julho 31, 2004
Existem momentos da vida que ficam cravados nas nossas cordas vocais
…estava a ESTILHAÇAR-ME!
Conheces o som da tua alma a quebrar-se em pedaços?
Mais tarde quando lá voltei vi, ainda, marcas da implosão da minh'alma gravadas no chão.
Tu não estavas lá. Mas por outro lado, ninguém estava.
As visitas são um mundo à parte no mecanismo do hospital.
São sorrisos que vestes por rotina.
Ainda me lembro que a minha avó me sorria a dizer a quão boa cara eu tinha. Tinha mesmo.
A doença não me roeu a cara.
Roeu-me o ventre.
Mas eu sorri-lhe.
Eu sorrio sempre à minha avó. Bastam-lhe os anos de tormentas e gritos para dentro do coração.
Depois disso ela foi embora e eu encolhi-me, tão pequenina, tão infinitamente pequenina.
Diz quem se lembra, que a minha voz soava igual a quando eu tinha 10 anos.
Não duvido.
Existem momentos da vida que ficam cravados nas nossas cordas vocais.
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01:01 PM
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julho 30, 2004
Ler é um vício que
Ler é um vício que educa a alma.
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03:14 PM
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julho 29, 2004
estava a ESTILHAÇAR-ME!
Por isso se ouvem nitidamente os seus silêncios a gritar.
O da mulher ao meu lado era tão ensurdecedor que me encolhia de noite na cama, com medo da sua fúria.
Tinha medo que ele me arrancasse e me arrastasse pelos cabelos pelos corredores e escadas do hospital.
Isabel Allende diz no seu livro "Paula" que no hospital nunca é de noite. Eu discordo. No hospital é sempre de noite. É um sítio onde o sol nunca entra. O sol assusta-se com a palidez dos rostos cansados.
O hospital fede a medo.
Medo da morte, medo da vida e do sofrimento.
Medo da dor.
Eu também tinha medo da dor.
Ficou-me gravada na memória a minha histeria às 5 da manhã sentada num banco de madeira a chorar ao telemóvel a gemer que não queria mais, não aguentava mais, queria ir para casa, estava a estilhaçar-me, estava a ESTILHAÇAR-ME!
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09:38 PM
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julho 28, 2004
Ouvem-se nitidamente os seus silêncios a gritar
E eles esventram.
Não que eu me esteja a queixar, entendes?
Um hospital é sempre parecido com um hospício. Não que estejamos propriamente afectados da cabeça, mas sim porque os pensamentos das pessoas que se arrastam pelos corredores, chocam connosco quando nos tentamos deitar na cama.
Eles ocupam todo o espaço.
São enormes, duros. São buracos negros de tristeza e solidão.
Remoem-se as vidas, os destinos, as escolhas, as maleitas. Remoem-se impossibilidades.
Tudo na vida que não é experimentado, que não é ousado, não o é simplesmente pela sua impossibilidade. As pessoas vivem para a experiência, para tocarem. Se não tocam é porque algo as impede. É porque esse acontecimento era de alguma forma incompatível com outras escolhas e ia deixar a nu a relatividade dos sentimentos.
As pessoas convivem mal com as contradições. Contornam-nas, apagam-nas, ignoram-nas. Para elas, tudo na vida tem a sua coerência. Mesmo o absurdo.
Por isso se ouvem nitidamente os seus silêncios a gritar.
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08:06 PM
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julho 26, 2004
...e eles esventram
A doença, murmuras incrédulo. Mas a loucura é doença, é palpável, é intimidadora.
É um facto.
Mas não. A loucura é um destino que se nega aos cobardes.
Sabes que na loucura navegam rasgos de compreensão geniais? As pessoas enlouquecem ainda mais com a estúpida clarividência, a extraordinária simplicidade da teia da vida.
Eu falo da corrosão do corpo, que verga a alma.
A tenra humilhação do nosso corpo nu, as mãos que nos tocam e nos interrogam. E sim, a dor é intensa e alojou-se no nosso corpo.
