agosto 28, 2004
Fotografia
Tiro-te uma fotografia e com ela forro a parede do meu quarto.
Na alvura das paredes tenho os teus olhos
captados em vários ângulos, em vários sentimentos
que te iluminavam as íris.
Espalhados no chão estão os rolos
com que teço vestidos para me tapar.
Deixo o corpo cair na cama e mais uma vez
recito os versos que nunca te li.
Noites houveram em que adormeci a sentir-te
o respirar pausado e tentava adivinhar quem
seria a actriz principal dos teus sonhos.
Morria de inveja nesses momentos em que as tuas
pálperas repousavam sobre a pele nua dela.
Consumia os dedos em poemas para te dizer
o quanto te queria, o quanto enlouquecia com o
simples pensamento de não te ter.
Depois queimava-os.
Tiro-te uma fotografia e pincelo nela
cores bruscas com que tento esconder a figura dela
no teu olhar. Invejo-lhe as curvas, os cabelos longos,
invejo-lhe os seios que percorres todas as noites
quando semi-cerras os olhos e me negas o vislumbre
de ti. Como te amo... Como te quero negar
o meu corpo cansado e no entanto é para ti
que ele se inclina...como um flor sedenta de luz.
Tiro-te uma fotografia e ao revelá-la noto a
ausência da íris, íris que se perdeu nos contornos dela
e nunca se quedou em mim.
21-08-03
Publicado por Fairy_morgaine em 11:44 AM
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agosto 25, 2004
rouxinol
O rouxinol sempre te cantou
pendurado no ramo de uma árvore imponente,
atravessada pela seiva da vida.
Cantava-te em cada chuvada de verão
como se assim pudesse pôr fim ao medo
da morte. O rouxinol sabia-te cada centímetro,
tinha-te olhado no momento do nascimento,
conhecia-te os erros e os subtis sentimentos.
Escreveu-te numa folha verde,
pendurada no ramo mais antigo da árvore imponente
e de lá te lia sem um único vacilo.
O rouxinol sempre te cantou,
em cada minuto da tua vida desregrada.
E tu, surdo, mudo, cego, sem um único
segundo de paz, jamais lhe enviaste um olhar
de doce ternura, jamais te apaixonaste pela
sua divinal melodia.
Passaste pelos campos como pela vida,
apressado, desapaixonado, desenganado...
E o rouxinol... Esse...
Sempre te cantou.
26-04-03
Publicado por Fairy_morgaine em 05:35 PM
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agosto 22, 2004
Chuva no meu peito
Era chuva nesse dia de Verão que caia no meu peito triste
e eu vergada que estava pelo sabor do teu beijo cansado,
nem a sabia, nem a sentia, nem a saboreava.
Era chuva que via escorrer na pele do crocodilo mais próximo,
aquele que se espreguiçava indolentemente na lagoa
azul, tão azul que parecia ter sido recortada daqueles livros
que não li em criança e tanto me pesaram anos mais tarde,
na sua inusitada ausência.
Era chuva no meu peito, a escorrer-me dos seios, a pingar-me dos mamilos,
a suar-te os lábios negros com que me sugavas o leite virginal,
a pender-te nos cantos da boca sôfrega desse mamar primordial.
Era chuva, penso eu, e no meu íntimo desenho caminhos que vão dar ao teu ser
monótono e monocórdico (deito-me junto à lareira e espero ansiosamente pelo intervalo
deste filme erróneo e cheio de nós).
No fim deste encantamento melódico das gotas fartas que me empastam o cabelo
relembro o teu nome e num sopro trémulo envio-o pelos esgares do tempo
para que numa outra era, num outro mundo, uma outra realidade, outras possibilidades
ao ouvi-lo te possa saber e amar suavemente como não soube e não pude
enquanto chovia no meu peito e eu não sabia.
22-12-2003
Publicado por Fairy_morgaine em 01:58 PM
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Inéditos durante as férias
Durante as férias vou deixar aqui alguma poesia ou prosa já antigas mas que vocês nunca leram. Espero que gostem.
Publicado por Fairy_morgaine em 01:57 PM
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agosto 20, 2004
Férias
A partir de hoje começam as minhas férias durante 2 semanas.
Virei aqui deixar alguns textos mas não terei tempo de ler e comentar os blogs que costumo visitar, com muita pena minha, mas todos precisamos de descanso e férias.
