setembro 30, 2004
saudades
Sinto saudades.
Sim, de ti. De ti que nunca conheci…
Compreendes isso? Essa ausência que me pesa mesmo quando sei que não podes estar porque nunca estiveste.
Pergunto-me o que pensas… O que estarás neste momento a desenhar nas telas da tua imaginação.
Será que ouves o meu voo de Fénix em redor dos teus dedos?
Arrasto os pés em mais uma das minhas viagens. Todos os meus projectos falhados pesam-me nas costas. Mesmo os que não chegaram a nascer.
Como tenho saudades… Das tuas palavras, dos teus beijos, dos teus braços em redor da minha cintura a cingir-me contra o teu peito. Das ânsias pela tua chegada que nunca aconteceu realmente.
Preciso de ti, entendes?
Preciso que me faças de novo acreditar no amor, na chegada de um amanhã mais limpo, mais belo, mais sorridente.
Preciso que inscrevas o meu nome em todas as tuas paredes, inebriado de amor e desejo…
Em noites como esta, solitária, fria, em que os meus braços me apertam num abraço desesperado penso-te também sozinho, perdido em mim e na forma que dás aos meus olhos.
Tenho saudades…
Tenho saudades de mim nos teus sonhos.
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11:07 PM
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setembro 29, 2004
Luísa parte III
O meu único amor.
Que agora está longe de mim como eu estou do meu Pai.
É esse o caminho de todo o ser feito de vento e sentimento. Partir do seu espaço para procurar um espelho novo onde se reflectir e por trás dele um eco.
Um eco que nos permite conhecermo-nos. Luísa procurou o seu caminho.
Eu procurei o meu.
Eventualmente as criações da minha criação procurarão os seus.
Talvez seja a isso que chamamos ciclo da vida.
Numa busca por respostas em que cada vez mais se tropeça em perguntas.
O conhecimento deve ser isso mesmo. Matéria para se construírem ainda mais e mais inovadoras perguntas…
Um dia queria reencontrar Luísa. Um dia queria reencontrar o meu escritor. E neles encontrar-me.
E neles reconhecer-me…
Um eco como nunca conheci.
A perfeição da matéria igual.
Por agora entretenho-me a criar novas personagens mais completas, sem lábios vaginais. E por isso mesmo mais lineares e imperfeitas…
Numa busca eterna.
Numa busca de redenção.
(fim)
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11:15 PM
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setembro 28, 2004
Luísa
A recriação é o maior pecado do escritor. A personagem (re)nasce sempre amargurada, com résteas de sentimento que nem ela entende nem eu controlo.
Ainda assim sucumbi aos cabelos carmim de Luísa e aos seus movimentos lânguidos. Atrevo-me mesmo a dizer que ela me violou repetidamente as entranhas, até que eu, exausta do orgasmo contínuo, deixei-a flutuar por entre as rachas das paredes.
A Luísa foi e é a única que toma banho comigo. É o meu amor platónico.
Os seus lábios, agora lábios - lábios labiais são de um morango perfeito. A língua macia lambe-me os mamilos ao deitar e enrola-se para dentro numa epilepsia inexplicável e porém, poética.
Criei-lhe um mundo dentro do espelho. Quero que ela tenha o seu espaço.
Quero que ela seja independente de mim.
Luísa… O meu único amor. O meu verdadeiro amor.
Criei-lhe o seu mundo próprio. Ela sorri-me de dentro do espelho sempre que os meus olhos se cravam na superfície líquida do mesmo.
Sinto-lhe a falta. Queria dormir com ela, acariciá-la noite dentro, um misto de amor maternal e sensualidade.
Minha criação.
Somos egoístas com aqueles que criamos. Queremos que eles nos sintam mais do que a todos os outros. Mas eles assumem personalidades mais cedo ou mais tarde.
Tomam controlo do incontrolável. Tomam controlo dos seus destinos. Escolhem os seus caminhos, escolhem as suas palavras.
Tomam para si palavras próprias. Muitas vezes inventam novas.
