junho 28, 2004

Futuro

Espalho manteiga no pão, fatiado... Mastigo devagar.
Mastigo as palavras que escorregam na manteiga. Dizem que eu ficaria nua sem alguém para me amparar as quedas.
Foi essa a ideia que guardaram do pouco que deixei transmitir do meu âmago.
Sorrio. Os meus sorrisos umas vezes são sinceros e cálidos, outras vezes são ironia pura.
Mais uma dentada no pão. Aos poucos degluto as lágrimas de humilhação.
As suas condenações deixam-me prostrada num chão demasiado enlameado de onde dificilmente me consigo erguer.
Bebo leite... Sempre encontrei conforto nas pequenas simplicidades da vida, nas rotinas e nos abraços furtivos trocados com os outros.
Amei-te clandestinamente demasiado tempo. E nesse tempo nem eu sabia do amor que me aquecia o leite e o corpo.

Amassaste o pão que me dás agora a comer. Consigo sentir na sua côdea a força das tuas mãos que tremiam com a ternura que só os grandes homens sabem sentir.

Só os grandes homens sabem chorar sem vergonha.
Sinto no miolo o sabor salgado das lágrimas com que me cobriste os seios nus.
Das tuas palavras fermentei um amor sem precedentes.
Admiro-te. Porque me soubeste amar sem rodeios nem limites, sem estúpidas linhas de acção.
Que importam as linhas de comportamento a quem ama? Que importam o que esperam de nós, se apenas sossegamos no abraço que nos une até à alma?

E no entanto, ainda me ressoam nos ouvidos as acusações cobardes de pessoas que me rasgaram por dentro sempre que lhes dei essa hipótese.
Torço as mãos em esgares de fúria... Queria poder acusá-los de todos os crimes que cometeram no meu passado.
Queria poder gritar-lhes todo o silêncio que guardei no coração ao longo das eras em que me fustigaram o corpo.

Seguras-me as mãos... Beijas-me os lábios. Apaziguas a minha dor e cobres os meus olhos de beijos.
Deito-me no teu abraço... Repouso em ti. Só tu me acalmas as iras e doenças da alma.
Deleito-me com o pão que me fizeste. Sinto as tuas mãos no meu cabelo. Só tu me importas...
Só tu e o futuro.

Publicado por Fairy_morgaine em 05:48 PM | Comentários (14)

junho 27, 2004

sonhos moribundos

E quando os meus sonhos morrerem finalmente e eu tropeçar neles, perdidos no chão da casa que nunca chegou sequer a ser nossa?
E quando os apanhar, simplesmente para não jazerem a apodrecer e a matar a minha mente?
Os anos passam e com eles esvai-se a inocência da felicidade.
Conheces o sentimento da felicidade?
Eu pensei que a conhecia, pensei que a domava até.

Um dia acordei e ouvi ao longe o som de um violino. E não sei porquê chorei.
A melodia vinha morrer junto aos pés da minha cama e eu abracei o meu corpo e deixei-me ser sacudida por violentos soluços.

Conheces a palavra violência? Para uns é uma palavra. para outros feridas atravessadas no rosto.

E quando os sonhos morrerem?
Que farei eu com a carcaça do meu coração?

Sabes, ontem disseram-me que o coração é uma mentira de um homem louco que viveu há muitos anos atrás. Disseram-me também que o amor não mora no coração. Mora nos ouvidos e na língua e que quando paramos de lamber os lábios esfaimados de beijos então, o amor morreu.

E quando o amor morrer?
Que farei com as promessas, com as carícias ainda por trocar, com os beijos semi-clandestinos???

Meu amor, meu sonho... e quando me morreres?

Publicado por Fairy_morgaine em 08:14 PM | Comentários (5)

junho 25, 2004

Auge

Sinto-te.
Embora não estejas cá.
Será que compreendes isso? A presença subtil de uma ausência amarga e inevitável.

