fevereiro 24, 2005

A mais bela estória de amor...depois de tudo

E então, depois de tudo e antes do demais Ela escreveu:


"Preciso urgente sair. Passear, ir ao cinema. Comer pipocas. Deixar lá fora o corpo e a alma. As dores e os sonhos."

"e então? porque não vamos?"

"Porque estou presa dentro de mim".

"eu levo-te segura no meu colo, deitas a cabeça no meu peito, eu sussurro-te a estória do filme ao ouvido. sussurro-te não aquilo que lá está, nem aquilo que tu verias mas o que eu vejo. o que eu vejo também é real."

"Sim... eu queria saber tudo o que vês. Queria por um dia ver o mundo através dos teus olhos, com os teus sonhos e objectivos."

"tudo o que vejo és tu. o meu eu acaba e começa em ti e conhece o mundo no entretanto."

"Tenho medo, amor. Medo deste mundo imenso que não vejo pelos teus olhos. Medo dos dias em que durmo atirada na cama, completamente sozinha. Medo dos dias em que, perdido nos meus braços, te encolhes e finges sorrisos quando te toco."

"eu nunca finjo nada contigo..."

"Finges. Finges que não sabes da ausência que me devora por entre as noites, finges que compreendes a mágoa de ser mulher e não o puder ser, finges ter prazer em dias que não queres simplesmente que te beije. Esses dias crescem entre nós e devoram a minha alma e o meu bem estar."

"pensei que sabias que te amo. que o meu amor é tudo o que conheço e aprendi a guardar no coração."

"A única coisa que queria mesmo era ir ao cinema. Levantar-me deste quarto, desta cama, rasgar este corpo, este ventre, abandonar o útero na banheira e correr rumo à liberdade de um balde de pipocas. Dormir no teu peito."

"eu amo-te, querida."

"Eu sei... eu sei, amor."

"Levo um dvd comigo, amanhã. Levo-o e conto-te tudo, fechas os olhos e adormeces a ouvir-me contar-te a mais bela estória de amor que eu já conheci."

"Ahh... quem são os personagens principais?"

"nós".


Antes que a Lua adivinhasse as suas lágrimas, deitou-se no corpo dele, na memória dos seus beijos e adormeceu.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:08 PM | Comentários (39)

fevereiro 16, 2005

O menino e as palavras

Fico à espera do fluxo de palavras
a imensidão de possibilidades
que é a construção de uma frase,
uma estrutura, uma casa.
Uma linha condutora.

Fico à espera mas não me ocorre nada
para além de ti e do teu sorriso,
a tua imensidão de propósitos
sem sentido, apenas um destino
impresso nas mãos quedas ao longo do corpo.

Nos olhos a pergunta: "ainda me vês?".

Nas madeixas de cabelo
o fluxo das minhas palavras,
preso, aninhado,
aquecido e alimentado
artificialmente. Pela tua seiva,
o teu sangue, o teu sabor.

Nos olhos a pergunta que te afoga,
que te prende aos meus dedos,
uma criança sozinha, amargurada
presa no meu colo a perguntar-me vezes sem conta:
"vês-me? vês-me aqui? sentes-me? sentes-me?"

Fico a imaginar-te menino.
E o menino que és ainda
prende o meu fluxo de palavras e puxa-me
puxa-me, puxa-me
para ele e para o seu peito e murmura:
"não me partas. não me abandones aqui
na solidão do meu ser".

E eu não parto.
Delicio-me com o teu amor/não-amor,
as tuas negações, as tuas dúvidas,
os teus medos, as tuas brumas,
becos, abismos.

Estive sempre aqui sabes?
Aqui, contigo ao colo, preso
no meu peito, ligado ao
meu ventre a soluçares,
perdido, perdido,
menino, menino preso no fluxo das palavras.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:41 PM | Comentários (25)

fevereiro 03, 2005

E ele disse: "o amor é a mentira egoísta do universo"

O espaço.
O espaço crescente a amadurecer-me no peito e tu a murmurares: "que raios, és doida".
Sou doida, sou doida, sou doida.
Sou repetição de mim mesma.
Fotografia desbotada do teu amor que aprisionei imprimido na íris soluçante.
"Não estou zangada contigo".
Zangar-me é uma acção contrária à força implacável deste universo florescente e magnífico.

Ontem deste-me um papel amarelecido com um nome impronunciável e as minhas falas. Decorei-o. Senti-o. Fi-lo

renascer através dos meus gestos e entoações enjoadas. Decorei-me como me queres e me imaginaste, para ti. Afinal

eu não sou eu. Eu sou doida. Eu sou A Doida. Foi esse o papel que me delineaste, as mãos firmes, o cigarro no canto

da boca.

Não me escreveste. Pintaste-me. Cinges-te a minha liberdade à tua expectativa de criador embeiçado pela criação.

Abro-te as pernas, fodo contigo abruptamente. Murmuras "só disse amo-te uma vez no tempo. o amor cansa-me, o

amor é uma mentira egoísta do universo. o amor é o engano ludubriado por Deus". Sei que sim. Sei tudo, sei

demasiado sobre o meu poeta, o meu poema, o meu espaço circunspecto na tua vida.

Acordas.
Afinal, não fodo contigo. Só por palavras. Só as palavras me atiram na rigidez do teu sexo e do teu mundo virado de

pernas para o ar.

Eu sentada na cama a ver-te de pernas para o ar com um ataque de riso iminente.
-
Eu sentada no teu colo a ver-te viajares no tempo, escureceres os olhos com palavras não ditas, filhos inexistentes,

sorrisos fugidios.

Eu sentada a tecer a minha vida, num rio demasiadamente velho e previsível. Um cordão umbilical de mim para ti e

um ventre entre nós. Uma noção da falta de sentido no nosso amor que não é amor. Amor sem palavra, sem

designação, sem letras conhecidas e contornos tradicionais.

Acordo. Afinal não estou contigo.
A vida corre entre dois dias. A vida e as minhas palavras, a minha loucura espelhada nas palmas das tuas mãos.

Acabas o cigarro, acabas a introspecção, acaba-se o tempo, acaba-se sempre o tempo entre nós.

"Lamentamos a repartição fecha às 17, volte amanhã.".

Volto. Rebolo na tua cama, no teu perfume, em ti.
"Sabes, o amor é a anedota ensinada por Deus. Deturpação da natureza selvagem do Homem".
Sei?

Amanhã, previsivelmente, vou procurar o teu regaço, sentar-me no teu colo, aspirar o teu perfume, beber as tuas

palavras, engolir-te os olhos, saborear-te os lábios, tactear-te o sexo, beijar-te as mãos, mordiscar-te as orelhas,

finalmente acordar.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:55 PM | Comentários (37)