Luísa também escreve agora as suas palavras que não me mostra, num gesto que a separa inevitavelmente de mim e do mundo que era nosso e agora é apenas dela.
Ouvi a cómoda contar ao armário que ela cria personagens apenas suas.
Chorei nessa noite. Chorei porque Luísa já não é minha. Agora é dela mesma e dos seus filhos literários. Das linhas e pontos que escreve para si…
Mas não é sempre assim? Há sempre um fim para haver um (re) começo…
Eu também fui criada. O meu escritor ausentou-se há muitos anos atrás… Penso que na noite em que me olhei ao espelho e com uma náusea gemi: "esta sou eu".
Depois disso nunca mais senti os seus suspiros na minha nuca.
Deixou-me. E em mim ficou um buraco enorme… Como a boca vaginal da Luísa.
Um buraco que não sei preencher. Queria poder preencher a minha Luísa.
Fico a pensar se o meu escritor também me quis preencher a mim.
Ele deu-me tudo o que tinha. Deu-me silêncio…
Silêncio para eu preencher da forma que mais me aprouvesse. E eu tenho feito um esforço para o fazer. Às vezes torna-se impossível. Os meus silêncios são demasiados pesados.
Eu e Luísa somos da mesma matéria. Somos feitas de sentimentos e fúrias mais ou menos frequentes.
Somos palavras… Palavras pinceladas num qualquer papel em branco onde um homem à beira da loucura se debruça e semeia as suas filhas para a eternidade…
Somos vento. Suspiros.
Eu e Luísa.
(continua)
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11:58 PM
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setembro 27, 2004
Luísa
Por vezes o processo criativo exige papel.
Papel que engole as nossas palavras, a boca babosa escancarada, faminto de sangue e corpos animados.
As personagens, essas criam-se por e para si mesmas.
São egoístas. São-o talvez porque se tenham cansado de estar na sombra das minhas palavras imperfeitas. Porque elas, enquanto criação, são perfeitas. As suas falhas são meticulosamente pensadas, as suas revoltas e os seus erros.
A mão da escritora (?) é que não é muito precisa.
Às vezes pinto-lhes olhos onde deveria ser a boca e a boca nos sexos. A Luísa foi uma dessas criaturas. Tive de a fechar num armário porque os gritos dos seus lábios (lábios de boca onde deveriam ser lábios vaginais) acordaram todas as velhas e cães do bairro.
Foi uma chinfrineira como não se ouvia desde que a Rosário deixou o marido e começou a foder o gajo do talho.
Quase fui despejada por causa da gritaria da vagina (ou seria a boca?) da Luísa.
Depois desse incidente resolvi criá-los a todos mudos e de olhos violeta.
Durante algum tempo parecia ter descoberto a solução para recriar o Éden. O silêncio era um predicado apreciado por todos. Até pelos cães e velhas da vizinhança.
Não preciso dizer que não durou muito. Enlouquecidos pela aparente perfeição arrancaram os olhos e engoliram-nos numa marcha de revolta. Mesmo o da Luísa que estava no lugar da boca, lembram-se?
Fiquei de tal forma desesperada que os matei a todos. Queimei o caderno.
Sim, eu sei que é uma vergonha matar os próprios filhos. Mas Deus não faz isso connosco?!
O meu caderno ardia num êxtase de loucura.
Quase desisti de escrever, de criar fosse o que fosse.
Com o tempo senti saudades a apertar. Saudades de Luísa e o seu desespero vaginal. Ela era sem dúvida o meu pedaço mais amado e a sua perda pesava-me agora nas costas e curvava-me perante a evidência da derrota.
Foram tempos de jejum para o papel, que amareceleu raquítico.
Os dias tornaram-se mais compridos, quase intermináveis na sua lenta caminhada para a morte. É que inevitavelmente todo o poeta morre e com ele todas as palavras por escrever.
Definhei. Os meus dedos choravam pelos contonos macios de Luísa e a sua boca vaginal.
