outubro 31, 2004

O tempo não anda para trás

Toca um som distante e ela sente como se o mundo recuasse devagar, numa marcha negada pelo passar intemporal do tempo.
Sente devagar uma mão... uma mão quente, suave a subir-lhe uma saia imaginária até lhe chegar às coxas...
Sorri. Lembra-se desse dia, da sensualidade das bocas, as mãos fingindo-se ingénuas a descer na pele dele.
E uma voz... uma voz rouca. Que lhe diz para descer mais.. Para subir.
Para apagar dele as manchas de um amor perdido. Ela apagava... Os lábios molhados a procurarem os dele, famintos, a esconderem-se junto do pescoço perfumado. A evitarem o que ansiavam. Um beijo.
Um beijo para selar o que não foi. O que podia ter sido. O que já não é.
Lembra-se dele a deitá-la devagar e penetrá-a enquanto a olha nos olhos.
Sorri triste porque o dia ficou perdido no tempo. Queria ter dito tanta coisa, ter feito tanta coisa.
E agora ele vive nela como uma lembrança amarga de um dia que podia ter sido tudo o que não foi.

Segura o telemóvel... Pensa... Pensa mais... Deixa tocar o número dele. Uma vez. Duas vezes. Desliga.
O tempo não anda para trás.

Publicado por Fairy_morgaine em 06:24 PM | Comentários (31)

outubro 28, 2004

Entendes que não quero o Amor?

Entendes que o amor me entendia,
me atrofia a alma e as mãos,
me queima os poemas mesmo antes de os escrever,
me atira o corpo de todas as varandas altas e brancas
de todas as mansões possíveis e imaginárias.

Entendes que o amor é um engano
que não me apetece engolir,
é um sopro no olho,
é um quadro inacabado
e fortuito.

Entendes então que não quero o Amor?

Quero subir mais alto sozinha,
quero sorrir-te de lá de cima,
quero olhar-te cá em baixo,
quero sentir frio e tiritar sem ninguém que
me abrace.

Sim... porque isso também é viver.
Isso também é
Viver.

Entendes...?

Que não
quero
o Amor.

Não quero.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:09 PM | Comentários (25)

Rosas perfumadas

"São rosas, senhor, são rosas".
São poemas nas minhas mãos.
São pequeninos suspiros nos meus lábios.
São murmúrios de um qualquer regato perto.

"São rosas, senhor, são rosas".
São sorrisos solares.
É o meu corpo deitado na relva
a respirar devagar o aroma da manhã.

E lá longe... "são rosas, senhor..."
A voz de uma mulher,
as mãos estendidas,
as palmas brancas, o rosto suave.
E no regaço, rosas.

Rosas perfumadas.

E lá longe... "senhor... são rosas..."
A doçura, a candura, uma mulher,
um sonho, uma lenda, uma voz.
São rosas. São flores, são amores,
são desamores e crianças perdidas.
São delírios da minha mente cansada,
são tuas mãos nos meus seios,
quedas, as pálpebras fechadas
enquanto me sussurras ao ouvido...
"são rosas... amor... são rosas"

Publicado por Fairy_morgaine em 11:46 AM | Comentários (6)

outubro 27, 2004

Cemitério de sonhos

Sonhos que foram sonhos.
Sonhos que foram impossibilidades.
Impossibilidades que foram sonhos.

É o que guardo nas gavetas
do meu quarto.

O meu quarto é um cemitério de sonhos,
um cemitério que velhas vestidas de negro
com lágrimas grossas penduradas no nariz
visitam...
À noite.

De manhã sinto um cheiro perfumado.
Das flores brancas que deixaram
aos pés da minha cama
de onde pendem as carcaças de sonhos
que fui sonhando ao longo da vida.

Num sono intermitentemente drogado.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:43 AM | Comentários (7)

outubro 25, 2004

The bad colour

Trazes bagas que deixas na minha mão.
"The bad colour" murmuras a meu ouvido.
Sopras baixinho um qualquer poema.
Como uma baga sem me importar
se é venenosa, descolorida, imperfeita.
"Inspiras-me."