Sinto-te.
Mas não estás em mim.
Estás algures perdido nos teus mundos... Tento em vão perder-me nos teus braços. O teu olhar que é meu está agora desfocado, perdido, apaixonado por imagens que não as minhas.
Bato aos portões desse céu onde te resguardas e tu uivas, mas não abres.
Eu sei que sentes a falta viciosa do meu beijo suave, tão suave que mal te toca os lábios entreabertos.

Sugo-te.
Sim, amor, sugo-te quando penetro o teu céu. Sabes, é que a beleza sempre me apavorou. A luz incandeia-me.
Preciso da escuridão para conseguir esvoaçar pelos espaços vazios do amor.

E tu perguntas-te: "mas o amor tem vazio?".
E eu desiludo-te ao dizer-te, que logicamente, como tudo o que é imperfeito, tem vazios profundos.

Sim, o amor é imperfeito.
Mas porquê? - pensas tu. Porque senão morríamos extasiados com o seu brilho estupidamente inebriante.
E isso ainda não aconteceu.

Ainda.

Embora eu anseie pelo momento em que iremos ambos morrer depois do orgasmo, cobertos de suor e cinzas. Cinzas dos nossos cabelos, incendiados.
Tudo o que é sublime é fugaz, meu amor.
É por isso que o orgasmo dura alguns segundos e não horas inteiras. Porque assim que nos habituássemos a ele, não o iríamos mais saborear. Porque iria ser banal, comum, estúpido.

Nós não somos fugazes. Mas eu rezo, eu mastigo o momento do fim.
Do fim deste momento ridículamente perfeito.

O teu céu desafia o meu parco equilíbrio.

Preciso de um ponto negro onde me agarrar. Um varão de escada, sempre a descer.
Para um poeta a escada é sempre a descer. Nunca a subir.
É de sentido único.

Mas para um amante a escada é o fim do possível... É o muro de onde se atira.
É o mar que lambe os pés descalços.

Para o amante a escada é o dilema.
O dilema de assassinar o amor, atirando o corpo mole pelos degraus de pedra fria. E assim tornar o amor imortal porque ficou espelhado no último sorriso. Nos olhos abertos e cheios de uma última imagem.

A minha última imagem és tu.

Quando morrermos velhos, assoprados de dores e sentimentos agudos e malignos, rancores e palermices da idade, a imagem que nos vai morrer no olhar é tão só a dor amor perdido porque não foi assassinado.
Foi uma perfeição que nos escorreu pelos dedos apenas porque não foi terminada no seu auge.

O auge é a escada de todo o amante. Aquela que leva ao suicídio... Aquela que leva à ultima imagem que és tu.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:42 PM | Comentários (8)

junho 22, 2004

A sensualidade da escrita

A escrita aproxima as pessoas de uma forma quase assustadora.
É como identificar nos outros parcelas de nós mesmos.
Ler nas palavras perdidas em blogs, livros, crónicas, as nossas loucuras, os nossos mais inconfessados anseios.
Os laços que se criam entre duas pessoas apaixonadas pela escrita faz com que se apaixonem entre si e partilhem silenciosamente rasgos mentais.
Um espelho por vezes algo grotesco em que vemos o nosso íntimo no íntimo do outro, o nosso sorrir no sorriso do outro.
E a dor na dor do outro.
Duas pessoas que partilham dor nunca mais poderão ser indiferentes aos vultos dos seus corpos.
Quantos desses encontros fugazes com as nossas metades perdidas no mundo, soltas a voar no espaço da criação?
Quantas palavras ficam por ser ditas nessa mútua compreensão amargamente doce.
Quantas sensibilidades iguais, atracções criadas e recriadas nesse espaço-tempo criativo e sensual?
A escrita é espaço de tentação. De tensões que aproximam e a afastam os possuídos.
Só outro possuído para compreender a possessão.
E não é isso que todo o ser humano procura? Compreensão?
Essa identificação serena e ao mesmo tempo revoltada em que queremos ser o alvo do poema, queremos ser o amor e o amado, queremos ser o destinatário dessas palavras, dessas teias invisíveis e no entanto, tantas vezes palpáveis.
Sim, a escrita, é um acto sensual.
Uma veste que nos torna tão deslumbrantes aos olhos dos outros... dos que nos desnudam devagar, com profundo deleite.
Talvez tudo se resuma a isso... A um amor imenso que nos assoma e nos entrega nas mãos que seguram a caneta. Nos dedos que batem no teclado.
Sendo dos meus leitores, não sou porém de ninguém. E isso torna-me muito mais apetecível.
Muito mais... etérea e majestosa.
Por isso me escondo. Me resguardo. Para que possam sempre sonhar com a deusa que gostam de idealizar.
E que, infelizmente, é tão humana. Tão imperfeita e estupidamente humana.
Visto-me de escrita e danço para vós. Desnudam-me devagar e eu deleito-me, num orgasmo literário, numa sensualidade crescente e viciante.
Quando saio do palco volto apenas a ser eu... Coloco suavemente as minhas vestes num armário enorme e suspiro.
Aqui nos bastidores fico sozinha. E mesmo assim cheia de outras personagens que leio e releio pelos dedos dos que amo ler. Enebriada de criatividade.
E amo... amo a escrita... amo os escritores e as suas palavras.
Mesmo quando estou sozinha... E preenchida de ti.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:42 PM | Comentários (15)