Recriei-a.
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em
10:15 PM
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setembro 26, 2004
Reflexão
Dizer "amo-te" é o mais fácil. O mais díficil é o que vem depois.
Publicado por Fairy_morgaine em
11:03 AM
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setembro 22, 2004
sem palavras
- Porque nunca dizes que me amas? Diz-me a verdade… Amas-me realmente?
- Mas duvidas??? Como podes duvidar de algo que te provo todos os dias?
- Porque não mo dizes, não mo espelhas em palavras.
- Quem disse que as palavras são a maior prova de amor que existe?
- Eu só sei sentir em palavras, eu preciso de respirar palavras. Comer palavras.
- Eu nunca fui bom com as palavras e tu sabes isso… Eu não me embrenho nessa maldita poesia que te inunda e te afasta de mim para mundos que não são meus, que não conheço e que invejo… Não compreendes? Que esse mundo teu é um segredo, um pedaço escabroso de ti que eu não consigo conhecer por muito que me esforce?
- Mas eu abri-te a minha poesia…
- Eu abomino poesia! Tu sabias isso quando aceitaste ficar comigo. A escrita repele-me, não entendo o que encontras nessa maldita que não vês em mim… Eu amo-te! Eu sou real! Eu estou aqui e sou carnal e palpável. Não sou um dos teus personagens incompletos.
- Os meus personagens são partes de mim tal como eu sou parte deles. Lamento que não consigas entender isso…
- Tu pressionas-me a dizer-te coisas que eu não te sei dizer.
- Então como posso saber que as sentes?
- Não lês no meu olhar?!
- Não sei ler olhares. Não me peças para ler olhares. Os olhares enganam, deturpam. Eu vejo sempre verde nos olhos mais escuros.
- …
- Não ergas muros de silêncio à nossa volta! Eu lutei tanto para construir este equilíbrio precário que nos envolve, não o derrubes agora com essa facilidade!
- Equilíbrio??? Tu chamas a isto equilíbrio? Daqui a pouco vais dizer que eu não sou ciumento e que isso te faz sentir desconfortável. Fico a pensar que por muito que me esforce nunca te chega.
- Mas é estranho! Eu queria que ao menos por vezes olhasses para mim com ar de quem me quer devorar com medo de me perder. Toda a gente que ama sente medo de perder alguma vez na vida.
- E isso é alguma regra universal?
- Não… Nunca disse que era.
- Esta conversa deixa-me esgotado. Estamos sempre a falar do mesmo.
- Estamos porque nunca se resolve!
- Porque eu não compreendo a tua necessidade de palavras! Eu dou-te afecto ou não…?
- Sim. Mas eu preciso de mais. Mais carinho. Mais atenção. Eu tenho medo!
- De quê? De ser feliz?
- Sim… De ser feliz. Eu não nasci para ser feliz.
- Não digas disparates…
- Não são disparates, são os meus sentimentos! Não me quero agarrar a alguém que me pode abandonar a qualquer momento!
- Eu gostava de ser como os teus amigos poetas mas não sou. Queria dizer-te aquelas palavras românticas mas não consigo.
- Queria apenas que dissesses que sentes saudades minhas. É assim tão difícil?
- Para mim é…
- Então o que fazemos juntos?
- Aprendemos a amar.
- Sem palavras?
- Sem palavras.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:43 AM
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setembro 21, 2004
Tirar o pó aos links
Mais uma vez andei a tirar o pó à lista de links. Alguns foram retirados, outros modificados e muitos foram colocados de novo. É assim também na vida. As pessoas evoluem. Algumas vão ficando pelo caminho, outras acompanham-nos em novas fases e muitas surgem de novo...
Espero que gostem das minhas escolhas... Beijos a todos.
Publicado por Fairy_morgaine em
08:33 PM
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setembro 20, 2004
multidão - café com natas parte IV
- Então como correram as aulas? - mexeu o café enquanto fitava a amiga.