Vento. Uma ribeira.
Bagas no chão, emaranhadas no meu cabelo
e no teu, nas mãos,
os pés dentro de água,
os dedos entrelaçados,
as pálpebras fechadas...

Lobos que rodeiam o nosso paraíso
proibido.
"Vêm aí" sussurras-me...
"Deixa..."

Beijo-te o rosto.

Ficamos deitados, dedos entrelaçados
à espera. À espera.
Deles.

"Ouves o violino?..."

À espera.
Deles.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:13 PM | Comentários (10)

outubro 21, 2004

Greve

Mil e uma caras a preencher-me. A preencher os vazios que preciso fiquem imersos na solidão do meu corpo.
Fecham-se as portas do metro. Ouve-se aquele som característico. Olho em volta... Uns dormitam encostados ao vidro. Outros agarram as malas com força como se isso os pudesse salvar da falta de nexo do mundo.
Sobram os que se entretem a meter os dedos no nariz provocando o nojo aos que os rodeiam mas antes o nojo que a indiferença, penso eu.
Ali ao lado um corpo deitado, esventrado. Uns passam e pisam-no. Outros desviam os olhos como se soubessem que depositar o olhar no corpo morto era por si só assumir culpas... E obrigações. "Não vejo nada" - pensam eles, com o corpo a tiritar com os primeiros frios de Outono. Ou será com o medo que o corpo se levante e os acuse da sua passividade?
Da sua perversidade?
Da sua mendicidade da alma?
"Peço-vos o vosso auxílio"... ouço ao longe a voz do cego do costume. É uma cantilena que nos embala como o metro nos embala os cansaços e as mãos escondidas atrás das malas moles.
O cego tropeça no corpo mas continua, auxiliado por alguém. Ouvem-se moedas a tilintar
Alguém sente os testículos entumecerem enquanto se esfrega na mulher mais próxima. Todo o jogo de sedução se resume a esse momento de tesão mal disfarçada no metro.
Tudo o que importa são os genitais em íntimo confronto por baixo dos tecidos das roupas da moda. Das lojas da moda. Onde os cegos não pedem e os corpos não se amontoam.
Mil e umas caras a bocejar num gesto único. Pondero silenciosamente se eles também têm horas programadas para bocejar. Se será sincronizado.
Sou acometida por imagens de humanos com cristais verdes em cima das cabeças enquanto um qualquer jogador distraído arrasta o ponteiro do rato e nos manda: mijar, comer, dormir, trabalhar, mijar, comer, dormir, mijar, foder, ter um puto, dormir, trabalhar, trabalhar ainda mais, comprar uma televisão como recompensa, mijar, comer, dormir... Imagino-me com um cristal verde e um terapeuta a perguntar-me numa qualquer língua incompreensível se gi amgimonk tnirnaibuig binpons poan.
(mijar, comer, tomar banho, dormir, foder, ver televisão, mijar..)
"Estação terminal"... Acordo do meu estado letárgico pela voz monocórdica da gravação do metro. "Foda-se perdi a estação...". Arrasto-me para mudar de linha.
"He pah hoje há greve não sabias?" - diz-me uma rapariga qualquer, com uns livros quaisquer nas mãos e os pés necessariamente trocados.
"Barricaram aquela merda?"
"Não pah... Mas não há aulas..."
Passam por mim tanques de assalto e militares desesperados... "Oh Ana.. Maria... Oh colega... Mas não era suposto não estarem barricados?"
"Diz?" Já ninguém se ouve por entre o fumo... "Que merda é esta?" "Acho que é gás..."
Caminho tonta por entre as paredes brancas que encerram velhos caducos e cheios de si... "Porra... onde raios é a sala hoje - penso completamente confusa". Tropeço num corpo qualquer...
Dou-lhe um pontapé... Mas ninguém tira esta merda deste corpo da estória? Quem é que tirou este tipo do metro para a faculdade?
"He pah isso é o ministro, porra... Quem é que matou o ministro? Tamos todos fodidos...".
Agarro-me a um tipo qualquer com um aspecto um bocado duvidoso, cigarro no canto da boca e olhos vivos... "Consegues-me ouvir?" - grito. "Não muito bem... Isto tá confuso aqui dentro... Chamaram os bófias..." "Para quê?" "Hoje é greve não sabias?"
Explode uma mina dentro dos corredores, ouvem-se pessoas a correr, gritos histéricos. Tropeça-se no corpo moribundo do ministro.
Alguém agarra em livros da biblioteca e começa a fugir por entre os escombros.
"A MALTA UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA".
Outra bomba dentro da faculdade... Ouvem-se os aviões... "Fujam... Ouvi dizer que o Portas vem aí com os submarinos..."
"Com o quê?!" Ninguém se ouve, ninguém sabe bem onde está, que ala será aquela, e eu agarrada ao tipo com ar duvidoso...
"Olha - gritou-me ele - e se fossemos dar uma queca ali atrás? Com a confusão ninguém vê..."
Arrasta-me por entre a confusão. Eu só quero sair dali.
"Estação terminal" - acordo confusa no metro. Merda... adormeci de novo.
Levanto-me meia dormente e mudo de linha.
"Oi... então tás boa? Sabias que hoje há greve?"