Abismos

O afastamento que impus entre a alma e o corpo
pesa-me agora nas pernas
que se torcem pelo caminho.
A alma escondeu-se nas entrelinhas
dos meus poemas esquecidos,
que escrevo e lanço ao mar
palavras e vírgulas sem paixão.
Simples exercício de escrita
desprovido de sentimento mais altruísta
que não o próprio ardor do ser.
Um corpo sem alma nada mais é
que simples receptáculo vazio
uma canção sem tom.

O afastamento que desenhei dentro de mim
mesma
é agora um abismo que nem sonhando
consigo transpôr.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:22 PM | Comentários (1)

junho 21, 2004

Medo

Era uma palavra... Apenas uma palavra e no entanto os meus lábios selaram anos de inconformismo e dor.
Como se o organismo se recusasse a ser feliz, a fazer as coisas bem...
Sabes que deixar de ser "eu", para ser nós é um processo lento e nem sempre bem sucedido.
A mente é dona de estranhos buracos e armadilhas.
Penso que também sabes isso.
Por isso torna-se inútil dizer-te palavras que conheces e mesmo assim recusas entender.
Dói-me lembrar-te ajoelhado a meus pés a implorar perdão por um pecado que nem sabes que cometes. Dói-me porque queres apagar as minhas lágrimas com as tuas.
Era apenas uma palavra... uma palavra a negar a estranha necessidade de ser tua sem o ser.
Sabes que quis fugir? Fugir de ti, fugir do amor que te tenho e me prende as asas... Fugir de ti e consumir-me nesta infelicidade mórbida.
Ainda assim, agarraste-me com força, as lágrimas a escorrerem-te pela face, a desfazerem-te o coração.
Sabes que sou cobarde? Sim... profundamente cobarde.
Estupidamente cobarde e no entanto amas-me assim. Ou aprendeste a amar-me.
Qual das duas foi, interrogo-me... Mas por muito que o faça nunca vou descobrir.
Porque as tuas mãos se selaram em volta das minhas, os teus braços esmagaram a minha cobardia, o meu medo de amar.
Ser feliz nem sempre é fácil, sabias? Ser feliz às vezes também dói. Porque ter-te a meu lado é toda a minha felicidade, a minha única felicidade e no entanto por vezes parece-me tão distante, tão hercúleo.
Mesmo quando abafas as minhas lágrimas nas tuas.
Já te disse que ficas lindo quando choras? Na infelicidade também existe poesia. Nos teus olhos perfeitos de lágrimas também existe amor. E por isso é belo.
É nas tuas lágrimas que vejo o meu coração. Porque ele está dentro de ti. Numa profundidade que só as lágrimas alcançam.
Sim... é em ti que vivo e no entanto quis fugir de ti, trazendo a morte no regaço.
Porquê, perguntas-me tu, e deitas-te em mim, e sufocas-me de beijos e amor.
Porque amar-te é a única coisa que não sei fazer. Porque me surpreendo a cada dia com este amor. Porque ele me ultrapassa e me enche de maresia.
E por isso amor, tenho medo. Medo da grandiosidade. Medo de precisar de ti mais do que precisas de mim. Medo de acordar de um sonho e morrer a recordar os teus lábios...
Medo do medo de amar.
E ainda assim, enlaças-me em ti.
Quero-te, dizes tu. E eu sei, estranhamente, que é verdade. Sei... e assim silencio o medo, apago as lágrimas e adormeço em ti.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:25 PM | Comentários (7)

