março 31, 2005
Roleta russa
A vida gira como uma roleta russa. Gira, gira, gira e deixa-me prostrada a teus pés, louca de amor e carências.
Sou eu, fada pequena, baixinha, sorridente, pele infinitamente branca a tocar a tua, morena, quente, suave... A tua pele, a minha pele, os nossos olhos, castanhos, profundos, imensidões de enigmas para desvendar.
És tu, grande, inabalável, a tua voz a acariciar-me o cabelo e eu perdida, perdida, uma pequena criança sentada a teu colo a implorar-te a vida e o teu sorriso e tudo o que sonhei e não tive.
Porque a vida gira, gira e tudo muda com uma velocidade estonteante e imparável.
Sou tua, deitada no teu colo, os olhos fechados, inebriada com o teu perfume a perguntar-me em que momento crucial o Universo inverteu a sua marcha para me entregar nos teus braços.
És o muro onde me amparo e deleito. És o pedaço de mim que procurei, incansável, os olhos baços, sem vida e as mãos estendidas, os lábios a repetirem a ladaínha da solidão.
O mundo girou e aqui estás tu.
"Amo-te, amo-te...", engulo-te em mim e na minha sofriguidão de sonhar e ter-te, e seres meu e ser tua, e sermos nossos e a vida a girar, a girar imparável.
Roleta russa.
Eu, caída nos teus braços e a palavra a semear-se entre nós. Amo-te...
Roleta russa.
Eu, a perguntar-te vezes sem conta sobre ti e os teus caminhos. Tu sorridente, entregue ao nosso amor. Tu a quereres dizer-me que era o teu caminho. Eu a querer lutar contra a paixão que se aninhava no calor do café escuro. Os nossos sonhos e sorrisos escondidos no bolo, na torrada, no rissol claro da Sô D. Bela.
Amor... amor... jamais jogarei na roleta russa porque tu és o fim dos meus passos, o início da nova caminhada, és o fim e o princípio de tudo e lá longe, lá não muito longe, os nossos filhos acenam-nos e sorriem-nos e dizem para corrermos para eles, enquanto a vida gira e torna a girar e eu páro sempre junto a ti.
Publicado por Fairy_morgaine em
11:57 AM
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março 21, 2005
O poeta
Finalmente consegui convencer o meu poeta favorito a deixar-me publicar algo dele.
Poderia dizer muita coisa mas simplesmente não há palavras que expliquem o que se sente quando se lê uma das pessoas que mais admiramos como escritor. Como poeta. Ou não seria ele o poeta por excelência.
Podem encontrá-lo no blog Outros dias existem muitos. Espero que sintam tanto como eu ou mais ainda porque palavras assim só mesmo quem as conhece por dentro.
Por vezes retiram-te o mundo e varrem os restos dos desaparecidos para debaixo do tapete. E há alturas em que, por acidente, nos acercamos do chão, demasiado próximos como que em confidência, e recordamos que, algures, por aí, existe quem nos recorde as marcas que tivemos outrora e que agora só ardem de quando em vez. Por tudo isso, juntamos os molhos de fotografias usadas e que não ousámos deitar fora, os lápis de cor da infância que tanto tempo desenharam; as roupas já gastas e que não se apegam mais ao corpo, como os outros que nos cercam: por fim, tudo se junta no centro da sala exangue: exorcisam-se os olhares de desejo que nos tocaram ao de leve e , depois de tudo, olhando sofrêgos pelo tapete, deparamo-nos com aquilo que já lá não está e não sabemos mais quem somos.
Sérgio Xarepe
Publicado por Fairy_morgaine em
06:40 PM
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março 19, 2005
Ícaro nos meus sonhos e de Cassiopeia
Escrevi este texto inspirada pelas palavras mágicas da Cassiopeia, aqui.
Viajei nas suas palavras, voei, voei e quando finalmente voltei ao chão tinha nascido este texto.
Devo dizer que este é um blog que encontrei recentemente e que tenho descoberto com ardor e fascínio... Quase acredito ler as minhas palavras na sensibilidade de outrém. Aconselho vivamente a todos.