Publicado por Fairy_morgaine em 01:00 PM | Comentários (14)

outubro 19, 2004

Previsivelmente

Sou previsível porque:

Sinto em mim todas as misérias do mundo mesmo sabendo que a culpa não poderia ser minha.
Sinto em mim todas as doenças do mundo mesmo sabendo que não posso curar.
Sinto em mim todas as lágrimas do mundo mesmo sabendo que não as fiz derramar.
Sinto em mim o peso da fome e da desgraça e por isso engasgo-me com a comida.
Sinto em mim a dor de todas as pessoas mesmo quando a minha dor me deixa espaço para tão pouco.
Sinto em mim os filhos dos outros.
Sinto em mim todas as obrigações.
Sinto que nunca faço tudo o que poderia ser feito.
Sinto que nunca dou tudo... Mesmo quando o que dou me exige mais do que poderia dar.
Sinto que sou imperfeita mesmo quando a minha perfeição nada mais poderia fazer.

Sou previsível porque:

Todos os que me conhecem minimamente sabem disso.
Todos os que me conhecem minimamente sabem que podem usá-lo contra mim.
Todos os que me conhecem minimamente me largam os seus pesos nos ombros e me deixam arrastar-me.

Magoam-me porque:

Todos sabem que me podem ferir.
E fazem-no.

Dói-me:
Não aprendo com os erros. Não sei defender-me. Não sei resguardar-me.

Sou previsivelmente errada.

Publicado por Fairy_morgaine em 03:02 PM | Comentários (17)

outubro 18, 2004

Morreste-me

Diz-me apenas... O que leva a tua mão a apertar a minha garganta?
Diz-me... O que te leva a esquartejar a pouca esperança que me resta na humanidade?
Não vês? Não vês que o meu corpo está tão fragilizado que não aguenta mais uma traição, mais uma mágoa, mais um arranque de náusea?
A tua imagem deturpada entra-me pelos olhos e torna-me cinza, atrofia-me a noção do real.
Já não sei quem és tu. Tu que pensei conhecer melhor que a mim mesma...
Tu sabes?
Diz-me apenas... O que te levou a trilhar o caminho que leva até mim no sentido contrário? Tu que sempre juraste todas as promessas que não podias cumprir.
Tenho os seios secos da seiva que todos me sugam como se eu fosse eternamente Mãe.
Mas eu sou apenas Mulher.
E sequei... Sequei... Dos meus olhos nada mais nasce que não pombas negras.
Das minhas mãos rosas murchas. Dos meus pés linhas tortas.
Da minha boca incapacidades de gritar mais alto que o silêncio.
Morreste-me.
Talvez fiques por aqui, um espectro semi-colorido. Aqui, nos meus quadros do passado.
A sorrir-me.
Escrevo no teu rosto... Escrevo as palavras que não sei dizer a quem me magoa, a quem me faz mal, a quem me rasga e me abandona...
Porquê? Porque tenho incapacidade de aprender com os erros.
Porque preciso acreditar que amanhã o Sol REALMENTE vai nascer para todos... Como dizem os mais velhos.
Morreste-me. Tu já não és tu em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:41 PM | Comentários (14)