Posso tocá-la, posso penetrá-la, posso esventrá-la, posso rasgá-la, perguntam eles com aquela voz monocórdica, aquela voz profissional, aquela voz que nos atravessa como se fossemos meras marionetas.
Sim, e a minha voz não passa de um fio de voz muito ao longe, muito distante, noutra dimensão. Onde eu estou só eu acedo, onde eu estou só eu reino, murmuro palavras de ladainhas que não conheço, não sei, invento na hora.
Sim, esventrem-me, eu deixo, eu deixo tudo, eu sou um mero cordeiro perante a minha própria ignorância e inabilidade para me curar.
E eles esventram.
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02:43 PM
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julho 23, 2004
Dormir desassossegada é o destino de todas as crianças que não conhecem o desapego da infância feliz
Os lençóis não têm o nosso cheiro.
É por isso que me mexo na cama, a pele a suar, os olhos a retorcerem-se num sono privado de descanso e visitas de Pã.
Porém, na tua cama és igual - dizes-me tu num tom reprovador - nunca vi quem tanto se mexesse e remexesse na cama… Agarro-te, toco-te, acalmo-te, faço-te festas no cabelo, mas gemes, amor, gemes de noite e eu não consigo dormir, preso no teu desassossego. Tenho medo dessas noites, do teu rosto sereno que de repente se contorce num esgar de infelicidade momentâneo. Fico horas a imaginar os teus sonhos, quem te persegue, quem te tortura sem piedade.
Encolho os ombros. Dormir desassossegada é o destino de todas as crianças que não conhecem o desapego da infância feliz.
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05:48 PM
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julho 22, 2004
Os lençóis não têm o nosso cheiro
Humana.
É uma triste condição, a meu ver.
E porém… inevitável. Imprevisível, também.
Como a tudo o que é imposto, sinto raiva de ser e permanecer humana.
Procuro em mim uma característica, uma única característica que me prove que sou única, inimitável.
Regra geral, falho.
Tudo no mundo está semi-feito, semi-concebido, semi-preparado, semi-parido.
Os pensamentos que tenho como meus, já alguém os pensou, os provou, os moldou, os comeu.
É por isso que ao pensar tenho a estranha sensação de estranheza que todos temos ao deitarmo-nos numa cama que não é nossa.
Os lençóis não têm o nosso cheiro.
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08:27 PM
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julho 21, 2004
Humana
Todos temos um pedaço secreto.
Eu invejo o teu pedaço secreto.
Queria poder ao menos vislumbrá-lo, tocar-lhe de forma egoísta e depravada.
Os amantes são assim, invejosos e ciumentos dos lugares do outro a que não podem aceder.
Eu não sou excepção.
É esse infinito que me escondes e me negas que eu mais amo, mais anseio e suspiro.
É na busca incessante por esse mundo mágico ao qual não tenho acesso que encontro alimento para o contínuo fascínio que sinto por ti.
Afinal, os humanos são seres complicados.
Mais uma vez… eu não sou excepção. Sou inegavelmente humana.
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11:07 PM
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julho 20, 2004
Todos temos um pedaço secreto
É quando me sinto vazia que surge lugar para as palavras, para a escrita, para o perfume extasiante da poesia.
Em todos os outros momentos estou demasiado preenchida de imagens, sons, cheiros, pessoas, silêncios e prazeres.
Eu sei que não compreendes, por muito que te esforces, a intensidade da entrega.
Não é algo que se descreva, que se consiga captar pelo simples suspirar no teu pescoço.
Ainda assim, és tu que eu amo, a quem abro a mente e o corpo.
Gostava de poder trazer-te para dentro da minha escrita, mostrar-te, sorridente, os seus limites que se encontram para além da minha própria compreensão.
Queria poder fotografar o mundo da minha psique e mostrar-to abertamente.
Todos temos um pedaço secreto.