- Sabes aquela solidão tremenda que se abate sempre que estás no meio de imensa gente? Eu até lhe poderia chamar o síndrome da multidão - sorriu sarcasticamente - É sempre assim que me sinto em sítios com muitas pessoas… Fico presa a imaginar os seus enganos, as suas máscaras sociais, as mentiras que contam a si mesmas e aos outros.
- Tu e as complicações. Complicas tudo, Íris! Chegas e dizes bom dia! Bolas, não é assim tão difícil.
- Bah… Experimenta fazê-lo num local hostil cheio de pessoas.
- Tu é que pensas que o local é hostil… É apenas uma sala de aula.
- São pessoas que eu não conheço e que não me conhecem e que certamente imaginam mil e uma coisas acerca de mim assim que me vêem e que provavelmente não correspondem à verdade.
- E tu não imaginas sobre elas?
- Não. Encaro as pessoas como livros abertos com os quais me posso deliciar ou simplesmente desiludir. Eu nunca crio grandes expectativas em torno de alguém.
- Porquê?
- Porque não adianta… Desiludo-me sempre que o faço. Ninguém é tão saboroso ou misterioso como tu o vais imaginar. Há sempre comportamentos que afectam a tua relação com essa pessoa.
- Estás apenas amargurada…
- Rui… Tu é que falas com toda a gente, és uma luz que brilha em qualquer escuro. Como uma estrela que ofusca qualquer um que esteja junto de ti.
- Não sabia que me vias dessa forma - fez um esgar que dificilmente podia ser confundido com um sorriso - é sempre bom ver o que a nossa tão perfeita Íris pensa dos outros.
- Eu não sou perfeita.
- Estás perto.
- Oh Rui… Poupa-me. Tu é que insistis em ver-me como alguém acima de ti quando no fundo não o sou. Eu sou tão estupidamente banal… Se soubesses como me dói a minha banalidade, a forma como tentando ser diferente sou tão igual aos outros.
- Ser igual não faz de ti alguém desprezível.
- Aos meus olhos faz. Invejo-te Rui. Queria poder ser como tu que conheces todas as pessoas e és querido por todas.
- Dificilmente se conhece todas as pessoas que se cruzam connosco… Na verdade, a única pessoa que eu conheço minimamente és tu. São estas conversas no café que nos fazem descobrirmo-nos… Os cafés com natas que te pago - riu-se.
Íris sorriu-lhe docemente, contagiada pelo bom humor do amigo. Segurou-lhe na mão e percorreu-lhe os dedos.
- Como consegues escrever palavras tão bonitas? Quando olho para os teus dedos tento lê-las aqui mas nunca consigo. E, no entanto, é daqui que elas nascem, dos teus dedos perfeitos, esguios, suaves…
Ficaram num silêncio ligeiramente incómodo mas que se impunha e tirava a vontade de ambos de o interromperem.
Às vezes é tão mais fácil rendermo-nos silêncio…
in "café com natas"
Publicado por Fairy_morgaine em
11:39 PM
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setembro 19, 2004
o mundo é tão teu
O gesto normal de procurar.
A caneta. Procurar a forma
de se expressar.
Procurar a forma.
Separou-se nos seus constituintes mínimos,
Os seus pequenos e sagrados segredos,
os seus
abismos,
Os seus
pedaços.
Esquartejou-se.
Tirou de si frases.
Poemas.
Sentires.
A sua face a escorrer
da tinta da caneta.
Ouvia respirares lá fora.
Fora de si.
Do seu corpo. Do seu
sentir.
Eram eles.
Eles.
Os outros. Os que não eram
Ela.
E não sentiam como
Ela.
Não amavam como
Ela.
Atirou-lhes um naco
da sua carne.
Sorriu…
Silenciá-los era tudo o que
desejava.
Mesmo que para isso se
servisse num banquete insano.
Continuou a escrever frases,
Poemas, sentires, sensibilidades.
Ouvia-os comerem-na.
Deu-lhes um poema para
sobremesa.
Para
alimentar as bocas
dos esfomeados.