outubro 13, 2004

Palavras que escreves para ela

Deito-me suavemente nas palavras que escreves para ela e jamais escreveste para mim.
Não quero acordá-las. Elas dormem sossegadas.
Deitada nesta cama de palavras sinto-me atravessada de espinhos. Rasgada pela inegável noção da falta de amor.
Revejo anos de sorrisos apagados, releio poemas de desespero por um amor que se cravava na minha garganta demasiado estreita para deixar passar o pesadelo que tornaste a minha vida.
Às vezes deleito-me num prazer masoquista de remoer o passado a tentar compreender o porquê de todos os (des)amores que me deixaste ter enquanto procuravas ainda os meus lábios e os meus braços como refúgio para a tua dor de estares vivo.
Era fácil. Era fácil dançares comigo até à exaustão e depois deixares-me deitada nas palavras que escreves para ela. E era ao lê-las até ao ponto de as decorar que acalmava o coração e ensinava ao espírito que quando amamos quem não nos ama estamos condenados a dançar até rasgar os pés sem que nos vejam ou sintam as lágrimas com que tecemos camas de penas que nunca vamos partilhar.
É tão fácil corromper quem nos ama.
Voltavas a mim como um dia que se repete, uma falha no espaço-tempo e sussurravas baixinho: "ama-me... cura-me... ela dilacerou-me, diz-me que sou belo, diz-me que sou bom, diz-me que me vais cobrir com o teu amor e afagar-me na escuridão da noite."
E eu arrastava os meus pés, embriagada de amor e impossibilidades.
Foram sempre os meus dedos que estagnaram as tuas hemorragias de desilusão e amargura.
Por isso não quero acordar as palavras que escreveste para ela e que me pedes que leia... "desnuda-me, lê-me, precisa-me... és o bálsamo que gosto de passar nas minhas chagas".
Disfarcei-me de sorrisos enquanto me perdia nas palavras que sei nunca escreverias para mim.
Porque ninguém ama o vulto que está sempre atrás de nós a amparar-nos a queda. A paixão é caprichosa. Só se enamora de quem nos faz tropeçar.
"eu amo-a porque não a tenho, entendes? eu não te amava mas tinha-te e isso era tão fácil, porque estavas ali e curavas-me e agora não me curas e estou perdido, estou perdido dentro de mim, resgata-me só mais uma vez".
Resgatar-te é uma missão que me engole todas as forças. Desculpa... Mas não o posso fazer.
Tenho o corpo suspenso por um fio de teia que me balança e lá em baixo só vejo vazio... Quem me resgata a mim?
Quem?...
Tu continuas ocupado com as letras com que escreves palavras que jamais escreverias para mim.
Não me ouves nem me sentes suspensa.
Eu salvei-te... e no caminho perdi-me. E ainda não me consegui encontrar.