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10:00 PM
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Regresso
Desculpem a prolongada ausência mas tive alguns problemas com o computador.
Se alguém recebeu mails meus com vírus lamento.. mas enfim... são coisas que não posso controlar ;)
Em princípio está tudo resolvido.
Por isso beijos.. e boas leituras.
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10:00 PM
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julho 16, 2004
O primeiro dia do resto da sua vida
- Não receias o meu silêncio?
- Não - respondeu-lhe ele ao ouvido - amar é ouvir e saber compreender os silêncios e os sorrisos envergonhados do outro.
- Nunca desconfias que possa estar a pensar num amante? Num outro homem que não tu?
Ele sorriu-lhe e beijou-lhe os dedos da mão pequenina.
- E tu? - retorquiu-lhe - nunca tens medo dos meus sonhos, dos meus olhos fechados a meio da manhã, dos meus dedos que tentam em vão aprisionar o Sol?
Ela sorriu-lhe, enigmática, escondendo os pensamentos e as palavras.
- Não te escondas - implorou-lhe, beijando-lhe as pernas esguias - não te feches assim quando tento entrar em ti.
Clara abriu as pernas, deixou que ele a tocasse, ávido, embriagado com o seu perfume e os seus becos mentais, as suas perguntas sem resposta.
Deixou que ele a descobrisse, que a penetrasse e a tomasse, iludido na sua sensação inválida de posse.
Sabia interiormente que não o amava nem o iria amar. Mas gostava da quando ele lhe passava a língua pelos ombros, pelas costas, pelas nádegas de branco leitoso.
Deixou escapar um gemido e fechou os olhos.
Preferia não ter de o olhar directamente e ler-lhe nas linhas do rosto o amor desmedido, cego que o ligava a ela.
Contorceu-se no orgasmo.
- Foi bom? - perguntou ele, inocentemente ávido da sua aprovação, do som quente da voz feminina.
- Sabes que desprezo perguntas a seguir ao sexo - disparou Clara, enquanto se erguia e se vestia suavemente.
- Não tapes os seios.. Deixa-me afundar-me neles mais uma vez...
- Estou atrasada, tenho uma aula daqui a uma hora e sabes como é o trânsito a esta hora...
Sabia que estava a ser fria, talvez até rude, mas os olhos lânguidos de Marco enjoavam-na, faziam-na sentir que de alguma forma o tinha violado, lhe devia algo mais que um beijo rápido nos lábios.
"Estou a matar a minha liberdade e amor próprio nesta relação sem futuro" - pensou amargamente.
Desceu as escadas do prédio ainda com o sabor amargo a tabaco dos lábios dele.
"Preciso acabar com isto... prometi a mim mesma que me ia deixar destas relações inconsequentes, destes encontros pálidos... Quero ser vulcão e sou apenas um rio parado nas margens" - sorriu para o espelho do carro, um sorriso irónico e cheio de sentimentos perdidos, rasgados, soltos no tempo.
Pegou no telémovel e enviou-lhe uma mensagem.
Amanhã iria ser o primeiro dia da sua nova vida.
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09:48 PM
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julho 15, 2004
Infinitamente
Sinto um nojo de mim, uma ausência de motivação
uma vontade de arrancar os cabelos, rasgar
a pele, vomitar os olhos...
O corpo que me prende, me amarra
não me deixa voar, não me deixa ver o amanhã e o ontem
simultaneamente.
Queria ser diferente, e sou tão estupidamente
igual. Igual aos trovões, ao desespero
da Natureza.
Lês nos meus olhos a vontade de estar
aqui estando ali?
A intensa necessidade de ser
ouvida
por entre o silêncio?
Queria cantar, desenhar, cair,
cair de um abismo imenso,
aterrar no pêlo do coelho,
trepar e olhar os olhos de Deus.
Queria ser eu e ainda assim
ser outra,
ser majestade,
ser deusa,
ser ave,
ser oceano murmurante.
