abril 25, 2004
Até breve
Vou estar ausente por alguns dias. Quantos não posso, infelizmente, prever.
No entanto quando voltar virei logo dar-vos um beijo doce.
Por agora deixo um poema antigo... como forma de adeus e até já.
Respira devagar sem que ninguém te sinta.
Deixa que o teu peito receba o subtil
sopro de vida. Deixa-o arquejar enquanto me tomas
as mãos e num sorriso me fazes promessas que ambos sabemos
são tão fáceis de quebrar. As promessas existem
apenas para que as possamos esquecer e criar
tapetes de dor nas suas cinzas.
Ontem o dia correu mal contas-me tu, envolto numa neblina
enquanto procuro identificar um homem que era menino.
Ontem o dia correu de facto mal, concluis e suspiras
e eu engulo o teu suspiro e com ele cubro-te
como uma mãe que procura o filho no frio da noite e o encontra
ardente em febre.
Talvez eu ainda te saiba, penso eu enquanto te percorro
as linhas do rosto com as mãos.
Eu estou diferente, sabes?
Faço amor de forma diferente e amo de forma diferente.
Sou amada de forma diferente. E porém igual, dizes-me tu,
com os olhos verde-azuis-cinza que não têm cor mas têm sentimento.
Levantas-te e percorres o quarto e tentas decorar
cada nuance do meu corpo. É igual dizes tu,
e porém diferente.
Vais lamuriando todos os poros da minha pele
numa ladaínha sagrada...
Dizes que assim vais sempre saber por onde começar
quando a tua memória te exigir a atenção
de uma mulher que era menina.
E agora...não sabe o que é.
O telefone toca.
Toca sempre nos momentos mais previsíveis.
É sempre quando aproximas os lábios para me dizeres
que afinal tudo mudou e tudo fica igual.
Nunca dizes.
Fica sempre suspenso entre nós
como um fio de teia que tecemos nas mãos
hábeis. Afinal era um recado sem importância,
exigem a nossa presença num qualquer café.
Vestimos as nossas peles e deixamos de ser amantes
para sermos dois seres vulgares.
Sentamo-nos no café e as pessoas fitam-nos
com os seus olhos enormes e cheios de erros
falhados na vida.
Querem perguntar-nos o porquê de nos amarmos
mas a pergunta não sai e fica suspensa nas chávenas de café
que subimos aos lábios.
A pergunta amarga-me a boca.
Não digo nada. Abraço-te.
És meu e todos sabem isso menos eu.
Eu não o sei. Apenas o pressinto.
Às vezes engoles o café muito depressa e ainda
com a língua a queimar-te o céu da boca dizes-me baixinho:
"onde andaste? quero sugar cada dia que não estiveste comigo."
Eu olho-te e num sorriso entrego-te um bilhete
clandestino por baixo da mesa.
Nele escrevi à pressa uma morada.
É uma morada qualquer. Uma casa qualquer, uma rua qualquer.
Quero partir e esconder-me lá.
Ser tua sem que o saibam. Ser clandestina de novo.
E quando terminar não quero sentir o telefone.
Não quero ir a correr para o café
com a pergunta inacabada a escorrer-nos dos dedos.
Quero amar-te uma e outra vez. E no final
quero que me olhes.
Quero que deixes o som sair em espiral
enquanto suspiras palavras
que depois não nos vamos lembrar.
Quando voltarmos ao café, de mãos dadas
eles vão sentir que partilhamos um segredo.
Um segredo que mais ninguém sabe.
Um segredo que fizémos nascer entre nós.
Sei que eles vão querer mastigá-lo nas mandíbulas gastas.
Mas nós vamos sorrir e devagar tomar o café
até que o amanhã chegue.
O telefone irá tocar e nós iremos atender e dizer em voz baixa
que não, não vamos.
Queremos amar-nos sem parar.
Nessa tarde não iremos ao café.
Não vestiremos a nossa pele comum.
Seremos apenas amantes.
Apenas...nós.
silvia
08-11-03
Publicado por Fairy_morgaine em 10:10 AM
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abril 24, 2004
A estranha dualidade de ser
As pessoas que me rodeiam também sentem o buraco, embora não o digam e tentem esconder qualquer tipo de comportamento mais estranho que possa indiciar que elas o conhecem.