Publicado por Fairy_morgaine em 03:47 PM | Comentários (26)

outubro 11, 2004

Aqui estou eu

Aqui estou eu.
As minhas asas rasgadas de sonhos
incumpridos.
Tenho a voz calada
presa nos braços de todos os
que não amei.
A solidão que é tão minha
surge devagarinho,
esgueira-se por entre as résteas
dos meus beijos e dos meus sorrisos
gastos, desnecessários neste novo mundo.
Onde se grita.
Onde se finge que se é muito
mais do que podemos ser.
Onde tudo o que importa é:
consumismo,
dinheiro,
intrigas,
hipocrisia,
inocências despidas.
E aqui estou eu.
As minhas mãos tateiam o espaço
circundante e tento
sentir o meu corpo como um refúgio
contra as vozes que acusam,
que julgam e condenam.
Cegaram-me os olhos,
cortaram-me a língua...
Restam-me os ouvidos
com que ouço. O teu
silêncio.
Silêncio com que deixas que
me crucifiquem sem saber ao menos
o meu nome.
Quando finalmente em mim
nada mais restar do que um sopro
de esperança hás-de escrever com
saliva e sangue:
"aqui jaz a mulher que amei,
que deixei que arrancassem de mim,
que me amamentou de luz e algodão doce
e que hoje é apenas um cadáver, uma réstea de um sonho
que não pude sonhar".

Publicado por Fairy_morgaine em 02:13 PM | Comentários (17)

outubro 09, 2004

Comentário ao post anterior

A princesinha que fabrica sonhos aqui deixou-me aqui um comentário que respira poesia...
Aqui fica para todos poderem ler:

Hoje também choveu por aqui, e o frio entrou por todos os poros abertos e por todos os rasgos de um corpo onde as cicatrizes jazem abertas...

Não ouvi o som do piano nem do violino, não pensei sequer na voz dele porque em mim apenas vive 'uma mulher rasgada de seiva que odeia deus.', em mim o som do piano e do violino adquire o som suave do bater dos critais, ora agudo, ora grave, para me lembrar que a Vida me faz sorrir e chorar, estar quente, fria e, por vezes, com medo...

Obrigada princesa dos sonhos.

Publicado por Fairy_morgaine em 01:22 PM | Comentários (1)

outubro 08, 2004

Piano na chuva

Se eu pensasse numa banda sonora para a minha vida ela seria composta por violinos e pianos melancólicos.
Quando ouço um violino penso sempre que ele chora. As notas que nascem dele não são notas mas sim lágrimas perdidas num soluço imenso, um soluço cósmico que só as cordas do violino sabem captar.
O piano é diferente. O piano é sensualidade e calor, uma lareira acesa numa noite de Inverno.
Hoje choveu por aqui. Posso jurar que na chuva brava conseguia ouvir o som requintado do piano. Como se deus tocasse piano por detrás das notas magistrais da chuva.
A chuva só existiria então para apagar um pouco o som divino do piano. Porque deus gosta de se esconder de mim nos momentos mais agudos da minha existência.
Vive em mim uma mulher mística que ama deus. Vive em mim uma mulher rasgada de seiva que odeia deus. Vive em mim uma mulher que não sabe a quem amar ou a quem odiar ou se alguém é verdadeiramente culpado pelo seu choro no dia em que nasceu.
A Natureza é cruel. Quando nascemos devíamos sorrir de contentamento, mas não. Pelo contrário choramos desesperados pelo ar que nos sufoca os pulmões. Choramos porque algo em nós sabe e pressente que amanhã o dia irá amanhecer confuso, pianos escondidos na chuva.
Deus a fugir dos nossos dedos.
Tudo o que sonho é um piano numa nuvem a tocar infinitamente. Deus escondido no piano.
Se eu pensasse numa banda sonora para a minha vida... ela teria deus a sorrir-me nas notas musicais da chuva.
Se eu pensasse na minha vida. No grosseiro correr dos dias e das desilusões. Ela seria um piano desafinado que ninguém toca há imenso tempo e que morre abandonado num sotão poeirento.
Se eu pensasse... As minhas lágrimas transformar-se-iam em notas de violino e o meu corpo transformar-se-ia em chuva.
E quando eu morresse na terra cansada amanheceria um arco-íris sorridente que desenha no céu o sorriso de deus que nunca me acariciou os cabelos quando gemia o seu nome no leito sangrento.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:16 PM | Comentários (11)

outubro 06, 2004

Agora ficou o vazio

Quando estendia as mãos no escuro era o teu corpo que abraçava em primeiro lugar.
Quando erguia os olhos marejados de lágrimas eram os teus dedos os primeiros a roçar-me o rosto.
Quando sussurrava na noite era sempre o teu cheiro que sentia.