junho 18, 2004

Sopro de vida

Existem em mim somente dois caminhos. O caminho para dentro e o caminho para ti.
Nenhum me leva para fora, porque tu estás dentro de mim, num pedaço sagrado e beijado somente pelas asas dos anjos alados e invisíveis.
Penso que aprendi a trilhar ambos os caminhos ao mesmo tempo. No fundo, levam-me a um mesmo sítio.
A mim.
Porque tu vives em mim e a tua imagem alimenta-me a sede de amar.
Ainda assim queria encontrar o caminho para fora. Sabes, é que o meu íntimo sufoca-me.
Funciona como uma gruta medonha que tenho medo de explorar. Quanto mais me aventuro, mais húmido e sombrio se torna.
Por vezes lembro-me que se um dia encontrar o caminho para fora, serei cegada pela luz ofuscante da Verdade. Os meus olhos nada mais lembram que não este negrume peganhoso.
Sinto-te nas paredes do meu íntimo. Estás gravado nelas, como se fosses delineado a carvão na alvura do lençol.

Percorro o caminho, tacteio a entrada que é simultaneamente a saída das antecâmeras e becos.
Se ao menos pudesse tropeçar em algo realmente útil. Um pergaminho, uma flor, uma fotografia do Sol.
Mas não.
Aqui tudo é igual, tudo é monótono.
E tu habitas-me. És a única irregularidade na tela do meu sonho.
Como tal, fascino-me com todos os teus poros de onde emergem melodias e fios de seda.
Fascino-me e surpreendo-me com os teus mais subtis respirares.
O sopro de vida que emerge de ti para mim é o poema mais saboroso jamais escrito por deus.

O meu íntimo é uma prisão, sabias?

Quero que aprendas os caminhos que apenas eu sei percorrer.
Ensino-tos uma e outra vez e ainda assim perdes-te nos meus labiríntos.
Mas amor... se olhares tudo em tua volta sou eu. Porque é em mim que habitas e foi no meu íntimo que aprendeste a voar.

Publicado por Fairy_morgaine em 12:21 AM | Comentários (11)

