janeiro 26, 2005
Endless rain
Sou chuva na janela,
sou chuva no teu coração a afogar-te
a alma de sentidos.
Sinto um frio intenso a cobrir-me os ossos
nego a firmeza do olhar,
a intensidade dos lábios a cobrir os meus
e penso, penso, penso
com as mãos quedas no teclado
à espera da inspiração divina.
Poesia.
A eterna amante dos meus
olhos enormes.
Olhos de mundo perdido em mim.
Olhos com sorrisos presos
nas íris chuvosas.
Sou chuva. Chuva que escorre
pelo teu corpo perdido na noite.
A tua ausência é uma flor delicada
no auge da sua beleza que perfuma o meu
quarto e me lembra dolorosamente
que existes num outro mundo que não o meu.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:54 PM
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janeiro 21, 2005
Impossibilidade de ser diferente
A impossibilidade de superar tudo através da escrita sufoca-me. A escrita não me salva da desilusão de não atingir os
patamares que imponho a mim mesma.
A impossibilidade de me superar a mim mesma sufoca-me.
Como ser alguém que está para além dos limites da carne?
Para além dos limites humanos?
Queria forçar os meus pés a percorrem caminhos meus, jamais percorridos por todos os outros. Queria atirar o meu
corpo num imenso nada inexplorado e boiar, boiar nesse limbo de inexistência física e psicológica até esta dor intensa
parar de dilacerar o meu peito.
Que me importam os braços que me estreitam se eu, eu, só eu, lanço um grito na noite de frustração e desespero?
Que me importam as palavras apaziguadoras da intensa destruição que espalho na minha psique, se eu, eu que tudo
construí me sinto impelida a destruir-me e rasgar-me sem parar?
A impossibilidade de ser diferente, nascer diferente, falar diferente, sufoca-me.
Tudo o que acreditei até ao momento desmoronou-se a meus pés.
Tudo o que pensei ser um dado adquirido mudou na minha vida. Mudou, simplesmente.
Quem sou eu agora? Quem é o ser que me olha assustado, mudo do espelho?
Quem tem as respostas às minhas perguntas? Acredito ser eu e procuro, procuro, cada vez mais e mais fundo e nada.
Nada. Imenso nada. Sempre o horrível nada.
A impossibilidade de acordar amanhã num sítio diferente, mais belo, mais colorido, mais meu, sufoca-me.
Onde estás tu quando preciso de ti aqui? Onde estão os teus dedos esguios que não me limpam as lágrimas, não me
apertam contra o teu peito enquanto me apagam as palavras, os suspiros, as mágoas?
Onde estás em todos os momentos em que sufoco pelas impossibilidades inerentes a ser eu?
Neste espaço limitado que é o meu ser, a minh'alma contorce-se na angústia de ser quem sou...
Hoje mais que todos os outros dias...
Hoje fico sozinha a afogar-me na impossibilidade de ser diferente.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:37 AM
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janeiro 20, 2005
Como podem ver, consegui tirar
Como podem ver, consegui tirar alguns momentos para alterar a lista de links. Alguns removi, porque os autores os encerraram ou simplesmente porque deixaram de ser actualizados. Outros (muitos) acrescentei.
Aos que comecei a visitar à pouco tempo e não constam da lista devo dizer que só adiciono links passado algum tempo de os visitar e criar um laço mais ou menos visível com as pessoas.
Beijo a todos e leiam esses blogs. Alguns são literários e têm pérolas de leitura. Outros são de pessoas muito especiais. Todos têm um significado.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:21 PM
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Do outro lado do espelho
E quando as palavras não significam nada?
Quando procuramos uma saída perfeita
para a nossa incompreensão dos factos
que se sucedem na nossa vida
em espiral. A sempre eterna
espiral.
E quando as palavras não significam nada
para além de sílabas confusas e perdidas
na minha mente ferida.
Uma imensão solidão a crescer-me no ventre
a trespassar-me os olhos leitosos.
Tacteio as paredes suadas, mal cheirosas,
procuro os sinais, a direcção, a saída.
As palavras não significam nada.
Não trazem nada de novo.
Não abrem as portas que tu fechas.