Dos pobres esfomeados.
O mundo é dos pobres.
Dos pobres de espírito.
Dos que violam.
Dos que assassinam.
Dos que abortam crianças
nos vãos de escada.
Dos que
acreditam na impunidade do
segredo,
do silêncio protector.
da muralha do dinheiro.
O mundo é teu.
O mundo é tão teu…
Denuncia a criança que rouba o pão.
Não denuncies o homem,
o homem que lhe come as entranhas
à noite a troco de algum dinheiro.
Não denuncies…
Não apagues de ti
o que faz de ti humano.
Não apagues de ti a capacidade
de esconder.
De fingir.
Que não vês.
Que não me vês.
Que não te vês.
Que não vês crianças…a morrerem…
Indignamente.
Todos temos o direito à dignidade na morte.
Jura que não vês os pequenos corpos
nus,
comidos pelo tempo
a secarem ao sabor do vento
Conspurcados pela guerra, pelos pénis alheios
pela fome, pela vida…
PELA PUTA DA VIDA.
A humanidade meu irmão,
meu amor, meu amigo, meu leitor
é podre.
A humanidade é doença.
A humanidade alimenta no seu seio
as piores perversidades
os mais atrozes crimes.
E apaga-os com dinheiro…
Apagam-se as consciências.
És consciente?
O mundo é tão teu…
Abraça-o em ti.
Jura-me que não vês.
Que não sentes.
O meu grito que é o grito de uma
consciência ferida
pelo absurdo da sociedade.
Jura que não sentes vergonha
das imagens que consomes com
prazer sádico, com prazer voyerista.
Diz que não pensas.
Diz que não sentes.
Diz que não respiras…
Mostra-me os teus segredos.
Mostra-me que o mundo é tão teu.
Às vezes dói-me.
As dores de um mundo podre.
As dores da loucura a atingir milhões, biliões,
mundo.
Diz-me que não és humano…
Diz-me que o mundo não é teu.
Eu ainda tenho esperança em ti.
Apaga a luz.
Vamos dormir.
Vamos sonhar
sonhos de algodão doce.
Vamos devolver nos meus sonhos os sonhos
das crianças.
Vamos fingir que não vemos gerações a nascer e
a crescer no ódio de não serem nada.
Ah… o mundo é tão teu.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:21 PM
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setembro 17, 2004
as impossibilidades - café com natas parte III
- Quando te leio inspiro-me - sorriu ela.
- Penso até que te roubo palavras, sentimentos, pensares. Penso sempre em ti quando escrevo e na (im)possibilidade de um amor entre nós.
- Gosto que me leias e me desnudes - disse ele.
- Mas não estás a compreender… Eu sugo-te. Eu roubo de ti o que dás aos leitores, eu torno-me a tua única leitora, imersa em ti e nos teus recantos.
- Eu sei. Na verdade sempre soube.
- E não te sentes invadido? Violado?
Gargalhadas.
- Eu escrevo para ti…
Ela parou de mexer o café e olhou-o nos olhos.
- Para mim?
- Temos sempre um leitor favorito… ou não?
- Eu não tenho leitores… Só te tenho a ti, é a ti que quero impressionar, entendes?
- Sim… Enredei-te nas minhas teias para que sentisses dessa forma. Tomei-te nas minhas mãos como se fosses uma personagem dos meus contos e delinei-te o destino.
Ela sabia que devia sentir-se aborrecida com aquele comentário… Talvez até humilhada… Mas queria sentir-se atravessada pelas palavras dele…
Era imperativo… Ele era o seu começo e o seu fim.
- Então como está a Marta? - mudou bruscamente o tema.
- Como sempre. Numa reunião, no ginásio… Em qualquer lado.
Bebeu um trago de café… queimou a língua mas por algum motivo isso fê-la sentir-se bem.
- E a Beatriz?
- A esta hora está no colégio.
- Ah…
- Sofia… tínhamos prometido que não íamos falar das mulheres da minha vida.
