dezembro 24, 2004
Pudesse eu dar-te uma prenda
Pudesse eu dar-te uma prenda,
dar-te-ia meus sorrisos prateados,
meus cabelos tocados pelo luar,
meu corpo nu,
simples,
oferecido por amor,
esse amor
que me tolda os olhos,
me leva os dedos
a procurarem-te no vazio.
Pudesse eu dar-te uma prenda,
simples,
singela,
dar-te-ia meu coração
embalado em veludo,
já ferido,
semi-cicatrizado,
a pedir um beijo doce.
Pudesse eu dar-te uma prenda,
dar-te-ia meu nome,
minha morada,
meu sossego...
Pudesse eu...
e posso.
Dou-me.
Sem reservas.
Apenas eu. Coberta de luar
e prata.
Publicado por Fairy_morgaine em
01:26 PM
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dezembro 21, 2004
Desejo a todos um Feliz
Desejo a todos um Feliz Natal, seja ele feito de sentimentos religiosos ou apenas amor familiar.
Desejo-vos sapatinhos bonitos e sonhos na mesa. De todas as formas...
Vossa
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em
09:22 PM
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A noite era o sentimento
A noite era o sentimento.
A noite era tudo.
O sentimento doce de estar nos braços dele
aninhada, a sentir o perfume subtil que emanava.
"Amo-te" disse ela.
E isso fez-lhes sentido.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:21 PM
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dezembro 16, 2004
Os espaços entre nós (o filho do Homem)
No espaço que divide a minha respiração da tua
pulsa um mar intenso de questões,
sorrisos no lugar dos olhos,
olhos nos dedos,
incongruências de meses passados a tecer
o presente.
(O presente é uma caixa de pandora
que fecho a sete chaves,
compelida a encerrar dentro dele os
mistérios que escondo de ti,
os homens que passaram pela minha cama,
que mancharam os meus lençóis.)
Nesse espaço imenso que preenches com o
vapor da tua respiração quente
navega uma incerteza amarga
que nos cresce nas costas,
nos rompe a pele
e surge imponente e altiva.
Sóbria.
(Estendo-te um copo cheio de veneno.
Vejo-te lamberes os lábios,
sorrires-me confiante que as minhas mãos
jamais trairiam os teus dedos esguios,
confiante no meu sorriso
de anjo louco
bebes.
Bebes.)
A noite acaba aqui,
o nosso amor acaba aqui,
o nosso prelúdio acaba aqui
e nasce a criança de asas cinza
com olhos vermelhos e esgares de superioridade.
Ela é o filho do Homem.
Criação danada.
Ela é...
A imperfeição submissa do divino.
Amamento-a do meu peito descaído
de mãe.
Desenho-lhe os olhos vermelhos com os dedos.
Alimento-a da tua carne e do teu sangue,
deixo-a crescer inteligente e viril.
O futuro desenha-se no espaço que
o meu corpo não consegue fechar.
Sinto-a chegar perto de mim, a minha criança-filho-do-
-homem-de-olhos-vermelhos-baços.
Traz na mão a adaga da misericórdia.
Beija-me os lábios e murmura num soluço
de choro negado:
"Mãe... não podia deixar que morresses como o Pai
enganada pela inocência da criança que sou eu
e que eras tu quando ele te amava.
Não podia deixar que os teus cabelos perdessem a cor e
as tuas mãos a força, o teu ventre a fertilidade das terras e das
estrelas.
Mãe... não podia deixar que me morresses.
Tu és tudo que amo, não suporto ver-te
de cabelos brancos e pele escamada.
Mãe... mato-te agora, morre nos meus braços,
deixa o teu cabelo negro pender-me no dorso,
mãe, amo-te tanto, meu único amor abençoado,
minha deusa, minha ninfa, minha amante
não quero ver-te perdida na idade e na
loucura, na demência dos anos roubados.
Quero que morras em mim, bela, cheia,
os teus olhos leitosos a beijar os meus
uma última vez
quero guardar-te para sempre com essa cara
de anjo, os teus lábios entreabertos como que à espera
de um beijo derradeiro,
as mãos quedas junto ao corpo
como se queimassem de urgência por um falo
que entrasse em ti e te rasgasse e fecundasse
e pudesses de novo encher
a Terra de filhos bons e hábeis,
prudentes e sábios.
Quero que morras aqui mãe.
Quero saber que te ofereci a morte,
que ta dei a beber de um cálice dourado
que te banqueteaste com ela e morreste-me com
esse sorriso cintilante, mãe.