Beijos a todos e até ao meu regresso.
Publicado por Fairy_morgaine em 08:08 PM
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agosto 19, 2004
Ensinas-me a escrever algo bonito?
Ensinas-me a escrever algo bonito? Um sonho, um sonho acalentado, uma carícia na pele.
Eu escrevo mágoa e princesas traídas.
Ensinas-me a escrever pedaços de poesia? Ensinas-me a ser poeta?
Nunca mais quero ler as minhas palavras. Quero transmutar-me, quero extrair palavras dos dias em que faço amor com ele.
Quero esquecer lágrimas, sons e gritos.
Quero aprender a esconder a alma em palavras bonitas que te façam sorrir.
Música. Música nos meus dedos.
Desço escadas. Subo escadas. Engulo escadas.
Chego sempre aos mesmos caminhos. Secam em mim rios de imaginação. Sou habitada por todas as personagens do mundo e não as sei parir.
Ensina-me a ignorar as ondas de tempo que me banham os pés.
Quero sepultar-me. Quero deixar orquídeas na minha sepultura.
Renascer. Quero criar rios de tinta de onde imergem sereias.
Silenciar a minha revolta e o meu medo. Morder a língua. Quero morder a língua e morrer envenenada.
Ensina-me... ensina-me a deixar de ser eu...
Por favor.. por favor.
Não me deixes aqui apenas acompanhada de mim mesma... não me deixes aqui onde me mordem e me esfaqueiam.. não me deixes aqui, não me deixes aqui...
NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!
(um corpo a cair no vazio é sempre o som mais belo para os ouvidos de todos os que se regojizam em banquetes, risos e máscaras)
Vazio...
Vazio...
Publicado por Fairy_morgaine em 10:24 PM
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agosto 18, 2004
Alguém grita por Deus e não o encontra
Silêncio cúmplice.
Vejo para além do mal que me fizeram e fazem ainda.
Ouço à noite crianças chorarem em todos os cantos do mundo, os corpos conspurcados a escorrerem esperma de adultos que as tocam, que as manipulam, que lhes sorriem com os dentes podres.
"Não digas nada à mamã... eu gosto muito de ti, sabias?".
Elas encolhem-se na cama, envergonhadas de si e dos seus corpos imaturos, aterrorizadas com as verdades dos adultos que lhes sorriem durante os dias.
Elas são os seus segredos. Os seus segredos macabros.
Elas são os seus desejos.
Eles rasgam-nas de noite com os seus pénis duros e implacáveis. Penetram-nas sem grandes remorsos. "A culpa é dela porque me abraça" pensam eles... Amam as suas crianças, pensam eles. Amam-nas e por isso querem violá-las, querem-nas fazer para sempre suas.
As crianças choram de noite, sabias? Elas não sabem como revelar os segredos que os adultos semeiam no seu ser com as suas mãos sujas e calejadas.
Eu choro de noite porque me lembro que crianças estão a chorar nesse preciso momento, encolhidas de medo e nojo. Pensam que terão feito de mal.
Crescem silêncios nos seus olhos. Escondem-se dentro de si mesmas, apagadas para sempre dos seus caminhos. Atiram com as suas bonequinhas e carrinhos contra a parede.
Elas são os seus segredos.
Os segredos que ocultam dentro das calças.
Queria esconder-me também dentro de mim mesma, sonhar sonhos de pão caseiros e mel e esquecer, esquecer que em todo o mundo crianças nascem dentro de crianças.
Queria poder esquecer que algures neste mundo alguém grita por deus...
E não o encontra.
Publicado por Fairy_morgaine em 08:09 PM
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O fim de um ciclo
Apaguei o meu outro blog o avalon. Estará on line durante 30 dias e depois será totalmente apagado.
Penso que um projecto deve existir enquanto nos dá prazer e eu já não tinha prazer em mantê-lo.
Talvez mais tarde o recontrua ali ou noutro sitio ou então resolva começar um projecto totalmente novo sozinha ou em parceria.
Beijos a todos.
Publicado por Fairy_morgaine em 04:40 PM
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agosto 17, 2004
Silêncio cúmplice
Porque a dor é a nossa forma de nos sabermos vivos.
Às vezes ouço uma voz... apenas uma. A ecoar pelos silêncios dos dias passados sozinha. Ela grita-me verdades que eu não posso negar. Nem quero.