junho 16, 2004

As filhas da puta

Sinto-me totalmente entupida de palavras. Elas são tantas e tão intensas que me rompem os olhos e ainda assim não querem aprisionar-se no papel.
São imensas, estas malditas palavras. Escravizam-me a alma, de tão poderosas e senhoras de si. Queria poder libertar-me das suas amarras e escrever, escrever, escrever febril e apaixonadamente mas elas não se dão.
Entopem-me, as filhas da puta. Preciso desse momento íntimo entre mim e a minha alma que se concretiza em forma de poesia, preciso urgentemente desse momento como quem agoniza num leito de morte.
Se eu pudesse ao menos explodir em sílabas e significados de veludo... se eu pudesse num texto transmitir toda a dor, todo o nojo, toda a ausência de esperança e compreensão...
Mas infelizmente, elas fogem... Elas negam-me. E eu nunca mandei nelas.
Alguns poetas (e outros menos poetas) pensam que as palavras são apenas matéria prima do sonho e que se desleixam, se deixam tocar e aprisionar facilmente.
Lamento.. mas isso não passa de uma mera ilusão. As palavras mandam no poeta, elas vergam o poeta, elas pesam ao poeta.
Sempre foram elas a comandar os passos da dança. E são caprichosas, as filhas da puta.
Raramente se entregam sem luta, sem suor, sem sangue no chão.
Sim, porque as palavras são como um relâmpago no céu.. completamente selvagens. São avassaladoras.
Ironia das ironias são elas a mais nobre expressão do espírito humano. Arte por excelência. Os quadros são meninos de nariz empinado, são belos, são quase perfeitos...
Mas as palavras, essas, são deliciosamente imperfeitas... Cheias de rugas e pedaços de significados complexos e misturados.
Ainda me lembro que quando terminei o meu primeiro poema senti um rasgão na pele e ainda trago a cicatriz a lembrar-me a minha primeira luta.
Enganam-se os que pensam que o poeta alguma vez ganha uma luta. Isso é como dizer que o humano é um deus. O poeta ganha-se a si mesmo. Às vezes... quando muito ganha o respeito e as lágrimas dos outros.
Poeta que é poeta forrou a casa com lágrimas e suor. Poeta que é poeta ganha-se às palavras... Poeta que é poeta nunca se assume nem se diz poeta. Que os poetas são loucos largados nas estradas nuas.
Poeta que é poeta viola-se pelas palavras... Fode com as palavras. Amarra-se às palavras. Morre pelas e com as palavras.
E no fim ainda murmura... "filhas da puta... ganharam-me mais uma vez". E morre sufocado pelas próprias lágrimas e vergonha de todos os poemas nunca escritos e que ficaram suspensos entre os lábios e os dedos, para sempre inacabados, sem alma e sem voz...
Largados.
E eu, raios, eu sinto-me entupida! Como uma caravela que sem rumo se perde nas águas à espera da inevitável derrota.
Hoje derrotaram-me as palavras. E é derrotada que com vergonha seguro nas pontas do poema que não escrevi...
Neste poema que simboliza todo o meu sentimento... E que eu não soube capturar.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:44 PM | Comentários (7)

junho 15, 2004

Agradecimento

Tenho lido tudo o que escreves sem nunca tecer um qualquer comentário embora sequiosa para o fazer. Também me chamo Sílvia e também o sonho me acompanha em cada misero acordar, em cada doce adormecer, em cada desmaiado segundo q vivo a desejar e a ansiar. Não tentarei compreender o q escreves mas sinto-o tantas vezes de igual forma. É bom saber q existes, q estás para eu te ler e para te abraçar as palavras com o olhar e c o sonho.
Obrigada Sílvia


Queria agradecer publicamente a ti, Sílvia, e a todos os que me lêem e me tocam tão profundamente quando o fazem.
Escrever é desnudar-mos o corpo e a alma para os leitores. Receber estas manifestações de carinho é a melhor recompensa que um escritor pode receber. Pelo menos falo por mim.
Obrigada a todos que me comentam, que saem desse silêncio anónimo para me "beijar" a face com as vossas palavras de apoio. Obrigada também a todos os que não saem do silêncio mas ainda assim me visitam e me lêem.
Obrigada em especial a ti, Sílvia, pelas tuas palavras perfumadas de poesia que me comoveram... A todos um beijo doce.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:45 PM | Comentários (10)

Não será a poesia um

Não será a poesia um sonho inacabado de um louco?

Publicado por Fairy_morgaine em 11:14 AM | Comentários (5)

junho 14, 2004

Fome

Tenho fome, amor.
Tenho ânsia, tenho um torpor
que me invade os olhos e me faz
sussurrar o teu nome,
rasgar a minha carne de carícias,
de beijos roubados.
as mãos que me roubam as mãos,
os teus lábios
sumarentos e exigentes.
Quero-te, amor.

Inclinas-te sobre mim,
invades-me bruscamente.
Sou tua, gemo subitamente
o corpo arqueado na dor de te ter
dentro.
Montas-me,
navegas-me.
Seduzes-me, apaixonado e mentes.

