queda livre? estarei ainda adormecida na minha cama lilás ao lado do teu corpo morno?)
Os meus pesadelos são como poemas engasgados no limite dos dentes, na veia que esporra o sangue rubro.
Os meus pesadelos são quecas mentais do meu cérebro (ir)racional com as leis da gravidade da psique.
(ouves a janela em queda livre? estarei ainda adormecida, numa posição bastante indecente e pouco sensual, uma perna para cada lado, uma invasão muda do teu espaço na cama lilás que é nossa?)
CRAAAASSSHHHHHH
(ouves a janela???)
(ouves?)
CRASSSSHHHHHHH
(ouves a janela em queda livre? estarei ainda adormecida na cama lilás, no nosso quarto bafiento?)
(ouves a janela?)
CRASSHHHHHHHH
(outra vez)
(rewind)
(ouves a janela?)
CRASSSHHHHHHHH
(zzzzzzzzzzz)
CRASSSSHHHHHHHH
A janela, a janela, a janela, a janela, a janela que são os meus olhos pregados por fios invisíveis ao resto do rosto de papelão.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:10 PM
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agosto 22, 2005
O riso de Deus (ou a criança violeta precisa-me)
O silêncio pesa-me.
O tempo que aprendi
a silenciar,
grita.
A urgência de um Deus
habita-me.
Preciso de sentido.
De um sentido.
Preciso do riso de Deus.
Preciso ser criança.
Uma criança embalada
no tempo silencioso.
Preciso da criança.
Violeta.
E ela...
Precisa-me.
Publicado por Fairy_morgaine em
02:19 PM
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agosto 17, 2005
Viagem para dentro I
Olhei-me no espelho... Olhei-me longamente.
Vi... estava lá.
O quê?
Publicado por Fairy_morgaine em
02:29 PM
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Desafio
Hoje vou começar um jogo convosco.
Eu escrevo uma frase e vocês terminam. Ou faço uma pergunta e vocês respondem. Ou peço algo e vocês dão.
Porquê? Seria fácil dizer apenas "porque me apetece". Mas como nunca gostei de caminhos fáceis digo... Porque gostava de vos conhecer melhor. Para além dos nicks e dos blogs.
Numa viagem para dentro.
Aceitam o desafio?
Publicado por Fairy_morgaine em
02:26 PM
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agosto 14, 2005
Corvo
És o corvo que atravessa
o corpo
e me toca no âmago.
Atravessas-me a garganta,
depositas-te no estomâgo,
revolves-me as entranhas.
Irina Santos
Publicado por Fairy_morgaine em
07:09 PM
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agosto 10, 2005
A última peça
Escrevo.
Porque me apetece.
Queria poder contar as estórias que se passam à minha volta e assim deslumbrar uma audiência de pessoas surdas. Surdos que me olham e me sentem apenas pelos trejeitos da minha boca quando contasse a estória.
No fim iriam aplaudir.
Sim, iriam.
E eu... ia-me sentir viva, pulsante, magnânime no palco e na vida.
Naquele momento o mundo inteiro não passaria de um palco cheio de pó e uma actriz desajeitada.
Por isso mesmo escrevo. Tento compensar a minha falta de jeito para a representação com palavras semi-poéticas e semi-patéticas com que iludo a audiência.
Tudo o que importa na vida é isso. A ilusão.
Deixamos de fazer sentido quando descobrimos a verdade sobre nós e sobre os outros. Deixam de nos fazer sentido.
A verdade desilude-nos sempre. Porque nada é tão perfeito como gostaríamos. A pessoa que está a nosso lado afinal não é assim tão carinhosa ou o gato que trouxemos para casa afinal rompe-nos os sofás novos de pele.
E o que importa mais? A pessoa? O gato? A desilusão?
Tu?
No jardim da vida as árvores morrem secas porque a fonte da juventude secou. No jardim da vida a inspiração cessa porque o amor, esse, gastou-se. Está velho.
Eu estou velha.
No jardim da vida os filhos que ainda não sairam do papel sorriem-nos sorrisos vazios e interrogam-se o porquê da demora. Afinal, o anjo nunca mais caíu. Ficou suspenso nas cordas finas do mestre. Preso. Triste marioneta.
Tu?
No poço da alma residem as últimas fagulhas de paixão.
A última peça a ser encenada.
Só a morte espreita ao virar da última esquina, do último beijo, o último suspiro.
A morte ainda em vida.
As novelas das 21.
O café amargo e não saboreado.
O jornal desfolhado até à exaustão.
Conhecidos sonolentos a perguntarem como estamos quando a resposta na realidade nada lhes importa.
No jardim que é a vida termina o fio que me une à sanidade.
Cai o pano e eu aplaudo freneticamente. Bis...bis!!!