Afagam-me os cabelos, apertam-me contra os seios e mordem-me as mãos. Soluçam sempre que lhes lembro o Amor.
O Amor é passado e como todo o passado não se deve pensar ou falar mais nele sobre pena de sermos condenados a uma existência fantasmagórica e ilusória, presa nesses dias felizes (?), donos das suas próprias dores e enganos. Mas como em tudo uma dor que já doeu é conhecida e é nossa e por isso mesmo não dói tanto como uma que nos possa surpreender e fazer-nos sangrar.
Nos dias chuvosos elas afastam-se de mim mas mantém sorrisos assustados e nunca, mas nunca, dizem que sentem o rufar do buraco e do desconhecido que nele habita.
Por isso mesmo criaram-se assuntos tabu que ninguém fala e recusa serem tabu porque segundo eles nem sequer existe assunto para ser falado.
Uma vez, lembro-me ainda, quiseram levar-me ao médico. Segundo elas era um homem velho e respeitado e poderia talvez descobrir a doença que me aclara a pele e me ambacia os olhos. Mas nunca mencionaram o negrume da Alma.
Pensou-se no assunto, foram tomadas providências para que assim fosse, garantiram-me elas, mas no final o velho morreu e eu nunca o cheguei a conhecer a contaminar com as minhas dúvidas e o negro da existência que não existe a não ser nas vagas memórias dos outros.
Perdi a esperança de ser curada. Hoje também eu sorrio quando falo do buraco. E quando o faço é como se sonhasse e fico a pensar interiormente que tudo não passa de um sonho alucinado, provocado pela excessiva exposição aos dilemas humanos e dualidades crescentes. Porém, quando acordo de noite angustiada pelo som que emana do buraco eu sei que é verdade, que as memórias do funeral não foram construídas e que ele existiu mesmo e me vai afectar para sempre.
O sol nasce sempre mais tarde nesses dias. E quando nasce, eu acordo exausta, arrasto-me até ao espelho mais próximo e do outro lado vejo uma menina de olhos negros, cabelos negros, pele negra, unhas negras, toda ela contaminada e moribunda do abraço do Buraco...
Grito. Grito sempre nesses momentos e no entando da minha garganta não sai nem um som. Apenas vazio. O vazio que talvez esteja no Buraco e em mim.
Ou será caos? Caos dentro do vazio?
Grito apenas para me encontrar de novo na cama e fico-me a perguntar durante largos instantes se teria sido mais um sonho ou se terei um qualquer sonambulismo raro que só ataca nas noites de chuva ou de intensa lua cheia.
Será que existem gritos no Caos? Gritos no Vazio? Vazio no Caos? Vazio nos Gritos???? VAZIO EM MIM????
Ou tudo não passará de um sonho demente e recorrente de uma Alma sem eco e sem leis?
A estranha dualidade de ser... A humanidade no fio de espada da minha percepção afectada pelas leis do Buraco...
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em 02:06 PM
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Seduzo-te
Seduzo-te
Sou o verbo e a frase inacabada.
Sou um trovão na tua calmaria. Um espasmo na tua apatia.
Sou um vento, um arrepio, uma ousadia sufocante.
Morre em mim. Renasce em mim.
Sou a tua vida, mãe, amante, criadora.
Escrito por Ela
22-04-04
Publicado por Fairy_morgaine em 01:51 PM
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abril 22, 2004
O buraco
Os dias demoram a passar quando são desprovidos de amor.
É como se uma roda gigante girasse sobre si mesma de forma repetitiva e monótona. O Sol sobe ao horizonte, depois vem a Lua, depois o Sol e os anos passam mesmo sem darmos por isso.
Pelo caminho fiz alguns amigos e uns quanto inimigos que mais tarde vieram pousar no meu colo em busca de redenção e carinho. Pior. Aceitação. O ódio é um sentimento gémeo do amor. Só o sentimos quando amamos muito alguém.
Há quem diga que é fácil amar-me. Eu digo que é tão fácil odiar-me como amar-me. Talvez ainda mais fácil porque há quem comece pelo ódio mas eventualmente é lá que todos terminam.