Não feches os olhos... Deixa-a vir e segura-a
pela cintura, valsa com ela pelos espaços que deixaste
entre o Pai e a tua sombra e o meu berço.
Mãe..."
O meu espírito escapa-se-lhe por entre os
suspiros,
aprisiono-a no meu abraço
e sorrio.
Morro a sorrir.
No abraço do meu filho.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:43 PM
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dezembro 14, 2004
A menina irreal
Caso-me com o som do vento a beijar
o Luar.
Estou sentada num baloiço
a ouvir-vos lá fora.
Vozes.
Vozes suaves,
sussurrantes.
Ouço o meu nome.
Vejo o meu ser
desenhado por vocês.
Apaixono-me por ela.
É bonita.
É um mar de pétalas.
É...
Irreal.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:56 PM
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dezembro 10, 2004
Natal
- Mãe conta-me uma estória.
- Hmmm... Mas tu conheces todas as estórias possíveis e imaginárias. Tu desenhas estórias no teu quarto, na parede que te reservei, com as canetas que a Avó Dulce te deu. Nunca poderia imaginar uma estória mais bela que essas.
- Então... eu conto-te uma estória. E tu fazes-me festinhas... Prometes?
- Sim, prometo.
- Era uma vez um homem que nasceu triste.
- Sem sorriso?
- Sim... sabes porquê mãe? Porque a mãe dele morreu assim que ele nasceu...
- ...M..morreu?
- Sim, mãe. Como o Tobias, o cão do Alexandre. Sabias que o Alexandre chorou muito nesse dia? O Tobias era o cão mais corajoso e mais bonito do bairro. Ia sempre buscá-lo ao autocarro e nunca deixava ninguém fazer mal aos meninos. Mãe... O Alexandre é um menino grande...mas chorou.
- Pois, Tiago mas o Alexandre perdeu um amigo querido.
- Podemos chorar quando perdemos um amigo querido?
- Sim... claro que sim.
- Então eu posso chorar quando morrer o Pai Natal? É que ele é tão velhinho... E se ele morrer antes do Natal, mãe?
- Se ele morrer antes do Natal vai visitar o Tobias...
- E deixava de existir Natal?
- Sim... Mas o Pai Natal vai existir durante muitos, muitos anos... Não precisas preocupar-te com isso.
- A Isabel, a minha namorada, diz que o Pai Natal não existe... Se calhar o Pai Natal dela morreu.
- Mas ...Tu tens uma namorada?
- Sim... Ela dá-me sempre uma bolacha no intervalo e eu levo-lhe a mochila para a sala... Mas não contes a ninguém.
- Não... é o nosso segredo.
- Achas que o Pai Natal da Isabel morreu?
- Acho que não. De certeza que no dia de Natal ele lhe vai deixar as prendinhas na mesma...
- Mãe...
- Sim?
- Lembras-te daquele menino que nos pediu hoje para lhe comprarmos aqueles pensos, será que o Pai Natal também lhe leva prendas...?
- ...
- Leva, mãe?
- ... Acho que sim...
- Eu conheço um menino que não recebe prendas...
- Se calhar porta-se mal...
- Sim deve portar-se mesmo mal. Desde que andamos na primeira classe que ele traz sempre as mesmas botas... O Pai Natal dele.. também deve ter morrido. Há 2 anos que não lhe leva prendas!
- Tiago... não achas que são horas de dormir? Vá... fecha os olhos...
- Mãe... se eu me portar mal... o Pai Natal também me vai deixar andar sempre com aquelas botas? E se me aleijarem??
- Shh... Fecha os olhinhos, Tiago... Amanhã falamos mais.
- Prometes?
- Sim filho... sim.
Publicado por Fairy_morgaine em
07:29 PM
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dezembro 06, 2004
O homem das mãos hábeis
Era uma vez, num mundo afastado do nosso e no entanto tão perto que se poderiam tocar, nesse mundo onírico que partilhamos entre todos e que uns tocam superficialmente enquanto outros mergulham de forma irreversível, uma menina pequena e suave como suaves são todas as fadas que a menina amava.
Nesse mundo a menina banhava-se todos os dias num lago de espuma prateada no preciso momento em que a lua atingia um ponto em que banhava a árvore-velha, uma árvore curva e escura onde ela deixava as asas de fada-escondida, e corria para a água, chapinhando tudo à volta.
Teria sido assim para sempre não fosse a presença inesperada de um homem perdido na floresta da menina-fada numa manhã fresca de primavera.