Mentes as mentiras que quero ouvir, amor.
Dizes que não vais, nunca.
Nunca é sempre muito tempo.

Quero engolir-te, renovar-te em mim.
Parir-te na noite escura.

Passeias as tuas mãos nas minhas curvas e
recantos.
Nunca é já ali, prometes.
Não te deixo, não te deixo,
murmuras.
E eu, delirante, acredito.
Acredito em ti e no teu pénis teso
que me atravessa.

Não te venhas, imploro-te...
Só mais um momento, só mais um gemido.
Apenas mais um segundo desta união sagrada.

Foi no teu colo que aprendi a sonhar...
Foi no teu colo que quis morrer.
É em ti, no teu peito, és tu, és só tu...

Vens-te em mim,
rebentas em mim,
gritas em mim...
E morres como uma onda vem morrer
à praia.

Sonha. Sonha com o nunca.
Sonha com o nunca mais vai acabar.
Com o orgasmo infinito.
Com o amor perfeito.
Com o meu cheiro. O meu sabor.

Sonha. Com a perfeição.
A inalcançável verdade.
Amanhã é nunca. Amanhã...

Publicado por Fairy_morgaine em 10:17 PM | Comentários (8)

junho 10, 2004

Duas da manhã

São duas da manhã.
O vento sopra baixinho.
São duas da manhã.
E eu estou aqui à espera de mim.
Há pouco saí, bati com a porta, corri pelas escadas, atirei-me no lago e morri.
Era meia noite e eu morri.
E agora são duas manhã e aguardo o meu regresso.

Donde me ergo todas as noites, não sei.
Onde molho os pés, não sei.
Onde molho o cabelo, não sei.
Onde deixo as minhas lágrimas, não sei.
Onde me esqueço e me abandono, não sei.
Em mim nada mais há. O futuro é apenas um sonho da mente, um sonho de sobrevivência e desamor.

Pintei o meu rosto na árvore.
Pintei o rosto na casca da árvore mais alta.
Pintei a árvore no rosto. Pintei-a mais alta no rosto.
Pintei-a somente.

Foi o vento. Foi o vento que me molhou os pés e me lambeu os cabelos, me entregou desamor, me abraçou em dor, me agarrou e me largou no lago.
E eu morri.
Ele largou-me e eu morri.

Ele tocou-me e eu morri.
Ele beijou-me e eu morri.
Ele seduziu-me e eu morri.
Foi o vento.

Foi o vento que me pintou na casca da árvore mais alta.
O meu rosto. O meu rosto e eu morri.

São quatro da manhã e aguardo o meu regresso.
Teço em silêncio o rosto da árvore.
Que pintaram em mim.

Oito da manhã e não voltei.
Corro, saio, bato com a porta, atiro-me no lago, procuro-me, enlaço-me, abraço-me, embalo-me, sou eu e não sou, sou vento, sou árvore, sou o lago murmurante...

É meio dia e não voltei.
Não me aguardo e não me resguardo.
Morri e morro. A cada dia, a cada hora, traída pelo vento, desamada pela árvore, perdida no lago.
Perdida.
Morta.
Em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:59 PM | Comentários (9)

junho 09, 2004

Escuridão

Que a vida é um mar sem pé e sem direcção eu já sabia.
Que ela me ia enganar de modo tão trapaceiro apenas descobri há algum tempo. E dessa descoberta suguei intensos estados de espírito que me lançaram na descoberta de novos horizontes de mim mesma.
Agora apenas o cansaço e o natural estado de inércia produzem em mim movimento.
Estou a rebentar. A rebentar de escuridão...
Acordo de noite e procuro-te... mas nas piores noites tu não estás. Ou serão piores somente porque a tua ausência me pesa?
Sinceramente, amor, não sei.
Mesmo quando estás, repousas nesse sono dos justos que eu nunca mais vou poder tocar. Nem mesmo a tua visão de anjo me pode acalmar as entranhas revoltas.
Nunca passo a mão pelo teu rosto com medo de macular o teu sono profundo com os meus ânseios nocturnos. Eu tenho medo.
Eu tenho medo do escuro e de mim.