Antes a verdade fétida que as mentiras suaves e corruptoras.
Antes tu que eu.
Antes a voz gritante que o meu silêncio cúmplice.
in "Memórias de uma Rapunzel sem asas"
Publicado por Fairy_morgaine em 11:03 PM
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agosto 16, 2004
A dor é a nossa forma de nos sabermos vivos
Pateticamente monótono.
É como por vezes percepciono o rumo da minha vida. Ela encalha em momentos estranhos mas passados e não se quer debruçar para o futuro.
O futuro não existe.
Só o presente e memórias metade vividas, metade sonhadas. Sabias que a nossa memória pode enganar-nos substituindo pedaços das nossas experiências não com factos reais mas sim com algo que tu pensas ter sucedido dessa forma? Preencher as lacunas com a tua percepção do acontecimento...
Quero pensar que a minha memória é toda ela sonhada.
Já te aconteceu teres dúvidas se realmente sonhaste algo ou simplesmente aconteceu?
To me it happens all the time.
Talvez toda a nossa vida seja um sonho. Talvez seja apenas mero exercício ilusório da nossa mente.
Então... porque dói tanto?
Porque a dor é a nossa forma de nos sabermos vivos.
in "Memórias de uma Rapunzel sem asas"
Publicado por Fairy_morgaine em 11:40 PM
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agosto 15, 2004
Pateticamente Monótono
Não merecia que a Rosário o deixasse.
As pessoas são imensamente hipócritas. É demasiado fácil copiar as suas formas retorcidas de pensar. Os seus julgamentos. Os seus sorrisos.
Os seus silêncios.
Sim... Os silêncios que habitavam a casa da Rosário. Os gemidos controlados quando faziam amor que ficaram impressos na cama e nas paredes do quarto.
Sabes o medo que eu tenho de ser como a Rosário? Como todas as Rosários deste mundo? Como esse medo me impele a rasgar-me sempre que me sinto medíocre?
Pois. São muitos esses momentos.
Mais do que eu própria gostaria.
E no entanto, sinto-os. Saboreio-os, assustada.
Copiar as Rosário deste mundo é pateticamente monótono.
in "Memórias de uma Rapunzel sem asas"
Publicado por Fairy_morgaine em 11:35 AM
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agosto 13, 2004
Don't you forget about me
Mom's sick, she say she cant get up.
My little brother is getting hungry.
I must go to the village and ask for some food, would you help me?
-Sure Connie, I'll help ya.
-I always feel good when you're with me.
-You're my friend Connie.
-Are you always gonna be there when I grow up, are you?
-Cross my heart.
Don't you forget about me, don't you forget about me.
We were soft and young, in a world of innocence.
Don't you forget about me, don't you forget all of our dreams.
Now you've gone away, only emptiness remains.
-I always feel good when you're with me.
-You're my friend Connie.
-Are you always gonna be there when I grow up, are you?
Don't you forget about me, don't you forget about me.
We were soft and young, in a world of innocence.
Don't you forget about me, don't you forget all of our dreams.
Now you've gone away, only emptiness remains.
Don't you forget about me, don't you forget about me.
Don't you forget about me, don't you forget about me.
We were soft and young, in a world of innocence.
Don't you forget about me, don't you forget all of our dreams.
Now you've gone away, only emptiness remains.
Don't you forget about me.
We were soft and young, in a world of innocence.
Don't you forget about me.
Don't you forget about me.
era "don't you forget about me", the mass
Don't you forget about me?
Podias devolver-ma?
(estende as mãos em tom de súplica)
Podias aninhar-me na capa seca
e não me deixares aqui
à mercê da chuva?
Cantas-me uma canção?
Porque te vais embora?
-You're my friend Connie.
Levas a minha inocência contigo..
ela pesa-te nas costas
eu vejo-a acenar-me.
We were soft and young, in a world of innocence.
Não me esqueças…
-You're my friend Connie.
Podias ao menos deixar-me a minha inocência?
-I always feel good when you're with me.
Já não sou importante para ti?
Então porque ainda és para mim?
Porque é que ainda te amo? Porque
te sinto como a um irmão?
-Are you always gonna be there when I grow up, are you?
Não me traias.
Não me abandones como a uma órfã.
Don't you forget about me?