Seguro-as na mão. Chaves inúteis
da minha psique.
Livro aberto de insegurança,
medos lodosos, monstros amestrados
a roerem-me os ossos,
sonhos desfeitos,
peles trocadas à força pela vida.
A minha voz a ecoar distorcida,
palavras ocas, velhas e novas.
Decisões jamais tomadas
mas assumidas perante ti.
Encosto-me ao espelho, ofegante, e sei,
sei dolorosamente que do outro lado
estás tu, encostado, ofegante,
perdido nos teus medos particulares, os teus
monstros, os teus ossos, o teu livro,
quase sinto a tua respiração.
Grito o teu nome, grito, grito até à loucura.
(Quebro o espelho.
Estilhaços por toda a parte.
Desespero de te querer fora de mim
e simultaneamente dentro.
Parto.)
Quando as palavras são pouco
para expressar tudo o que sentimos
no mais íntimo do nosso ser
sentamo-nos a tecer o silêncio.
O silêncio é a comunicação última.
Abraço o silêncio.
Perfumo-o.
Trago-o em mim.
És o silêncio espelhado no lago escuro
da minha mente.
Publicado por Fairy_morgaine em
04:11 PM
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janeiro 14, 2005
Amanhã quando amanhecer digo-te adeus
O dia amanheceu cinzento. Devolvi-te.
Segurei a tua mão pequenina
e dei-te ao pedaço que te perdeu.
Eras tu e não eras tu.
Tu nunca és tu dentro de ti mesmo.
Nem dentro de mim.
Tu nunca és tu.
-
Empurrei-te para dentro de ti mesmo.
Vomitei-te toda a noite
nos lençóis, na cama,
na ausência.
Quem sou eu dentro da minha solidão?
-
És a minha droga.
E eu... não te posso mais ter dentro das
minhas veias.
Deixei-te nas mãos.
Nas tuas mãos.
Nas tuas mãos quedas junto ao corpo.
Murmurei-te: "estás aqui. o teu pedaço
que te morre todos os dias. que eu renasci
todos os dias. que alimentei da minha
seiva e do meu sangue e dos meus olhos."
-
És tu sem seres tu.
Odeio-te...
E esse ódio rasga-me por dentro
rebenta-me as veias.
-
Quem sou eu dentro de mim?
Sozinha...
-
Abandonei-te... Mas de noite
estendo os braços para te abraçar
e te acariciar os cabelos suaves de criança
junto a mim.
"não me deixes aqui...aqui sozinha.
não me deixes...".
Eu não sei o que é o amor.
-
Abriste os lábios como se fosses dizer alguma coisa.
Mas não disseste.
Tu nunca dizes nada quando te abandono.
E eu deixo-te todos os dias
e volto de manhã a mim mesma.
Aqui está frio. Ainda mais frio do que estava dentro de ti.
Aqui estou sozinha.
Não posso apertar-te a mão quando me dizes
"tenho medo da solidão.
tenho medo de te destruir."
Vou-te contar um segredo,
principezinho.
Eu destrui-me a mim mesma.
Onde estás agora, principezinho,
não sei adivinhar.
Só sei que tenho a garganta apertada de lágrimas.
Porque de alguma forma estúpida
só tu me conheces.
Que merda é o amor? Sabes-me dizer?
Porque eu quis descobrir
e abri uma fenda no coração
por onde saíste tu.
"Não posso ter-te aqui" gemi eu.
E vim embora.
O mundo entrou-me pela garganta.
Mora-me no peito.
O mundo inteiro menos tu
que tive comigo demasiado tempo.
Não digas nada... porque se disseres ainda posso
trair-me e pedir-te que voltes para dentro de mim,
posso alimentar-te de novo do meu sangue.
Não digas adeus.
Nunca tive jeito para despedidas.
Eu não te amo.
Nem sei o que é o amor.
A tua criança é como um filho tenro
que tive dentro do peito e que não sei,
não sei deixar voar...
Amanhã quando amanhecer
vou preencher o teu espaço
com qualquer coisa
que ainda não encontrei.
Sinto-te a falta.
Afinal quem foi a criança dentro de quem?
Tu dentro de mim? Ou
eu dentro de ti?