Agora...
Ficou o vazio de uma palavra que nunca foi dita e ficou a pairar entre nós.
Que palavra é, não sei.
Talvez precisasse ser inventada, escrita, criada.
Talvez ela não tivesse qualquer sentido para além do sentido que lhe íamos dar.
Talvez ela fosse um pedaço do teu coração que ias deixar-me nas mãos quando levavas o teu corpo para longe.

Agora...
Fiquei aqui perdida dentro de mim, num eu que não conheço e por isso mesmo não te podia dar a conhecer.
Fiquei aqui sozinha. Solta no vento norte.

Quando acordava de manhã era o teu nome que pincelava no meu tecto.
Agora pincelo o meu. Sem letras.
Só lágrimas que a alma não sabe chorar.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:19 PM | Comentários (10)

outubro 01, 2004

Todos temos medo

Abri a janela. Entraram dez mil corvos dentro da minha casa, esvoaçaram ensurdecedoramente pelos quartos, cagaram na cama, sairam de novo pela janela ainda entreaberta.
Espreitei o mundo lá fora. Queria fotografar estas crianças nuas com os meus olhos vermelhos. Queria espalhar essas fotografias pelas estações de metro da cidade.
Poder rir-me com as expressões assustadas dos bons cidadãos... Expressões de quem sente os seus segredos mais podres serem expostos na praça pública.
Todos temos medo.
Medo do julgamento dos desconhecidos, dos vizinhos, dos polícias, dos padres...

Todos temos medo...

Abri-te o coração.
Entraram dez mil lagartas dentro da minha cabeça. Comeram tudo o que restava. Deixaram-me oca.
E lá fora brincam as crianças nuas.

Todos temos medo dos dedos sem cara que nos apontam nas ruas.
Todos temos medo que nos dispam e nos obriguem a dançarmos em rodas loucas à volta de uma fogueira azul.

Abri-me.
Sairam de mim biliões de traças, envenenadas com as minhas entranhas.
Todos temos medo.

Todos temos medo das crianças que gozam os colegas no pátio da escola.
Todos temos medo do sorriso desdentado do puto da sala do 4º ano.

Na rua queimam-se dicionários. Enciclopédias. Saber. Para quê o saber??? Para quê ensinar crianças desdentadas que gozam os colegas da sala ao lado?
Vamos todos ser idiotas. Vamos todos ser assumidos. Vamos todos dançar em volta da fogueira...
Vamos ser controlados. Vamos ser drogados. Vamos ser violados. Vamos ser comidos.

Abrem esgotos e inundam-nos em merda...
No púlpito ergue-se uma voz... Ouvem? Erguemos os olhos vazios e gritamos palavras de ordem.
"SIM... SIM COMAM-NOS, VIOLEM-NOS, ROUBEM-NOS, FODAM-NOS, NÃO NOS OUÇAM, NÃO, NÃO, NÃO".

Dançamos ao som dessa canção. Todos completamente embriagados em volta duma fogueira azul.
Todos temos medo.

Todos nos cagamos de medo. Da polícia. Dos padres. Das vizinhas do rés-do-chão que nos cospem na rua porque ontem chegámos às 4 da manhã em casa.
"SIM, SIM MAIS, MAIS DROGA, MAIS ALIENAÇÃO, MAIS VENTRES DESTRUÍDOS"

Vamos todos abortar políticos na berma de uma estrada qualquer. Vamos todos embalar abortos nos braços roídos do tempo e das humilhações.
Vamos todos alimentar essas boquinhas esfaimadas de poder e mentira.
"SIM, SIM, VENHAM, VENHAM, TOMEM-NOS, ENROLEM-NOS, ENGANEM-NOS... NÓS QUEREMOS, NÓS AMAMO-VOS"

Vamos todos dançar. Dançar em volta da fogueira.
Dêem-nos pedaços de prazer. Dêem-nos sexo, drogas, futebol, televisão, alienação, dêem-nos péssimo ensino, dêem-nos livros inteiros totalmente desactualizados, obriguem-nos a sabê-los até não conseguirmos dizer mais nada senão palavras de ordem, sublimem mensagens político-psicológicas nas músicas, nos filmes, nos anúncios.