Now you've gone away, only emptiness remains.
Ouves-me? Ouves-me nesse mundo de onde me expulsaste?
Now you've gone away, only emptiness remains.
Fiz alguma coisa mal? Magoei-te?
Porque partes?
Now you've gone away, only emptiness remains.
Porque posso. Porque a tua inocência é deliciosa
de se sugar. Vou-me cobrir com ela e deixar-te aqui. Não
tuens nada mais que seja de valor para mim.
És meramente uma criança. Uma
Criança.
Foi fácil ferir-te...
Foi fácil...
We were soft and young, in a world of innocence.
Now you've gone away, only emptiness remains.
Publicado por Fairy_morgaine em 12:02 AM
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agosto 12, 2004
Parte XXIV
Coitada da Rosário.
Deixou a escola cedo, trabalha numa repartição, levanta-se cedo, deita-se tarde, vê novelas, faz sexo sem prazer, finge orgasmos, finge sorrisos, finge viver.
Coitada da Rosário.
Lá está ela, curvada, toda ela silêncios e gritos espasmódicos, a negar-se, a negar a felicidade e a liberdade da mente, ela sempre foi uma pessoa fiel, sempre foi íntegra, sempre foi boa mãe (he pah mas os miúdos são umas pestes, porra), sempre foi boa telespectadora, vê novelas a Rosário, lava os filhos, lava as camisas do marido, lava a esporra do marido dos lençóis, lava a cara, lava a casa de banho, curva-se, está tão curvada, deve lavar muito.
Coitada da Rosário.
Mas dizem por aí que o marido (não fui eu que vi, contaram-me entende?) anda metido com uma sirigaita do escritório, veja lá bem, coitada da Rosário, tão boa mulher, e ele a fazer-lhe aquelas coisas, malvado do homem, então não dá valor e ela lava tanto, ela esfrega tanto, ela faz tanto e engole tanto, e silencia-se tanto, e esconde tanto…
Coitada da Rosário.
Sabe que ontem ouvi uma discussão, via-se bem que era a voz da Rosário e do marido, aquele senhor forte que anda sempre com aquela pasta na mão (é contínuo mas leva uma pasta muito jeitosa para o emprego) e a trela do cão na outra, estavam aos gritos lá em casa, acho que telefonaram para a Rosário a acusar o marido de andar com uma sirigaita do escritório…
Já não se fazem homens como antigamente.
Coitada da Rosário.
Então veja lá a Rosário está separada do marido, pareciam dar-se tão bem, eram um casal tão feliz, têm dois garotos tão engraçados (caralho dos miúdos são umas pestes, partem tudo…ainda ontem me escavacaram um vaso daqueles lindos que tenho no patamar da escada) e agora estão separados, veja lá a vizinha como a vida dá voltas, uma pessoa nunca pode dizer que está bem. Então mas oh vizinha não me tinha dito que o homem andava com uma gaja qualquer lá do escritório? Oh vizinha isso são só más-línguas, coitado do senhor, nem tem cara disso, parece tão pessoa, cá para mim a Rosário engraçou-se com alguém, essa é que é essa.
Coitado do homem. É trabalhador e tal. É boa pessoa. Não merecia que a Rosário o deixasse...
in "Memórias de Rapunzel sem asas"
Publicado por Fairy_morgaine em 05:45 PM
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agosto 11, 2004
O projecto
Os textos que tenho vindo a postar fazem todos parte de um mesmo "projecto", têm uma continuidade. No entanto, como existem outras coisas que vos quero mostrar vou dar-lhes um nome comum para que possam entender a ligação entre eles e simultaneamente postar poemas ou outras coisas diferentes e fora dessa linha de continuidade.
A partir de agora vou numerá-los também. O projecto tem o nome temporário de "Memórias de Rapunzel sem asas". Bem haja a todos.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:33 PM
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Rosário
E se eu morresse?
Ias amar outra como me amas a mim? Ias tocá-la e ansiá-la como me anseias a mim?
Deixo as perguntas brotarem-me dos lábios, inseguranças, necessidades, abrigos do meu amor desmedido e sem fronteiras.
Prometes-me que não, que jamais a tua vida seria a mesma sem o meu riso fácil, os meus jogos mentais perigosos.
A sedução que se nos cola na pele.
Estranha e estupidamente dou por mim a acreditar nas tuas palavras. As palavras são armadilhas da e para a mente.