Ainda assim o rio que sulcou os meus caminhos foi a inveja. É avassaladora a inveja. O cíume. Existiram pessoas que me amaram consumidas em cíume e outras ainda que fingiram amar-me imersas em inveja. O cíume e a inveja também são sentimentos gémeos.
Se pensarmos bem não existem sentimentos lineares. Todos eles têm duas faces. Ou muitas faces. Umas horrendas e outras belas. Depende muito de quem os olha, da perspectiva, do sentido da linha que nos sai do indicador e percorre o sentimento.
No meu quarto escrevo contos e poemas de amor. São eles que fazem o Amor sorrir-me da sua campa.
Como um fantasma eternamente puro. O Amor é inocente, jovem e inconsequente.
É único. Depois do Amor, outros virão, mais baços e mais estilhaçados.
Meras reproduções de qualidade duvidosa. Quando olho nos seus olhos são dois buracos ocos e negros.
Embora não o diga alto (a voz pode acordar antigos monstros e quezílias semi-ultrapassadas), no dia do funeral do Amor, surgiu um ponto negro na minha alma.
Primeiro era um ponto muito pequeno. Quase imperceptível. Depois começou suavemente a pulsar como se de um coração se tratasse. Ainda me recordo que foi numa noite em que chovia copiosamente que a minha percepção abraçou o ponto e se começou a tornar dificil ver sem ser através dele. Esse ponto aumentou com os anos. Agora é um buraco. Um buraco onde poderia caber o meu corpo bem aninhado.
Resisto à tentação de lá entrar porque não sei o que habita o buraco que cresceu na Alma. De resto não sei se haveria retorno depois de deixar o meu corpo lá dentro.
Ainda assim todas as imagens que me chegam do mundo exterior são filtradas pelo buraco negro da Alma. Por vezes acho-as mais nítidas e outras mais distorcidas. Um delicado equilíbrio de anormalidade dentro da percepção.
Não sei em que medida isso afecta as minhas relações, decisões, critérios... Sei apenas que está lá... Ele ainda pulsa em noites de chuva copiosa...
Interrogo-me se estará vivo... Se dentro do seu negrume cresce algo e se algo também pulsa.
Porém tenho medo... Medo da resposta.
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em 09:25 PM
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abril 21, 2004
A morte do Amor
A morte do Amor foi um duro golpe na minha auto-estima. Eu tinha-o deixado morrer.
Ele morrera ali mesmo. Nos meus braços hesitantes. Eu poderia ter dito tanta coisa. Podia e não disse nada.
Resignei-me em silêncio desde o primeiro momento. As lágrimas morriam na apatia da minha expressão.
Será este o auge do sofrimento? Quando ele é tão intenso que o corpo deixa de se mover apenas para se quedar na apatia de um "nada me importa agora que o hoje acabou".
De nada me adiantaram os póstumos postais a lamentar o sucedido. As flores que vieram colocar-lhe na campa. Houve até quem vertesse uma ou outra lágrima.
Como não me conseguia mexer cobriram-me o corpo de essência de jasmim e vestiram-me com um vestido branco de algodão que ainda guardo no baú chinês onde deposito todas as minhas memórias e vestidos sem uso.
Quase tiveram de me levar ao colo para o funeral. Ouvi a última missa. Ainda me recordo das palavras do padre gordo e baboso: "vamos todos deixar um último adeus sentido ao Amor e relembrá-lo nos nossos corações pois onde ele está agora apenas existe paz, anjos e sinfonia".
Depois deram-me a mão e arrastaram-me para longe da campa alva. Já não havia nada a fazer ali, disseram. A morte quando reclama algo que é seu nem Deus a pode impedir, diziam eles em jeito de consolação.
Voltei lá poucas vezes desde esse fatídico dia. Sempre que vou colho belas flores, orquídeas, para deixar na campa do meu Amor. Do lado direito da cruz cresceu um morangueiro.
Nunca tive coragem de colher morangos. O seu sumo ia-me saber ao sangue do meu Amor.