Ontem pendurei-me no pescoço de deus. Saltar era demasiado fácil. Lá em baixo só uivava o vazio. O vazio que tão bem conheço.

Hoje ao acordar o Sol era azul e branco e só iluminava os bébés e crianças.

Publicado por Fairy_morgaine em 02:00 PM | Comentários (9)

junho 07, 2004

Espiral

Existem estados de espírito que se tornam instrínsecos a nós e às palavras que deitamos em laivos de criatividade ou melancolia.
A escrita foi a minha terapia e agora é o meu vício particular. Poderei mesmo dizer que por vezes é tóxica e corrosiva. Quando começo a escrever a minha linha de raciocínio é muitas vezes recta e linear. Mas após as primeiras linhas ganha vida e adquire um semblante próprio.
Por vezes rasga-me intempestuosamente na sua ânsia de sair e ser sílaba. Outras escorre-me lânguida e pálida.
Sou sempre eu que soluço poesia por entre as nuvens negras do meu rosto. Embora o meu eu seja tão vasto e tão ilimitado.
Eu não conheço os limites do meu eu. Se isso é prova ou não da sua imensidão ou prova da minha pouca capacidade de compreensão é um dilema que ainda não solucionei mas que me parece pertinente.
A escrita nunca foi um acto solitário. Pelo contrário, é um gesto de amor e entendimento entre mim e todo e qualquer leitor que nela resolva mergulhar.
Porém devo dizer que ler algo é um um percurso curiosamente perigoso. Podemos sempre perder o contacto com a realidade palpável do dia a dia e descobrirmos nuances mais esbatidas da vida que nunca tínhamos notado (embora estivessem lá desde o ínicio dos tempos).
Um dia, ainda me lembro bem, comprei um livro e engoli-lhe a capa. Confesso que a príncipio me senti um pouco enjoada, prenhe de cores e pincéis mas depois rebentaram-me os poros de arco-íris e bolas de sabão.
Guardo uma marca por baixo do seio esquerdo que prova que o livro era autêntico e que eu o engoli apressada, escondida dos demais, envergonhada pela minha fome de poesia e letras.

O livro era todo branco por baixo da capa. As suas páginas eram campos que nunca nenhuma criança tinha semeado.
Na última página tinha a tinta azul uma única palavra e o seu som encheu todo o meu quarto, atirou-se da janela e foi morrer junto à capela mais próxima.
Ao lado escrevi com a minha letra o meu nome e deixei o livro repousar numa estante velha e escura.
Ontem voltei lá e apenas encontrei um rasto de prata. Penso que o livro foi habituar outra criança ávida de ser mulher e escrever nomes e azuis.

O acto sagrado da escrita repete-se. É a espiral simbólica da minha psique.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:31 PM | Comentários (7)