Rebento por entre os limites
desenho na areia da praia os nomes
de todas as pessoas que não vou conhecer,
dos livros que não vou ler,
dos filmes que não vou assistir,
das comidas que nunca vou provar...
Êxtase.
Êxtase é o que sinto perante a imensidão
que não consigo agarrar
(e tento, tento prende-la nos dedos molhados
de suor).
Danço ao som das músicas que não vou ouvir,
debruço-me junto aos corpos que não vou amar,
encolho-me e grito...
Grito.
(quebro todos os espelhos dentro e
fora
de mim)
Vês em mim o desgosto?
As marcas das noites de insónia
a lamentar tudo o que não
sou.
Sentes como me mordo, como me odeio?
Como me mutilo?
E grito...
um grito de dor.
Porque a minha mente,
a minha alma,
os meus ânseios
são infinitamente maiores que
o meu corpo.
Publicado por Fairy_morgaine em
05:09 PM
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julho 13, 2004
Actualização
Actualizei a minha lista de blogs. São os meus blogs de eleição..
Espero que possam encontrar algo que vos agrade.
Beijos a todos.
Publicado por Fairy_morgaine em
11:19 PM
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O meu mundo não faz sentido sem a tua voz
Ouço a tua voz pausada e leio por entre os espaços mortos que abraçam as palavras, que a tua voz se quebra e se encaminha para um vale de dor.
Abraço-te junto a mim e com mãos de pluma seco-te as lágrimas cansadas, murmuro-te palavras de conforto que não tive, nem tenho para mim.
Afago-te a pele enrugada e ouço as palavras dos outros ressoarem-me nos ouvidos.
Eles têm razão. És muito bonita, avó. Tão bonita e tão pequena, um ser frágil e etéreo e simultaneamente tão forte, dois braços que embalaram os netos, as desgraças e as tormentas.
Quando olho a tua face não vejo os anos de punhos cerrados a lutar por um futuro. Vejo uma mulher que embora anciã me parece uma menina, e imagino-te, avó, imagino-te criança a brincar ao toca e foge.
"Quando eu era mais nova e vivia com o teu bizavô..." , começas tu e eu sento-me perto de ti a beber-te as estórias e a sabedoria.
Eu, mais do que ninguém sei os teus sorrisos e as tuas preocupações. A tua pele de veludo e cheiro doce de creme hidratante.
Depois ouço-te murmurar: "não..eu não compreendo..." e sei no meu íntimo que te culpas e lanças sobre ti toda a tortuosidade dos caminhos que nem são teus. E ouço-me dizer.."eu também não". E ficamos em silêncio, numa partilha muda da indignação e vergonha que nos cobre os corpos.
Continuas e desfias por ti anos de sofrimento e cansaço. Protestas contra a ausência das nossas crianças, dos seus barulhos e birras. Dizes que elas te fazem falta para afogar as recordações, para apagar todo e qualquer vestígio de pensamento.
Olhas para mim e eu sei, eu sei avó... Não preciso que o coloques em palavras.
Deito-me no teu colo como não fazia há muito tempo... E nesse gesto ouço-te cantar-me, ouço-te recontar vezes sem conta a história da Gata Borralheira (era a minha favorita, lembras?) e vejo-te nas festas da minha escola primária com os olhos inundados de orgulho. Ouço-te na noite do baile de finalistas do secundário dizer..."a minha menina é uma mulher...". Vejo-te sorrir.
Estiveste sempre lá, avó. Onde mais ninguém esteve. Só tu.
Apenas eu aprendi a compreender os teus silêncios. Os teus olhares gélidos quando o avô te carrega os ombros com o seu temperamento díficil.
E sim, avó... A tua comida sempre foi a melhor.
Queria apagar de ti todos os abusos, toda a miséria, todos os anos a comer sopa ao pequeno almoço. Queria dar-te a tua mãe, queria dar-te a minha. Mas as minhas mãos estão tão vazias como as tuas.