Das raras vezes que lá fui, subi ao sotão para tirar o vestido de algodão branco do baú. Existem objectos com vida própria. O vestido é um deles. Se soubesse que tinha ido ao cemitério e não o tinha levado cresciam-lhe lantejoulas de rancor e eu não quero que isso aconteça.
Assim, visto-me, colho as orquídeas e vou visitar o Amor. Raras vezes, claro. Essas viagens deixam-me sempre exausta.
Quando regresso evito os olhares carregados de silêncio e mágoa e escondo-me dentro de mim até a tormenta passar.
O amor vive no futuro, disseram-me um dia. E eu retorqui... "não vive quando ficou preso no passado".
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em 07:44 PM
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abril 20, 2004
A profecia
Todas as pessoas descrevem o amor de igual maneira. Será porque é esse o verdadeiro amor ou porque todos aprenderam a mesma linha no manual da etiqueta e agora a repetem decorada e sem sentido?
Quando era criança sonhava com o amor que todas as crianças sonham. Perfeito, imutável, branco. Hoje sonho com o amor desmedido que é mutante e arco-íris.
Sorrio sempre quando me falam de amor. O amor... O amor. Só o nome é poesia. A simples palavra é um mistério nectarino.
Deliciamo-nos com ele nos lábios. Mesmo quando não o temos sugamos as suas sílabas com fome, fome de amor, atenção e ilimitada paixão.
Eu era ainda menina e ouvia quieta condenarem o amor à morte. Sentava-me nos canteiros e tecia nas minhas mãos uma devoção desmedida. Tecia-a com lã de sonhar.
Depois cresci e ouvi as mesmas vozes que condenaram o amor à morte dizerem-me: "ahh...o teu grande amor, o teu único amor, o incomparável, o desmedido, o teu, o tão teu...". E sorria amargurada, balançava a cabeça e olhava as pequeninas mantas de lã de sonhar queimadas, destruídas.
Ouvia-os um por um assumirem os seus erros, abraçarem-me, murmurarem que nunca mais eu iria amar assim, que amar de forma tão intensa nos gasta a vontade e a força de amar. "O amor é um poço que seca quando o sugamos tão freneticamente. Quando se ama assim só se ama uma vez e nunca mais. É a maldição... a maldição da lua" e abraçavam-me compadecidos da minha dor e miséria. Tão nova e já víuva. Víuva do amor.
Já tão nova e prematuramente seca. Eu sorria. Sorria com as lágrimas a escorrerem-me pela cara e o nome dele atravessado nos lábios.
Hoje não sou tão nova. O amor, esse, foi ingrato comigo e escorre-me pelos dedos sempre que o tento agarrar. "É a maldição da Lua", lembram-me eles exaustos da minha dor e luto, "a lua amaldiçoa os seus filhos que sonham dessa maneira, tão jovens, imaturos, puros, inocentes, eternos amantes dos momentos em que ela os banha com o seu brilho prateado... Ela tocou-te uma vez e nunca mais. Nunca mais". E em vão murmuram ladaínhas de histórias trágicas, heroínas virgens e mortas, amores terminados, amores impossíveis como foi o meu. O meu era impossível, decretaram eles. E eles sempre tiveram razão. E quando não a tinham compravam-na.
E depois lançaram-me o corpo moribundo do Amor nos meus braços. Atingido por milhares de setas envenenadas. Morreu ali, nos meus braços, sufocado pelo próprio sangue cor de arco-íris.
"És minha... para sempre..." gemeu ele no seu último suspiro e eu soube que era uma profecia.
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em 09:22 PM
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Reflexão
As palavras são segredos que com o tempo aprendemos a desvendar.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:06 PM
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abril 19, 2004
Força motriz
No silêncio de mim procuro-te.
Em vão. Aqui apenas tropeço em despojos,
sirenes, lágrimas solidificadas, sonhos desfeitos,
alguns traídos, alguns que nem foram sonhados,
alguns que ainda respiram (moribundos e em agonia).
Procuro-te.
É essa a força motriz
que ondula o meu corpo
e o abraça, como uma criança abraça a mãe
após ter caído e rasgado o joelho.
Eu não rasguei o joelho.
Eu rasguei o coração.