Quando se perde o cabelo que já escasseia e as nódoas negras surgem num corpo que não tem porque sofrer de anemia, não se pergunta o porquê destas degenerescências: o próximo deve tomar consciência das asas de anjo que invisivelmente se alojam no dorso, porque de anjo tem de passar a ser a sua condição.
Para ele, o próximo – se é efectivamente próximo - deve bastar observar que aquele mortal, aquele intrépido Ícaro que deixou derreter as suas asas por avidez de verdade (porque na luz deve residir a verdade... afinal, Apolo é deus do Sol!), está em sofrimento. E então deve amá-lo, pois amar é a única maneira de guardar. Um ser assim tão fragilizado não está apto a expor porquês – a sua alma está balbuciante, titubeante, cada passo mais não é que a materialização do desequilíbrio.
Como podemos esperar de alguém que nos diga o que o perturba quando esse algo que o perturba é algo de tão perturbante quanto esse algo é o perturbado não se sentir amado? Não ficaria perturbado quem, perante tão estulta e escusada pergunta, recebesse tão perturbante resposta? Seria o arrogante interrogante capaz de articular uma frase decente, uma só que fosse, a quem isto lhe respondesse?
As palavras só são mágicas na poesia. Para um Ícaro, muito menos existem palavras mágicas que, ao serem proferidas, resultem mágicas. Mágico será que surja um ser alado que, solidaria e solicitamente, o tome nos braços e o eleve novamente às alturas por que tanto aspira (e às quais pertence) até estar refeito. E que, depois da convalescença, esse ser alado o acompanhe eternamente no voo.
Que não se peçam explicações, ofereça-se amor.
Enquanto subo a rua ouço as seguintes palavras que vêm do interior de uma casa: “O automóvel nunca há-de substituir o cavalo”. Não podia concordar mais.
Cassiopeia
"O automóvel nunca há-de substituir..." - o resto tornou-se num ruído ensurdecedor, deixei cair os braços enquanto olhava embasbacada para as asas queimadas de Ícaro.
Os seus olhos enormes, leitosos, brancos, completamente cegos por terem olhado a luz da Verdade.
Perguntei-lhe o que tinha visto, o que tinha ouvido, o que era a Verdade que queimava de forma irreversível a sua língua e o céu da boca e ele, louco, ria, ria, ria enquanto dançava lá fora à chuva, a chuva a lamber-lhe as asas enegrecidas e as íris brancas e cegas.
Outros dias vieram e eu via Ícaro perdido no olhar cego que o levava a mundos não meus. Pensava eu, que com o tempo, ele se habituaria à rotina calma da casa, do mundo e das pessoas.
Pensava eu, ele iria esquecer a Verdade, a tal que ele nunca me contou, nem a mim e nem a ninguém.
Às vezes, perseguia-o durante horas até chegarmos ao lago verde e ele se sentar calmamente na borda e ficar a olhar para o Céu com os seus olhos cegos de luz. Nesses momentos, podia jurar que ele murmurava coisas inaudíveis com a sua língua inexistente.
Quando regressávamos o velho mais velho que já conheci sorria-me e dizia-me: "menina não vale a pena perseguir a Verdade dos outros. a Verdade não é única. tem em si todas as cores do Universo".
Foi numa noite quente de Verão que soube que Ícaro partiria para sempre, e com ele todo o conhecimento adquirido.
Lancei-me pela porta, deitei-me a seus pés enquanto ele caminhava absorto e gritei, gritei, gritei "olha para mim. diz-me por gestos, por movimentos, diz que me sentes, que me vês, que me entendes... a minha verdade é acompanhar-te nas tardes solarengas até à beira do lago e para além disso nada me importa... eu adivinharei a Verdade nas tuas íris leitosas pela eternidade... eu irei deitar-me no teu leito, afagar-te os poucos cabelos, beijar-te a pouca porção de pele que não arde quando o Sol se põe".
Mas nem ele parou e nem os meus gritos me sairam pela garganta. Ficaram presos nos olhos.