Ainda que o meu coração esteja preenchido contigo.
Não quero imaginar que um dia não me vais sorrir, nem me vens trazer o lençol de banho quando o esqueço, não me vens perguntar se quero leite quente antes de dormir.
O meu mundo não faz sentido sem a tua voz.
"Então vens ao café com a avó?
Sim vou... onde é que pus a mala?
Mas tu nunca sabes onde pões as coisas? - gargalhadas.
Ora pequenina... já encontrei...vamos lá...tu queres é miminhos da neta..."
Publicado por Fairy_morgaine em
10:23 PM
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julho 12, 2004
Apetece-me chorar de tanta saudade
Escrevo para afastar a ausência.
Eventualmente toda a minha escrita nasce e morre em ti. Corre para ti como um rio para o mar.
O sono abandonou-me. O teu corpo não está deitado na cama com um sorriso rasgado e um convite maroto para me deitar ao teu lado.
Na verdade o teu corpo não está em divisão nenhuma da casa. Está a quilómetros de distância.
E no entanto, tenho o teu perfume a cobrir-me a pele.
Queria poder dizer milhares de vezes todas as palavras que pudessem expressar o que sinto. Nunca as digo.
Quando finalmente reúno coragem para as pronunciar são horas de partires e levares contigo pedaços de mim e da minha escrita.
Fico sempre à espera. À espera que a ponta dos meus dedos falem mais alto que eu. Que os meus braços te enlacem com a força suficiente para tu entenderes que só tu fazes sentido para mim. Que só tu és o meu sentido.
Porquê, meu amor, não te embalo eu na poesia das minhas próprias palavras?
Porque só sei escrever num grito mudo de amor? Secretamente rezo para que me leias, me entendas, me abraces. Me invadas.
Vivo com o medo de te perder preso na garganta, a transpirar-me pelos poros.
O abandono vive-nos nos olhos e não nos lábios. É por isso que te dou os lábios numa fome devoradora e afasto o olhar para sussurrar palavras de amor.
Sou cobarde, amor. Porque tenho medo da intensidade do laço que me une a ti.
E ainda assim, perco-me em ti sempre que te tenho perto. Sempre que penso que me devia manter mais longe, mais fora do alcance da dor, tu apertas-me contra o teu peito e o teu perfume faz-me esquecer a prudência.
O amor não é prudente, penso eu.
O amor é uma faca cravada no coração. Que dói mas nos alimenta.
Tenho as tuas palavras a sangrarem-me dos olhos: "não quero ir amor.. sem ti não consigo dormir".
Eu também não queria ir para lugar nenhum onde tu não estivesses. Mas estou aqui... longe. E no entanto, dolorosamente perto.
"Apetece-me chorar de tanta saudade".
Publicado por Fairy_morgaine em
01:13 AM
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julho 09, 2004
Os teus pés percorrem, hoje, caminhos que a mim já me cansaram
Se me queres ensinar o valor de uma lágrima fá-lo. Mas não me grites o quanto dói ser diferente, o quanto dói ser tão igual e, no entanto, desejar a diferença do fundo do coração.
Se tentas, ainda que em vão, provar-me a tua miséria, o teu infortúnio, então ergue-te e canta-mo do alto do orgulho de se ter atravessado a nado sem sequer pisar uma ponte.
Mas não, isso não, não me enchas de palavras e falta de atitudes, não me tentes nem me atires aos pés cansados, teorias de solidão e amargura.
Porque neste mundo ninguém conhece a solidão de estar tão só no meio de tanta gente, como eu.
Não procures em mim compadecimento e compreensão. De mim só ouvirás palavras de ordem: "levanta-te, ergue-te, atira-te de um penhasco mas vive...".
Fico à espera que te suicides de uma vez ou que aprendas a morder a vida com raiva e com desfaçatez.
Se procuras em mim olhares de piedade e conforto... enganas-te. Eu sou aquela que nunca te irá abraçar o corpo mole e incitar-te à preguiça, ao desmazelo, à cegueira com olhos vivos e não usados.