junho 06, 2004

O inferno do silêncio

O destino sempre gostou de ludubriar os poetas e os menos poetas.
Para ele é uma brincadeira cruel e amarga que adora jogar, enquanto os nossos braços se quedam, exaustos do labor da viagem, do intenso calor que se sente no inferno.
O inferno foi concebido e criado pelos homens para os poetas. Eles mais do que ninguém conhecem os seus cantos e recantos amaldiçoados.
Foi no inferno que forjei as minhas asas plumadas de fénix. Nesse limbo onde ninguém me pode seguir, onde ninguém me pode amar ou confortar (e eu sempre fui melhor a confortar do que a ser confortada). Onde ninguém sabe gritar mais alto que o silêncio.
Vieram amigos do passado compadecidos com a aparente iminência de um mundo a ruir, vieram para saborear o cheiro do corpo moribundo. O presente sempre foi mais irónico e delicioso que o passado, o que não deixa de fazer-me sorrir.
Afinal, eu sempre fui a que nasceu para sorrir por entre os despojos.
Todos os meus sonhos se estão suavemente a desvanecer nos dedos finos. Embora eu renasça por entre eles e delicadamente tente, em vão, criar novos sonhos e esperanças para substituir os que me morrem todos os dias nestes recantos negros.
Quando chega a noite eu sei sempre que a luta diária para criar e recriar sorrisos e asas de fénix é uma luta inglória, um teatro demasiado penoso para os meus ossos quebradiços. A noite é uma aliada inegável da Verdade.
Ela mostra-nos os nossos mais temidos horrores, as nossas mais extraordinárias mentiras e seduções.
Todos os dias eu minto e sou feliz. Eu sou actriz e ganho abraços e beijos tenros nas faces. Eu choro no ombro invisível da cama que nunca mais cheirou a lavado... Eu adormeço e acordo com o travo de fel nos lábios...
Eu drogo-me todos os dias para aguentar as horas que antecedem a noite mágica e Verdadeira.
Mas nem isso me chega... Eu levanto-me e vou e eles mandam-me drogar mais porque o organismo está debilitado, sorriem eles, e não consegue aguentar a viagem, sorriem eles, e não consegue ser apenas um organismo, sorriem eles, ele é teu inimigo, sorriem eles, o tempo é teu inimigo, gritam eles, TU ÉS TUA INIMIGA por isso droga-te, droga-te para não doer... Droga-te porque assim entorpeces o corpo e violas a alma.

Acordo.
A noite é suada. A noite agora é sempre suada.
O coração palpita-me no peito. Acaricio a pele branca, porque ao menos o coração sempre funcionou bem nas máquinas deles, penso eu.
Desço as mãos... mas não me toco mais.
O inimigo cresce em mim. É o meu único filho nestas noites abafadas. Quase cedo à tentação de conversar com ele, com aquela voz melada das mães.
Quase...

Não existe droga para a alma.
Não existe dia que apague o pesadelo da noite.
Nada consegue calar o grito do silêncio que me ensurdece.
Nem o teu corpo quando dorme junto ao meu.

De manhã dizes que me abraçaste de noite. Dizes que o meu corpo se contraía em espasmos e o agarraste com medo, medo, medo do futuro incerto e dos sonhos que já não sabemos recriar.
Sim, tens a certeza que me abraçaste, dizes tu. Eu era violada por todos os meus terrores nocturnos.
Ias dizer mais, penso eu, mas as palavras morreram antes mesmo de terem sopros de vida.
Olhas-me com esses olhos castanhos imensos, dois mundos que vivem em ti, abraças-me e juras-me que tudo vai passar e vai ficar tudo bem... e não... a vida não me vai enganar mais.

Quando a noite chega ambos sabemos que não podes prometer o que não me podes dar.
A Verdade da noite é inegável.


Ouves a voz do filho que não te vou dar? Eu ouço... Todas as noites.
As noites que me arrancam os sorrisos, me sugam a alma...

Amanhã vou ser fénix e à noite morro novamente para depois me erguer das cinzas na hora da alvorada.
O destino quis-me aqui, onde só o silêncio me faz companhia e onde apenas ele, e tão só ele sabe gritar.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:21 AM | Comentários (6)

O regresso da fénix

A fénix renasce sempre das cinzas. Hoje eu renasço para os meus espaços e para a poesia.
A vida nem sempre é simples e muito menos previsível. A ausência que pensei ser de dias tornou-se em semanas e as semanas em meses...
Cheguei a temer que me tivessem encerrado o blog. Vejo que isso não aconteceu porque vocês (sim, todos vocês) continuaram a visitá-lo e a comentá-lo, garantindo-lhe assim a sua sobrevivência. Não existem palavras para expressar o meu agradecimento. Afinal este cantinho é uma parte de mim que eu amo e vocês amaram de volta e eu sinto-me lisongeada por isso.
Quando o criei escolhi partilhar-me com vocês sem pudores... Ainda o escolho.
Hoje, sinto-me fénix a voar e a deixar atrás de si um rasto de luz e pó cósmico.Porque hoje...finalmente...voltei.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:54 AM | Comentários (3)