Nessa noite, nessa mesma noite, as crianças ergueram-se das camas e vieram cantar e dançar em torno da fogueira onde o velho aquecia os ossos "hoje em dia eles estão sempre frios, enregelados seja qual for a estação" justificava ele.
Ícaro sorriu ao velho... Dançou por momentos com as crianças. Dançou e olhou o Céu e quem viu jurou por uma vida que nos seus olhos brancos raiou a luz da Verdade.
Lembro-me dele. Lembro-o queimado na fogueira, a dançar, a dançar enlouquecido, enquanto as chamas o lambiam por completo e apagavam de si todo o peso de uma caminhada de solidão.
O velho ria com a sua boca escancarada, os poucos dentes a reluzir e as crianças a gritar alto, êxtasiadas.
Para elas, era tudo uma festa imensa. um teatro.
Ícaro queimado na fogueira até à última célula.
Ícaro queimava em si toda a demanda da Verdade, a imensidão do Universo branco do Sol.
Ícaro morreu-me e com ele, os meus sonhos sepultados no verde do lago.
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em
10:21 AM
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março 17, 2005
Incapacidade de ser
A vida não é mais
que a tontura do espaço-tempo.
Deus a cair-nos nos braços.
Deus a sonhar pesadelos,
a sonhar crianças,
rios, montanhas, planetas, sóis.
Deus febril a contorcer-se na cama
por uma eternidade pegajosa.
A vida é tão só
loucura intermitente
de um universo velho e cansado,
senil.
O universo a contorcer-se
na sua incapacidade de ser.
A vida não é mais que um beijo
roubado numa noite de verão.
E por isso mesmo, é gasta,
é náusea de Deus perdido de bêbado
aninhado sobre si mesmo
a balbuciar incoerências.
Amo-a perdidamente por não ser mais
que isso mesmo.
Despretensiosa, desenganadora,
fria, áspera, tensa.
Amo-a perdidamente.
Amo até mesmo Deus, aninhado
sobre si mesmo, na náusea que antecede o vómito,
universo gasto e sofrível,
na incapacidade de ser.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:17 PM
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março 14, 2005
O eterno grito do silêncio
Quero escrever mas de novo caem lágrimas pesadas nas minhas asas que me colam no
chão, me colam às árvores e às pessoas que lentamente se afastam de mim.
Quero deixar a alma voar nas palavras ditadas pelo tempo, o tempo magro que me
leva, me empurra, me sussurra ao ouvido que a única coisa que posso fazer agora é
deixá-lo escoar e acreditar.
Se acreditar com muita, muita força, talvez amanhã o dia clareie e eu possa finalmente
descansar em paz e agarrar um bébé contra o meu peito cansado. Cantar-lhe canções
de embalar.
Ensinar-lhe tudo o que sei e aprender com ele um mundo novo de sentimentos e
espelhos que reflectem o rosto de Deus.
Deus sorri-me calmamente e murmura que tanto desespero irá calar o grito que irrompe
no meu silêncio, irá afundá-lo ainda mais na minha garganta, atirá-lo pelas minhas
artérias, corromper-me o coração.
Quero escrever, quero criar, quero envolver-me em poesia, fugir da realidade,
deleitar-me no teu amor sem sentir os quilómetros que afastam os nossos corpos e
aproximam as nossas almas.
Mas hoje não consigo. Hoje tudo o que sei e sinto é um imenso grito a romper-me a
garganta, a lançar-se egoísta no espaço, a tentar em vão alcançar-te e fazer-te
entender que a dor que me consome é ínfima perante a impossibilidade do futuro. O
futuro com que acalentei minh'alma em dias de loucura e degredo.
O futuro com que enganei minhas lágrimas, com que afaguei meu corpo cansado, com
que deitei a minha cabeça nas almofadas molhadas e cantei canções de ninar.
Esse futuro, amor, foge-me.
Esse futuro, as minhas crianças, os teus filhos, os nossos sorrisos, o meu ventre
assustadoramente grande, foge-me.
Hoje, não o consigo sequer desenhar. Não passa de uma imagem desbotada numa
qualquer composição de escola primária.
O grito irrompe pela garganta, rasga as asas da pequena fada, afasta-se cego, atira-se
na procura dele e do futuro intermitente.