Elas seguram-nos as impetuosidades, amarram-nos as inseguranças.
Acredito em ti. Porque sei que és um homem que só ama uma vez. E porque tenho a certeza que esse amor sou eu.
Ainda assim, e pensando bem, todos os homens amam apenas uma vez. Há sempre um amor que cresce nos olhos e se propaga na alma.
Esse é o único e verdadeiro amor. Todos os outros são vãs tentativas de reproduzir a intensidade e imagem desse amor.
As pessoas sentem quando o amor não é o Amor. E mesmo sem confessarem a si mesmas a sua alma continua ansiosamente à espera do outro pedaço que se perdeu algures por alturas da Criação e anda, também ele, esfomeado da presença da outra.
Assim, entregam as suas mãos enquanto os seus olhos continuam vazios. Cheios de nada para dar.
Dão-se ao mesmo tempo que se negam e se refugiam dentro de insinuações dolorosas da mente que, implacável, grita verdades ao eu consciente.
As pessoas afogam esses gritos em silêncios de indiferença e pudor.
Anos mais tarde surgem gritos por todo o lado. Erguem-se das suas sepulturas precoces, e colam-se às paredes das casas e dos corações das pessoas.
Rebentam as canalizações e as veias. Chegam mesmo a ameaçar o equilíbrio físico e mental da casa, e dos seus donos.
As casas também têm uma mente, sabes?
É uma mente conjunta, resultante da fusão das mentes do casal, dos filhos, das visitas habituais. A casa também respira, também pulsa e quando é esvaziada para mudança também ela deprime e sente saudades dos beijos e silêncios dos seus ocupantes.
Pode-se calcular a idade de uma casa pelas rachas nas paredes. As pessoas dizem que é do desgaste, mas eu digo que são rugas. As casas sofrem com o sofrimento dos donos, dos corpos que a alimentam de felicidades e infelicidades.
Os gritos rasgam as casas. Rasgam as pessoas.
Alojam-se nas costas e curvam a coluna até que a pessoa parece doente e agastada. Os vizinhos murmuram está tão velha a Rosário, nem parece a mesma coitada, deve andar a trabalhar de mais, o marido também não a ajuda, os garotos são duas pestes.
Coitada da Rosário.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:24 PM
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Desculpas
Peço desculpas a todos por esta ausência inesperada...
Tive a fazer umas modificações de hardware no meu pc (ferramenta essencial de trabalho) e por isso mesmo não pude postar. Mas falo-ei hoje, sem falta, mais logo.
Um beijo do tamanho do mundo a todos que me lêem e sentem a minha falta. Nem sabem o quanto significam para mim os vossos pedidos para que poste novamente.
Bem haja e boas férias a quem as está a gozar.
Publicado por Fairy_morgaine em 10:30 AM
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agosto 05, 2004
E se eu morresse?
Eu sou o teu templo.
A tua musa, uma deusa em forma humana que desceu e te tocou.
Quando mo dizes rio às gargalhadas porque é absurdo imaginar-me tão grandiosa e impossível.
Afinal, amor, eu sou tua. Uma deusa não é de ninguém. É dos crentes e dos descrentes, dos oradores e dos não oradores. Uma deusa é do universo.
Eu sou apenas uma mulher que cruzou o teu caminho e te desfaleceu nos braços, cansada, ofegante, perdida nos sentidos da vida. E tu fascinaste-te com as minhas diferenças. Os meus diferentes eus dentro do eu.
Estou-te a conhecer ainda e vou estar para sempre, lamentas-te tu. Por muito que te ame e te perscrute há sempre mais e mais além.
É assim com todas, digo eu. Cada pessoa é uma imensidão de possibilidades e nuances.
E se eu morresse, se eu me prostrasse caída, se me rendesse ao infortúnio e ao passar dos dias monótonos? E se eu morresse?
Publicado por Fairy_morgaine em 08:52 PM
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agosto 03, 2004
Eu sou o teu templo
Estás sempre preso na linha do meu prazer.
Embora saiba que estás preso por outras redes a mim. Imperceptíveis e porém, inegáveis.
Demasiado presentes para poderem ser ignoradas.
É assim a força do amor, dizem uns. É assim a força de algo que nasce da confiança, dizem outros. É assim a força do sentimento que surge da ausência de se sentir algo mais, garantem-me.