- Pensei que eu fosse a mulher…
- Não - interrompeu-a - tu és a minha leitora, a minha personagem, a minha fantasia. Se passasses disso tudo perdia o encanto, entendes?
Sofia não respondeu e mergulhou em mais um dos seus silêncios demasiado reveladores.
- Eu tenho uma vida, Sofia. Uma vida estupidamente mesquinha, é um facto, mas uma vida. Construída em cima de determinados princípios.
- Diz antes aparências.
- E não é assim com todos, Sofia? Não devias ter ciúmes de ninguém. Tu és em última análise o meu amor. O amor que me faz escrever palavras para ti. Existe maior dádiva que as palavras?
- Sim… existem corpos entrelaçados, mãos suadas em cima dos meus seios… Existe isso tudo.
- Para isso tens os teus outros amores. Mais novos que eu. Mais belos que eu. Mais intensos que eu.
- Quando me masturbo é em ti que penso, Mário…
Ele sorriu e levantou-se para pagar a conta…
- Também eu, querida… Também eu…
Beijou-lhe a testa e saiu para o dia chuvoso enquanto Sofia tentava em vão aquecer as mãos na chávena de café já frio.
in "café com natas"
Publicado por Fairy_morgaine em
02:17 PM
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setembro 16, 2004
Café com natas - parte II
- Que se passa afinal contigo? Porque te negas aos outros quando tens uma necessidade ímpar de te dar?
- Sinceramente, não me quero dar a quem não sabe receber.
- Estás a ser injusta como sempre - mexeu o café lentamente enquanto remoía as palavras da amiga. Seria possível existir alguém tão amargurado? Será que era ela e não ele a ver bem o mundo lá fora?
- A tua noção de justiça, como sabes, é muito diferente da minha.
- Tu és como uma paisagem, Íris. És magnificente mas… assustas… Apagas de nós as memórias do lar. Ficamos completamente assombrados pelas construções que escondes na tua mente. E depois… partes. E deixas-nos perdidos sem saber se corremos atrás de ti ou procuramos o caminho de retorno. Apenas para descobrir que o retorno não é possível depois de te amar.
- Ninguém me ama, Rui. Ninguém me conhece. Ninguém pode amar alguém que não conhece. Amam pedaços de mim. Pedaços que pensam ser parte do todo. E podem ser apenas miragens, ilusões.
- Tu podes ser uma ilusão. És?
- Quem sou eu? Não sei. Tu sabes?
- Sim. És uma mulher que se esconde atrás da amargura. És assustada. Frágil. E tens medo de o ser.
Risos.
- Tens a certeza?
- Deixa os jogos mentais, Íris… - pegou-lhe na mão - conhecemo-nos à tanto tempo… o que me falta descobrir em ti?
- Tudo… Todo o ser humano é infinito e está sempre a sofrer infinitas mudanças… Pelo menos é o que acredito. A cada dia existem infinitas coisas novas a descobrir.
- Será esse o segredo do amor eterno? Nunca desaprender de descobrir?
- Quanto ao amor não sei. Mas é o segredo da atracção eterna. Do fascínio… Eu sou fascinada, Rui. Fascinada pelo mundo, pelos segredos que se escondem dentro dele. Somos tão pequenos, tão ínfimos e porém… tão complexos.
Risos.
- Devias ter cursado filosofia.
- Achas? A filosofia não é um curso. É uma forma de encarar os mistérios da Vida.
Rui ficou sentado a remoer as palavras da amiga enquanto esta pagava o café.
Tudo em Íris fazia um estranho sentido sendo simultaneamente caótico.
- Vens? - ouviu-a dizer à porta do café.
- Sim… Amanhã é outro dia.
- O amanhã nunca chega.
in "café com natas"
Publicado por Fairy_morgaine em
10:35 AM
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setembro 15, 2004
Monotonia
Procuro.
Uma luz.
Um sentido.
Um pedaço de sensatez no destino.