A tragico-comédia do tempo é a única homenagem que podemos fazer a nós próprios (deuses caídos na terra escura...).
Publicado por Fairy_morgaine em
10:04 PM
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Obrigada
Obrigada a todos por isto.
Não que eu escreva apenas pelos comentários mas é sempre agradável saber que quem me lê resolve deixar um pedacinho de si e contactar-me de alguma maneira.
Deixo a todos um beijo enorme
PS - Não que eu me lembrasse de verificar estas listas mas ocorreu-me verificar ao ler o post do João no praça da república ;) Obrigada a ti também João ;)
Publicado por Fairy_morgaine em
03:57 PM
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agosto 05, 2005
Esquecimento
Continuo a visitar-te de forma pérfida, uma religião sufocante que me leva até ti, como que a um deus.
Preciso das tuas palavras como preciso de vida.
Preciso lê-las e sentir-te em mim, mesmo que não estejas, mesmo que estejas muito longe... Cada vez mais longe.
Sei-te perdido dentro de ti.
Continuo a visitar-te... E isso rasga-me por dentro.
Saber-me viciada nos teus retalhos é por demais doloroso...
Nego-me a brancura dos teus olhos. O azul dos teus cabelos. O negrume das tuas mãos.
Desfio-me e teço-me de novo. Desfio-me... mais e mais uma vez.
O amor não foi criado para os poetas. Foi criado para o povo. Para o ludubriar. Para fazê-lo acordar todas as manhãs convencido que talvez nessa mesma manhã pudesse finalmente encontrar o príncipe encantado dono do império da cerveja e do putedo.
E todas as manhãs acordam e vão nos autocarros a cheirar a suor e sabe-se lá mais o quê.
E tu, ainda assim, não estás em mim, nem nas tuas palavras.
Quando te leio, sei à partida que tu não és tu. Que tu já não te escreves.
Escreves apenas o que gostarias de sentir.
Mas a verdade, essa, esconde-la dentro do teu ser a apodrecer cada vez mais, a contaminar-te as íris e os pés cansados.
A verdade, disseste-me um dia, é outro engano de Deus ao povo.
Uns vivem em busca do amor e outros da verdade... mas no fim, ensinaste-me tu, tudo o que resta é o esquecimento.
Esse, amor, é fodido.
Fico a imaginar se a malta do autocarro se sente tão enojada com o suor e a mediocridade como eu.
Será que eles também temem o esquecimento?
Será por isso que querem campas horrivelmente desiguais, com flores manchadas e lágrimas frias dos que se sentem compelidos a pagar os seus pecados junto dos antepassados... será por isso?
Eu quero apenas ser cremada e ser celeremente esquecida.
Se tem de ser que seja rápido e indolor.
Fico a pensar se poderia cremar os teus poemas, as tuas palavras, os teus olhos pateticamente inteligentes.
Pateticamente grandes.
Não sabias que os homens não foram criados para terem olhos grandes? Nem mãos suaves e esguias?
Pateticamente esguias.
Trocava a Verdade e o Amor pelas tuas mãos nos meus seios.
Agora.
Sem mais palavras ou poemas inúteis.
Apenas o orgasmo de te ter e te poder foder sem pensar nas consequências e no amanhã.
O futuro.
O meu futuro não tem nada de novo dentro dele. São apenas os mesmos dias numa repetição de péssimo gosto.
Deus também está em época de contenção de despesas.
Trocava Deus e o Futuro para poder ter-te agora.
Morrer logo a seguir.
Morrer extasiada contigo dentro de mim e a promessa inconfessada que não me irias esquecer... Ficarias para sempre com os meus olhos e a minha boca
entreaberta num grito cravados na memória.
Morrer...
Como poderemos ambicionar alguma dignidade na morte se os nossos nos querem colocar naqueles cemitérios bafientos? Os cemitérios parecem-me palhaços quando choram e borram toda a maquilhagem...
Trocava toda a lucidez pela loucura de ter-te.
Engulo as tuas palavras. Tapo os buracos da tua ausência com elas.
Tapo-me.
Faz frio lá fora.
Irina Santos
Publicado por Fairy_morgaine em
03:35 PM
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agosto 02, 2005
O regresso de Irina
Descobri que parte da minha inspiração nasce de ti e isso deixa-me fodida.
Há muito tempo que não comia as letras dos teus sonhos preto e branco... e sim, isso também me deixa fodida.
Remeti-me ao silêncio de uma existência nas sombras, nas sombras da tua pele e dos teus olhos curvos. Isso deixa-me AINDA mais fodida.
Agora regresso. Ergo-me dos vales sombrios em que escondi a poesia e grito-te bem alto, rasgo-te as máscaras e sussurro... "voltei".
Irina Santos
Publicado por Fairy_morgaine em
02:59 PM
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