Sou, isso sim, aquela que te empurra, te esbofeteia, te grita, te incita, te atira do penhasco se tu não te atirares por ti mesmo... Aprende a voar de uma vez, porra!
Cansas-me os cansaços que me restam depois de anos a mastigar o próprio infortúnio.
Eu isolei-me, eu rasguei os laços de amizade e pseudo-amizade, eu gritei e chorei e mortifiquei-me e com isso a doença ganhou-me e alimentou-se de mim até eu me encolher de dor e rezar, rezar, rezar por piedade e colo de Mãe.
Hoje, erguida, renascida, controlada, conformada com os desaires do destino cuspo nos dias e memórias de fraqueza...
Não... a auto-piedade não nos leva a lado nenhum. Deitarmo-nos numa cama a morrer, a cheirar a nossa própria podridão só nos leva aos limiares da loucura.
Estive doente de corpo e de alma. Mas ESCOLHI continuar. Continuar sempre, pisar os meus próprios dejectos, rir-me do meu fado e ainda assim continuar.
A vida são meras espirais de ciclos mais ou menos longos.
Ciclos sagrados que tu vês passar sem lhes tomar o sabor...
Por isso se esperas que te abrace e te conforte, desculpa, não o farei.
Mas puxo-te o braço, seguro-te o corpo, amparo-te a queda, sorrio-te em noites escuras, embalo-te os pesadelos e beijo-te a fronte nos momentos de desilusão.
Mas piedade, não.
A piedade morreu-me nas noites em que gritei sufocada pela dor, à espera de uma mão que não vinha, um colo que nunca chegou... um beijo que nunca aconteceu.
Publicado por Fairy_morgaine em
09:53 PM
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julho 07, 2004
Mais uma vez mudei o
Mais uma vez mudei o avalon de servidor daqui para aqui.
Lamento o incómodo a todos mas realmente o outro servidor dá-me mais liberdade nos comentários...
A quem não conhece o avalon é o meu outro lado do espelho, são reflexões ou simples desabafos, mas nada literário...
É apenas outra forma de desnudar o Eu.
Publicado por Fairy_morgaine em
11:29 PM
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Comentários (6)
Os teus dedos são a frase mais bela que já li nos olhos de Deus
Seguras-me contra ti num dos raros momentos em que a realidade cede lugar ao mágico.
Sinto na força das tuas palavras não ditas, segredos e fantoches suspensos, presos pelos bracinhos frágeis, facilmente controláveis e patéticos.
Percorro os teus lábios com a minha memória e os meus dedos ocos.
Crescem-me sempre inseguranças na falta de preenchimento dos dedos e da alma.
Em mim vive um rancor danado e exilado. Um rancor de não ouvires as minhas palavras e os seus sons sibilantes, as minhas gritantes necessidades de compreensão.
Em mim guardo a prova da falsidade do silêncio. O silêncio jamais foi compreensão.
Pelo contrário, é exigente e ciumento.
Devora-nos.
Seguras-me e adivinho-te pensamentos longínquos. Odeio-os.
Odeio todos os momentos que viveste sem mim.
Odeio todos os teus planaltos onde não te posso seguir.
Nunca fui mulher de regularidades.
Aprendi muito cedo o sabor da inconstância e como ela nos vicia.
"Todos te amam sem que tu os ames" - disseram-me um dia.
Ninguém ama alguém que não conhece.
Amaram apenas uma imagem que gosto de passar para depois os enforcar na sua própria sede de poder e manipulação.
"Ela não é tão estouvada quanto parece" dizia o meu amigo à pequena traidora.
E ela mordia a língua, esfaimada das minhas derrotas.
Não lhas dei.
Dei-lhe silêncios e pedaços de palavras sem verdadeiro sentido.
Mas tu és meu.
És o jardim que quero habitar.
És a morada do meu corpo e dos meus anseios.
És.