Enquanto ela jaz nas margens do lago, aproxima-se um vulto que a segura e lhe
murmura ao ouvido estórias milenares, mitos, contos, frases soltas de pessoas que um dia
pisaram a terra e tiveram medo.
Não faz mal ter medo, assegura-lhe o vulto. Não faz mal ter gritos imundos a romperem o
sagrado silêncio.
Ela ergueu-se, apanhou o que restava das suas asas e partiu.
Ali nada mais restava senão a morte.
E havia ainda muita vida a conquistar, havia ainda esperança, esperança nos seus
passos e nas mãos abertas ao vento.
Amanhã, disse ela, o dia clareia mais cedo.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:47 PM
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março 09, 2005
A simplicidade da ausência
A simplicidade das palavras é um labirinto na minha mente.
Uma espada cravada no meu peito.
É a tua cabeça no meu peito.
Mil e uma pessoas entre nós a separar-nos, a puxarem-te dolorosamente para longe.
A simplicidade de um beijo é a barca onde repousam os mais inconfessáveis
segredos.
(eu aqui perdida em ti, a sonhar-te. os lábios entreabertos a sussurrar rezas antigas.)
A simplicidade de um abraço é um mar de enganos e teias que teces de volta de
mim. Enganas-me.
Enganas-te. Enganas. Ganas... Ganas de te agarrar e te forçar de alguma forma a
expelir o suspiro final que separa a verdade da mentira. O sonho da realidade.
A cor do negro. O preenchimento do vazio.
A simplicidade de ser eu enquanto tento fugir da tua respiração pesada.
("amas-me. liberta-se de cada poro teu" sorriu ele).
A simplicidade de te convencer da minha ausência da fotografia.
Fotografo-te. De novo. De novo. Click. Click...
A minha ausência.
A simplicidade da ausência.
De ti.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:09 PM
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março 03, 2005
A realidade
Um mail. Um homem. Uma conversa.
Procurou-me disse ele. Decepcionou-se com o que encontrou. Encontrou uma Sílvia disfarçada de "fada" ou uma "fada" disfarçada de Sílvia.
As duas eram uma só, eram plurais, contradiziam-se, eram erradas segundo a sua perspectiva. A sua visão.
Aproveito para avisar que o que lêem aqui sou eu. O que podem ler noutros locais também sou eu. Mas as palavras são outras, os sentimentos são outros.
Afinal, eu sou emotiva.
Conto-vos esta estória para que compreendam que procurar-me ou a qualquer outra pessoa que escreva coisas que gostam de ler é uma péssima política.
Regra geral não encontram aquilo que procuram. Nem quem procuram.
Imaginam-me. A Sílvia. A fada. A Morgaine. Eu.
Como podem calcular eu não sou como vocês imaginam. Ninguém é como nós imaginamos.
Antes que mais alguém se desiluda, peço-vos que não me procurem nem me adicionem ao MSN.
O sonho sempre foi mais bonito que a realidade.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:00 PM
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março 02, 2005
Na mão, uma rosa.
São poucas as palavras para te explicar o vazio do horizonte à nossa frente.
No sorriso da noite, existe a imensidão da tua ausência.
Para além dela, existem os fantasmas, a mágoa, a inocência rasgada.
Um dia disseram-me "já não és inocente. estás conspurcada" e eu acenei com a cabeça. Existem verdades inegáveis.
Têm a força de um Sol que mal nos ilumina a face.
Preciso de ti. Dos teus braços, da protecção dos teus lábios nos meus.
Tenho medo. Medo da possibilidade de uma vida sem ti. Medo da solidão pesada e cinzenta. Medo das verdades
inegáveis.
Hoje o rio transbordou, tantos eram os corpos a ocupar os espaços e os não-espaços.
A fada mergulhou nele, queimou as asas na frieza da água. Ninguém ouviu o grito surdo. Ninguém viu o cabelo
molhado a tapar-lhe os olhos meigos e tristes.
Na mão, uma rosa. Nos lábios uma sílabra presa jamais proferida.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:05 PM
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