Procuro com as mãos dentro da água
suja da banheira
onde me deito, me refugio
a tremer, as mãos a cobrirem-me o ventre nu.
Murmuro poesia como uma ladainha sagrada.
Espero que ela me cubra como a água
quente e me salve de mim mesma.
Silêncio.
Vozes no silêncio.
Que exigem.
Exigem de mim uma decisão,
um ponto final numa estória arrastada demais.
Tapo os ouvidos.
Aqui ninguém me pode alcançar.
O processo de cura é solitário.
Solidão.
Silêncio.
E eu.
Nua. Na banheira.
Sem um sentido para dar
aos dias que rasgam a monotonia do destino.
Publicado por Fairy_morgaine em
12:22 AM
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setembro 08, 2004
Café com natas - parte I
- Há quanto tempo não te sentes triste?
- Duas semanas... talvez mais.
- E então?
- Consegui fazer uma vida perfeitamente normal nesse espaço de tempo e isso assusta-me mais do que tudo o resto. Sabes... a tristeza eu conheço-a, mesmo do avesso. A apatia é-me também familiar. Mas a normalidade, isso não. É totalmente descolorida...
Onde a tristeza é negra, a normalidade é inexistente. Sabes... quando a poeira assenta quero partir tudo. Quero destruir as relações e as amizades que construí tão devagar... O tempo não é antídoto para a monotonia das relações...
- Da última vez que falámos estavas apaixonada... Acreditavas no amor...
- Não sou eu que acredito ou não... O amor é que não acredita em mim... As coisas estão sempre bem. Eu estou sempre bem. Mas depois sinto nojo.
- Nojo?
- Sim, nojo... Das conversas, das aparentes caras de felicidade quando se sentem vazios e também eles ententem o quão inútil é acordar amanhã num mundo que se está a cagar para eles.
- Já pensaste que podem ser felizes?
- Já.
- E?
- É impossível foda-se... Estar feliz trezentos e sessenta e cinco dias por ano é sinónimo de ser-se estúpido.
- ...
- Para além disso se não se sentissem absurdos num mundo todo ele sem nexo não bebiam que nem uns filhos da puta - risos - As figuras tristes que fazem sempre me dão para me rir durante alguns minutos... Ajudam a passar o tempo.
- Às vezes parece-me que és um bocado hipócrita. Aparentemente gostas de estar com pessoas. E depois divertes-te com a miséria dos outros.
- Não nos divertimos todos? Não brindamos todos às desgraças dos outros? Não discutimos as suas falhas em cafés de higiene duvidosa? Se bem me lembro, não há muitos anos, o mundo inteiro parou para atentar nas fodas do Clinton. Eu dou essa ribalta até ao mais palerma que conheço. Atento nas suas fodas, nos seus erros e nas suas contradições.
- Às vezes assustas-me.
- Diz antes... às vezes assusto-me.
- ...
- Obrigada pelo silêncio. O que eu preciso não é de silêncio.
- Então precisas de quê?
- Sei lá... compreensão... alguém que me ouça e me consiga dar uma resposta minimamente coerente. Não é como os meus amigos que tresandam a álcool e a esperma retardado nas calças.
- Então porque és amiga deles???
- São os que estão perto. De qualquer das formas a maioria das pessoas de hoje é assim. Dão-lhes drogas e álcool para esquecerem os vazios que crescem dentro de si mesmos. Eles fingem esquecer. Depois atingem um ponto em que só há dois caminhos: ou morrem, os filhos da puta, ou atiram-se a vidinhas sem sentido onde andam sempre a babar-se em cima das gajas do escritório e a chorarem pelos bons tempos da juventude em que tudo era rambóia e falta de responsabilidade.
- E tu... és responsável?
- Eu não. Mas também não sou hipócrita ao ponto de dizer que sou.
- Não te compreendo.
- Deixa lá. Eu também não.
in "café com natas"
Publicado por Fairy_morgaine em
08:22 PM
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setembro 06, 2004
As palavras torneiam-me
Aqui fica um texto escrito antes das férias.