"Se quer ser feliz compre... Vai ver como passará a ter mais dinheiro, como vai ter filhos bonitos, asseados, alienados".
"Olha bem para mim, para as minhas coxas, como eu sei dançar, vê como vais ouvir o meu cd a bater punhetas com as minhas letrinhas românticas na mão enquanto vês as minhas fotos de maminhas ao léu".

Vamos todos dançar.
Todos temos medo.
Todos temos medo de sermos diferentes. De sermos desprezados. De não sermos parte dessa massa que ao mover-se nos leva consigo. Sempre protegidos. Sempre quentes.
"SIM, SIM, SIM, NÓS QUEREMOS SER MAL PAGOS, NÓS QUEREMOS PAGAR ESSE TEU SORRISO BRANCO IMACULADO, SIM, SIM NÓS QUEREMOS PAGAR AS VOSSAS GUERRAS, NÓS QUEREMOS O BUSH A BABAR-SE DE ORGULHO QUANDO PENSA NA SUA TRAPAÇA PRIVADA"
"SIM, SIM, SIM"

Todos temos medo. De sermos os corvos que entram na casa. Que cagam na cama.
Nós temos medo de sermos os pombos que devoram os monumentos com a sua trampa corrosiva.
Vamos antes dançar.
Vamos antes gritar.

"MAIS, MAIS, MAIS, ATÉ À OVERDOSE DE ESTUPIDEZ. VAMOS TODOS FINGIR QUE SOMOS LICENCIADOS, QUE SOMOS LETRADOS, QUE NÃO SOMOS ENGANADOS, VAMOS SORRIR, VAMOS MENTIR, VAMOS LEVAR OS NOSSOS CARRASCOS AO COLO, VAMOS ALIMENTAR VÍUVAS-NEGRAS NO NOSSO SEIO, VAMOS DEIXÁ-LOS FODER-NOS E DEPOIS DEVORAREM-NOS... ELES QUEREM-NOS, ELES QUEREM-NOS ATÉ AO TUTANO E ISSO É TÃO BOM..."

Vê... Vê como é bom ser-se estúpido, como é fácil. Está escrito por toda a cidade, está escrito na tua testa, é-te ensinado pelos teus pais, pelos teus padres, pelos teus professores.
"És um menino bonito, toma lá um peixinho para te alimentar e agora faz mais um salto acrobático... só mais um".

Vamos ter medo até à morte.
Vamos ser xulados na morte. Vamos pagar para morrer. Vamos pagar para ser mortos nos hospitais. Vamos queimar livros, vamos endeusar a televisão, vamos fazer hinos à tesão, vamos ser nós, não vamos ser ninguém.

"meus filhos, meus queridos, meus cordeirinhos, hoje vou retirar-me do vosso púlpito mas deixo aqui fulano para vos guiar... vocês são frágeis e precisam..."

"SIM, SIM, DEIXA-LO CONNOSCO, NÓS NÃO SABEMOS ANDAR, NÓS SÓ SABEMOS DANÇAR. NÓS PRECISAMOS DE ALGUÉM PARA NOS SUGAR É ESSE O NOSSO MAIOR PRAZER."

Vamos dançar...
Todos temos medo de pensar.
Todos temos medo de ousar dizer "eu sou...".
Todos temos medo de ter medo.
Todos somos aliviados dessa dor. Todos aprendemos a viver, sentados numa sala branca a ver televisão e a babar as camisas de forças.
Todos...
Temos...
Medo.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:41 PM | Comentários (30)