Por isso amo-te.
Pelas tuas maravilhosas imperfeições, as tuas lágrimas salgadas quando te inundas de dor, os teus lábios carnudos nos meus cabelos.
E eles também te amam. Não da forma que eu te amo, mas de uma outra, mais profunda.
Porque quando te escrevo, te dou aos pedaços, os deixo provar da tua essência que trago presa na ponta dos dedos.
Cubro-te as imperfeições com panos de seda branca e entrego-te nu.
Não, não te envergonhes. Não te encolhas. Desnuda-te para mim. E de mim para eles, para os que te seguram carinhosamente nos braços enquanto te(me) lêem.
Quero que possas estar comigo sempre. Mesmo nestes mundos meus, de escrita, de poesia, de amor infinito pela humanidade.
Por isso te passeio, te cubro, te desnudo, numa harmonia perfeita de braços, línguas, palavras, sexos, pernas, reticências...
Porque os teus dedos são, sem dúvida, a frase mais bela que já li nos olhos de Deus.
Publicado por Fairy_morgaine em
06:58 PM
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julho 06, 2004
Gostos
Gosto quando me deito no teu colo e vemos desenhos animados, como duas crianças demasiado grandes, demasiado conhecedoras da realidade e ainda assim crianças.
Gosto de sonhar presa nos teus braços a inspirar o teu perfume.
Gosto de estar pendurada no teu pescoço com os olhos a implorar meiguices, carícias e beijos.
Gosto de lamber-te a face e provar o teu sabor.
Gosto de dormir no teu peito, esfregar-me na tua pele branca, uma gatinha murmurante e sorridente.
Gosto de acordar de manhã e ver-te a dormir, assombrado de problemas e ainda assim lindo.
Gosto de ouvir música contigo e descobrir que o som da tua voz me é mais essencial.
Gosto de protestar da tua barba, arranhar-me nela, pedir-te que a cortes e arranhar-me de novo.
Gosto da ausência de livros no teu quarto. Gosto da ausência de tudo e da predominância de mim mesma.
Gosto das tuas fotografias de míudo, gosto de ouvir histórias da tua infância, gosto de pensar que não eras meu mas agora és.
Mesmo quando chove é o teu sorriso que antevejo nas nuvens.
Mesmo quando troveja é na recordação do teu corpo que guardo os meus medos.
(Se um dia ouvires a minha voz distorcida agarra-me perto do teu coração. É no coração que nascem e perecem os sonhos.)
Publicado por Fairy_morgaine em
04:40 PM
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julho 05, 2004
Identidade
Sinto a ira a fluir-me dos poros,
a rebentar-me os últimos limites...
Sinto-a rasgar-me, perfurar-me,
uma ira intensa que não tendo motivo
próprio,
é toda ela motivos e motivações.
És tu e eu numa batalha eterna.
Tu que me deste a vida
e eu que ta nego agora.
A ti, que me queres manipular, agarrar,
absorver, viver por mim e
em mim.
Nego-te.
Repudio-te.
Quero quebrar-te.
Roubar-te todas as possibilidades
de fuga.
Delinear-te na alma
infinitas nuances de dor.
Cuspir-te das minhas estradas
e caminhos.
Fazer-te finalmente entender
que eu sou eu e eu
sou SOZINHA,
sou minha, sou
independente,
sou
crua,
sou
distinta.
Sou
EU.
Alagar a tua vida
da minha ausência.
E com ela gritar-te
finalmente
que toda a minha desilusão és tu.
Tu
ÉS.
És promessa irrealizada.
És um sonho feito pesadelo.
És espelho retorcido de mim.
Não me atirem parecenças.
Eu não sou ela.
Eu sou eu.
Eu sou uma ave a voar no espaço que ela
nunca soube sequer tocar.
Colo das suas crianças
e esperanças negadas.
Mão que limpa a lágrima,
lábios que beijam os rostos cansados,
vincados das suas impertinências.
Eu não sou tu.