A menina escondeu-se nas sombras das árvores, angustiada com a presença de um homem no seu recanto. Quando o sol subiu no calor meigo do meio dia o homem desapareceu como que por magia. "Terá medo do Sol?" pensou ela.
No dia seguinte, o homem tornou a surgir por entre as árvores, o seu semblante carregado, o cabelo negro cortado muito curto. Os seus passos deixavam adivinhar uma incerteza do caminho a seguir, uma estranheza que se colava às árvores e aos sonhos da menina-fada.
Tinha as mãos irrequietas, pareciam hábeis e suaves... A menina suspirou e encostou-se a uma árvore a ouvir os passos do homem-das-mãos-hábeis.
Sorriu.
O ritual tomou forma e todas as manhãs a menina espreitava o homem das mãos-hábeis.
Até que uma manhã especialmente bonita ele se sentou no lago da menina-fada e ela timidamente aproximou-se dele.
- Já te tinha sentido por aqui - sussurrou-lhe ele. A menina sentou-se ao lado do homem e sorriu-lhe devagar. Pegou-lhe uma das mãos e murmurou...:
- Que fazes aqui, homem das mãos hábeis?
- Isso... é segredo.
- Tens muitos segredos?
- Sim.. Tenho segredos inconfessáveis que me nascem todos os dias nos olhos grandes e cansados. E tu?
- Eu? Eu sou apenas uma menina.
O homem admirou a beleza suave da menina-fada, apertou-lhe as mãos entre as dele e com os olhos subitamente escurecidos segredou-lhe:
- És...realmente bonita.
- Quem és tu? - murmurou ela...
- Isso realmente importa?
- Não... gosto que estejas aqui. Ficas aqui comigo?
- Fico.. mas só uns momentos. Só até o sol subir.
- Porquê?
- Se queres que fique tens de aprender a fazer menos perguntas.
A menina cobriu os lábios com as mãos dele.
Não diria mais nada... Nem uma palavra. Ficaria ali, imersa no silêncio do seu novo amigo, alto, de cabelo curto e mãos hábeis.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:40 PM
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dezembro 03, 2004
Quem és?
Pergunto-me quem és tu em mim.
Sonho? Visão? Uma brisa suave na manhã?
Quem és tu?
Publicado por Fairy_morgaine em
05:23 PM
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dezembro 01, 2004
Os dias da não existência
Existem dias em que acordo
com raiva.
Com
raiva.
Sem mais nada.
Só uma película transparente
que me torna os olhos macios,
leitosos, vidrados.
Os punhos cerrados, as unhas cravadas na carne
o desespero de morder os lábios
e não correr nem uma gota de sangue.
As minhas mãos a golpear o papel,
a rasgarem, a inutilizarem
as palavras.
As inúteis.
As prevertidas.
O sonho a morrer-me nas paredes.
O sonho a escorrer
no ralo da minha vida.
Existem dias que acordo
com os olhos perdidos
no mar da solidão.
A solidão que é sentir.
A solidão de nunca conseguir colar
o meu coração ao coração
dos outros.
Mostrar-lhes a alma.
Mostrar-lhes os meus
espelhos.
Espelhos da alma.
Alma nos espelhos.
Existem dias que acordo
tonta. Drogada.
Tiram-me o chão,
puxam-me o tapete.
Eu, drogada, deitada.
No chão.
Perdida.
Existem dias que adormeço
nos teus braços.
Olho para o teu rosto
pergunto-te, pergunto-te, pergunto-te.
Tu, perdido, nas minhas perguntas.
Nu nas minhas perguntas.
Drogado.
Existem dias que me dispo
corro pela casa nua.
Ou sonho que corro.
Sonho que me deixo cair
na relva fofa, verde,
perfeita.
PERFEITA.
Os teus braços verdes também.
Eu, nua nos teus braços.
Eu... nua.
Lanço as perguntas ao vento,
semeio-te de dúvidas, de filosofias
de ausências, de Deus e não-Deus.
Sonho e pesadelo.
Sonhos semeados nos olhos.
Nas mãos. Sonhos.
Irrealidades.
Risíveis.
A solidão da escrita.
A escrita a nascer da solidão.
A solidão irreal e risível.
A solidão do pesadelo.
O pesadelo da solidão.
Existem dias.
Em que acordo.
Em que adormeço.
Vivo.
Morro.
Interrogo-me.
Sinto a mente a pulsar
nas veias. Na jugular.
Existem dias...
em que não sei o que é existir.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:21 PM
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