Mas eu sei que não é assim. O teu corpo, a tua alma, os teus pedaços, só eu os conheci. Só eu sei as formas subtis que os teus pensamentos tomam, os sulcos que os teus sentimentos formam.
Só eu te sei.
E porque te sei, entendo que estás dependente de mim e da minha voz, como um sedento de água, fustigado por anos de solidão e impaciências.
Afinal, tu mesmo o disseste, foste toda a tua vida um fantasma dentro de ti. Uma sombra daquilo que poderias ser.
Mero ocaso do sol. Um rei sem reinado. Um monge sem templo.
Eu sou o teu templo.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:36 PM
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agosto 02, 2004
Estás sempre preso na linha do meu prazer
E eu dou.
Dou-me por completo, deixo-te brincar com a minha pele, descobrir a minha sexualidade e sensualidade.
Entrego-me como se fosse uma boneca mimada que pudesses explorar até à exaustão.
Finjo para mim mesma que não adoro esse jogo de sedução e negação que só nós sabemos jogar.
Finjo-me aborrecida com os teus avanços, com a tua curiosidade, refilo, repreendo-te sorridente, embevecida com a fome que nunca te consigo saciar.
E eu, resmungas, que culpa tenho de querer fazer amor contigo sempre e para sempre?
Rio, deliciada. Eu sei. Eu sei que sou o teu vício, o teu ópio.
Dou-te um pouco mais. Semicerro os olhos. Concentro-me na tua respiração. Desconcentro-me por causa da minha.
Estou perdida, penso eu, estou rendida às tuas mãos e às tuas perversões deliciosas.
Rendo-te o meu corpo e imploro-te silenciosamente que apagues dele as manchas das mãos que o tocaram sem o amar. Sem tão só o conhecerem.
Extasio-me com o mero pensamento que o teu corpo é meu, apenas meu, que só os meus lábios e as minhas mãos o tornearam.
É-me impossível fingir durante mais tempo que não estou completamente ciente das tuas mãos, dos teus lábios, refugio-me em gemidos, contorço-me a cada toque, a cada ousadia implícita das tuas mãos.
Diz-me, imploro-te, diz-me que és meu, diz-me que te faço sentir o que nenhuma outra fez, diz-me que me queres e me desejas, arqueio o corpo para que me atravesses.
Não ouço a tua resposta, afogo-a nos meus gemidos, na terna movimentação das nossas energias. Na suavidade do teu sexo e dos teus lábios presos nos meus.
É demasiado explícito nos meus olhos fechados, nos meus lábios entreabertos, no frenético movimento do meu corpo, a explosão de prazer e sentimentos que é fazer amor contigo.
Amo-te, murmuro. Cobres-me os lábios com os teus. Gemes contra eles…
Seguro-te com força enquanto mergulho no orgasmo. Ouço-te na iminente explosão do teu. Sorrio imperceptivelmente.
Estás sempre preso na linha do meu prazer.
Publicado por Fairy_morgaine em 06:33 PM
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agosto 01, 2004
Dádiva
Existem momentos da vida que ficam cravados nas nossas cordas vocais.
Deles restam-nos incríveis tremores nas pálpebras e um ligeiro quebrar de voz nos esgares de riso da ironia do destino.
O cheiro do hospital atravessa-nos as veias, arranca-nos da nossa vivência normal, atinge-nos as narinas e larga-nos em rápidos ataques de pânico.
Tão rápidos quanto inesquecíveis.
Somos todos crianças perante a força e a implacabilidade do medo.
Afinal, o medo é o nosso único pecado, a perdição da nossa individualidade.
Mas eu quero dormir contigo, interrompes-me a linha de raciocínio, uma voz de menino mimado, um beicinho a surgir por entre os teus lábios suculentos, eu prometo apagar de ti toda a recordação dolorosa. Não consigo dormir sem ti, não descanso, acordo, caminho pela casa, sento-me nas escadas, olho para o horizonte, imagino que vais chegar, que estás a meu lado, perdida e frágil. Quero abraçar-te quando acordo assustado a pensar que me abandonaste aqui.
Beijo-te, apaixonada pela tua impaciência, as exigências desmedidas do teu amor incondicional.
Dás-me tudo e imploras tudo de volta.
E eu dou.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:57 PM
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