Eu sou a vingança do destino
às suas provocações.
Eu sou aquela que nasci para ser
tudo o que ela nunca quis ser.
E querendo não sabia.
Eu
sou
Eu.
Publicado por Fairy_morgaine em
10:04 PM
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Comentários (8)
julho 01, 2004
O ser humano é um puzzle sempre interminado
O ser humano é um puzzle sempre interminado.
Sinto a alma quebrar-se em pedaços que me rebentam nas têmporas.
Sinto-me encardida de amor e náusea.
Descubro-te. Desnudo-te. Receio-te.
Tenho a mente corrompida de tantos gritos e silêncios inesperados.
Não poderei chamar-lhe tristeza. Quiçá uma amarga melancolia. Quiçá uma solidão que se alojou profundo na alma.
Quando a solidão se torna a nossa única esperança de sobrevivência, descobres a tua face no espelho.
E o reflexo nunca é o que esperavas.
Tenho as mãos a escorrer de sangue dos inocentes.
Agarrei-os na queda. E eles esbofetearam-me, arregaraçaram a sua inocência perante os meus olhos, cuspiram-na a meus pés...
Nada na vida é linear.
Os abandonos vivem-nos para sempre gelados nos dedos...
Conheces a traição? A traição da pele. Quando se despe um casaco de amor e se veste uma pele de insinuações e abusos?
Conheces a minha alma?
Tenho as pernas atravessadas de espinhos. Tenho o sangue comido do veneno dos que amei. Tenho o rosto violado das lágrimas, do desespero e da loucura.
Conheces o outro lado do amor?
Vou-te sussurrar um segredo... Queres? A minha poesia é toda ela sentida, é toda ela verdadeira, é toda ela amargura de viver... Sussurro-te... e tu não ouves.
A música desce-me pelos ombros e aquece-me. É fogueira de sentires.
Guardas o meu segredo? Conheces-me e amas-me assim?
Tive medo. Medo do nojo dos outros. Tive medo e por isso (re)criei-me forte e segura.
Sabes o que é afogar uma criança no mar? Eu afoguei a minha criança no mar, cega de desespero e dor. Eu deixei-a a boiar sozinha nas águas salgadas e revoltas.
Porquê? Porque não podia ser criança.
Mas não contes... não digas a ninguém... Eu ainda tenho medo do exterior.
Eu vivi em mim demasiado tempo para agora sair sem sentir tonturas e me precipitar nos teus braços.
Guardas o meu segredo?
Eu voltei ao mar onde me deixei.
Mas o meu corpo já não estava lá.
Gritei por mim mas ninguém respondeu.
Gritei por mim e engoli as lágrimas...
Sabes o que é escrever pedaços de ti em papel, arrancá-los de coração?
Sabes o que é chorar sílabas para a brancura imaculada da criação?
Conheces a faca que te rasga o pescoço? Conheces a mãozinha inocente que a segura?
Conheces a traição do amor? Conheces a traição?
Conheces o amor?
Conheces a faca?
Eu afoguei-me...
Eu afoguei-me em palavras e poesia.
Eu aprendi a projectar-me para não perder o senso.
Eu perdi-me... mas ainda assim ganhei-me outra vez pela palavra, pelo segredo...
Vamos fingir que é tudo mentira, agora.
Vamos fingir que a minha vida é poema.
Vamos atirar conchas ao mar.
Vamos fugir daqui para sempre.
Vamos recriar-nos em nós...
Guardas o meu segredo?
Morri a tentar afogar-me no mar.
Onde vivo agora, não sei.
Onde moro dentro da minh'alma?
Existem tristezas tão profundas que se recusam a sair cá para fora.
Vivem em nós para sempre. Abraçadas ao nosso coração.
Vamos morrer no mar...
Amanhã renascemos abraçados, nus, perdidos, (in)felizes?
(sussuro-te) guardas o meu segredo?
Publicado por Fairy_morgaine em
04:24 PM
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