As palavras torneiam-me.
Vou ao espelho e espero ver escrito na minha testa uma palavra imensa. A escorrer sangue porque ficou tatuada na pele.
Mas vejo apenas a brancura enjoativa da minha cara. Nada mais.
Nada mais onde poderiam estar tantas coisas, tantas palavras, tantos mapas e fotografias da infância.
Olho de novo, desta vez mais demoradamente. Os olhos mais abertos. Não. Nada.
Nada.
Nada.
Nem uns lábios impressos de um último beijo furtivo na porta da tua casa.
Nada.
Todos os sorrisos me escorreram pelas mãos.
À minha volta estão lagos de lama. As sereias mortas nas margens. Inocentemente nuas. Expostas.
Nas testas delas brilham diamantes que projectam imagens do começo do Universo.
Vês?
E em mim, nada.
Afasto o cabelo do rosto. Procuro um sinal, uma seta que indique o caminho que os teus dedos percorreram quando me tocaram pela primeira vez. No contorno dos lábios encontro sílabas perdidas e famintas de pontos finais.
Lavo-me, esfrego-me freneticamente.
Sei que se procurar bem estará lá alguma palavra, escondida nas rugas que os pesadelos sulcaram na minha pele.
Nada.
Quebro o espelho. Quero esconder-me da verdade.
Quero dormir debaixo da cama onde ninguém me poderá encontrar.
Quero fugir das palavras.
Quero fugir de mim mesma.
Nada.
Pinto as paredes. Sinto que aranhas as comem enquanto durmo. Pinto-as.
Nada.
Saio para a rua, ouço as sirenes, as pessoas apressadas, as almas inchadas de arrastarem os corpos pela calçada, as bocas abertas atravessadas com gritos mudos nas gargantas.
Corro.
Corro à procura do fim do horizonte.
Crianças a pedir nos passeios. Crianças ranhosas nos passeios.
Corro.
Nada.
As aranhas que me perseguem, esfomeadas das paredes da minha casa que pintei e se tornaram intragáveis.
Atiro os pincéis para o chão. As crianças ranhosas comem os pincéis. Comem os pincéis nos passeios.
Nada.
Fujo.
O horizonte mais perto. Mais perto.
As aranhas comem as crianças.
Comem as crianças nos passeios.
Nada.
Horizonte a fugir.
Horizonte mais perto e no entanto infinitamente longe.
Tapo os ouvidos. Tapo os ouvidos. Tapo os ouvidos.
Mulheres a chorarem nos passeios.
Homens a violarem outros homens, a romper outros homens, homens a pisar outros homens, homens a comerem outros homens.
O horizonte mais perto.
O horizonte infinitamente longe.
Carros a atropelarem homens. Homens a incendiarem carros.
As aranhas ainda no meu encalço.
As pernas a quebrarem-se-me com o peso. O peso dos meus pecados. O peso dos pecados das crianças. Das mulheres. Dos homens. Dos carros.
O horizonte mais perto.
Macacos a parirem crianças. Novas crianças para alimentar as aranhas.
Macacos a conduzirem carros. A atropelarem homens.
Macacos a fugirem com o meu horizonte debaixo do braço.
Nada...
Nada...
Nem uma palavra escrita na testa.
Só a minha pele. Só a minha pele pregada no horizonte.
No horizonte preso debaixo do braço do macaco.
Deus a rir-se de nós. Deus a ver uma novela e a comer crianças.
Deus a comer macacos.
As pernas a quebrarem-se. A quebrarem-se. A quebrarem-se.
Nada...
Só o vazio a crescer. O vazio a engolir as crianças. As mulheres. Os homens, os carros, o horizonte.
O vazio a engolir deus.
O vazio.
O vazio do nada escrito na minha testa.
13-08-2004
Publicado por Fairy_morgaine em
09:45 PM
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Regresso
Olá meus amigos voltei de férias.
Vou dedicar-me a ler alguns blogs e postar algumas coisas...
Beijos a todos.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:42 PM
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