Amanhã quando amanhecer
digo-te adeus.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:37 PM
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janeiro 10, 2005
A falta de tempo :/
Quero pedir desculpas a todos os que visitam este espaço visto que, infelizmente, não tenho tido tempo de o actualizar com frequência e muito menos visitar os meus blogs favoritos de todas as pessoas que eu tanto amo ler.
Como já devem calcular, estou em época de frequências/exames e enquanto esta fase não acalmar muito dificilmente conseguirei devolver as visitas que me têm feito...
Confesso que sinto muitas saudades vossas e também de escrever, por isso de vez em quando lá deixo um texto/poema aqui no meu cantinho... Prometo actualizar o grito sempre que puder mas não posso prometer visitar-vos durante alguns dias.
Apelo à vossa compreensão.
Um beijo enorme
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em
12:14 AM
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janeiro 06, 2005
O silêncio dourado ou o menino perdido dentro dela
- Lembras-te de mim pendurada no teu pescoço, como uma criança, uma criança com a infância interrompida, a olhar-te extasiada, lembras? - gemeu ela, torcida no regaço dele.
- Sim, lembro.
Ficou suspensa na respiração dele.
- Nunca me vais dizer, pois não?
- O quê? O que queres que te diga?
- Se te pedir, deixa de fazer sentido.
Encostou-se ao peito dele. Lá dentro um mundo inteiro morria e renascia a cada inspiração.
- Se eu ficasse nua a teu lado, esquartejavas-me o seio?
- Não sei. Despe-te para mim.
- Tenho medo.
- De quê?
- Das tuas mãos frias a queimarem-me a pele.
Pesado silêncio.
- Abres as janelas? Está frio aqui dentro... Está escuro. Deixa o Sol entrar.
- Gosto assim.
- Porquê?
- Porque assim os espelhos são abafados pela penumbra e não vejo os meus olhos cansados a morrerem-me todos os dias.
- Queres que me vá embora?
- Não sei.
- ...
Deitou-se ao lado dele. Talvez se não respirasse ele não a sentisse. Talvez se ficasse num silêncio dourado ele não a ouvisse e assim não o incomodasse com a sua presença.
Fechou-se num abraço mudo. Não queria que ele ouvisse o som dos gritos do menino que fora dentro do seu peito, a romperem-lhe a pele.
- Não vale a pena esconderes - murmurou ele - eu sei que ele está aí. Foi por vontade própria, deixa-o dormir em ti, alimentar-se em ti. Ele sabe-te ao seu redor e sente-se quente.
- Eu... não sei estar a teu lado. Eu não sei o que esperas. Eu não...
- Desculpa? Disseste alguma coisa?
- Não - murmurou ela.
Deixaram que o silêncio os cobrisse. Aos três. Ele, ela e o menino que vivia dentro dela.-
Publicado por Fairy_morgaine em
03:26 PM
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janeiro 05, 2005
A duas vozes
As palavras seduzem-me e eu lanço-me
no abismo que é ser poeta.
Respirar poesia.
Sentir poesia.
Sentir-te.
As palavras sussurram-me
uma imensidão de caminhos,
mapas rasgados debaixo dos meus pés.
E eu aqui, perdida em ti.
Coso-te a pele.
Corto a linha.
Afago-te.
Desapareço.
As palavras perseguem-me,
enchem-me de som a rasgar
o silêncio incómodo que é a minha vida.
E o meu respirar.
Escondo-me de mim.
Procuro o fio.
Escondo-me... Porque a realidade é amargamente
previsível.
Procuro o fio.
Sou previsíve.
O fio procura-me.
Previsivelmente a fugir de mim.
Previsivelmente...
"Já te disse que os fios de cabelo
que deixas pelo chão constroem
constelações de impossibilidades?
Já te disse que te procurei e não te encontrei?"
Eu nunca te encontro.
Procuro-me.
O silêncio é amargo e eu provo-o.
Deito-me sobre ele,
deixo que ele me penetre, me
preencha, me esqueça
de ti.
De ti que procuro.
De mim.
E nunca te encontro.
Eu nunca me encontro...
No silêncio de mim.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:12 PM
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