Publicado por Fairy_morgaine em 06:34 PM
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O rapaz que não sabia sonhar
Era uma vez um rapaz que não sabia sonhar. O sonho tinha-lhe morrido nas mãos, tinha-lhe escorrido pelos dedos, tinha criado um lago de paz e serenidade onde ele nunca se sabia banhar.
Nesse lago surgiram sereias, pequenas fadas, homens sábios, crianças nuas, mulheres tolas, unicórnios e sorrisos.
Só o rapaz que não sabia sonhar não via que a ausência de sonho era Mãe daquele cenário tão único.
Sentou-se a ver a sentir o Sol queimar-lhe a pele branca e os dedos percorriam a areia da praia, da praia que era tocada pelo lago do seu sonho.
E ele não o sentia.
Então um dia choveu. Choveu muito e o rapaz-que-não-sabia-sonhar não se quis abrigar da chuva. Quis ficar sentado numa rocha antiga e pintada de prata (mas ele não via a prata só via a rocha) a ouvir o vento zangado. Nunca ninguém lhe disse que o vento estava zangado porque o rapaz-que-não-sabia-sonhar era seu neto afastado (nas linhas da hereditariedade ninguém nota o trabalho moroso da natureza para tornar o avô vento num rapaz branco e que não sabe sonhar) e então rugia, rugia enlouquecido de dor e mágoa pela definitiva perda do sorriso desse seu neto tão belo, tão branco, tão só, tão sem sonho.
Quando a chuva terminou o rapaz deitou-se devagarinho na lama, criou raízes e tornou-se num carvalho imponente e grande. Os seus ramos cresceram mais altos que todos os outros, mais longe que todos os outros, mais perfumados que todos os outros.
As folhas cresceram, depois delas pequeninas flores brancas e em seguida suculentos frutos de pele lustrosa e sabor ácido.
Ao seu lado o lago morria. O lago que nascera dos seus sonhos, dos seus sorrisos, das suas inocências resgatadas e eternizadas nas águas azuis e serenas.
Os anos passaram. O Sol brilhava intensamente no lago dos sonhos do rapaz-que-não-sabia-sonhar. As fadas voaram, o unicórnio tornou-se decadente e quebrado, as sereias asfixiaram queimadas pelo sol e choraram porque nunca mais a chuva viera abençoar de vida o lago de Sonho.
Só ficaram as águas serenas e tristes e o carvalho já antigo, já rugoso, já cansado de estar ali de pé a ver o tempo correr.
Até que numa tarde de primavera, o carvalho-cansado-antigo-rugoso que fora o rapaz-que-não-sabia-sonhar, sentiu a seiva subir pelo tronco e sairem por frestas que se abriram na casca grossa, descerem atraídas pela força da gravidade, como lágrimas leitosas e puras.
O vento rugiu e a chuva voltou a cair no vale, numa torrente que parecia nunca mais parar... O velho carvalho gemeu e as suas raízes libertaram-se do chão e fizeram-no cair, desamparado na terra que tantos anos o tinha alimentado e protegido.
Não conseguia mais suportar a solidão, nem os pássaros, nem os animais que alimentava conseguiam dar sentido à sua existência . A chuva continuava a sulcar a terra furiosamente. O vendaval continuou por três noites.
No final da terceira noite a chuva finalmente começou a ceder. O ar foi cortado por um choro e abrigado nas raízes do velho carvalho estava uma criança, um bébé pequeno, branco e magro, um ar de anjo nas bochechinhas rosadas.
Um homem resgatou-o. Um homem bom e pobre que o criou entre bolotas, sorrisos, sonhos e lendas.
Ele cresceu e tornou-se um rapaz bonito e saudável. Mas um dia acordou... Acordou e descobriu que não sabia sonhar.
Então desceu, banhou-se no lago de águas paradas e podres e quando saiu deitou-se ao lado do carvalho, as mãos a percorrerem o tronco musgoso.
Deitou-se e ficou ali muitos, muitos anos. O vento nunca mais tocou o carvalho cansado e o seu habitante febril.
Dizem que ele ainda lá está, deitado no carvalho a alimentá-lo das suas lágrimas e pedaços de sonho que nunca coube sonhar.
As fadas vão afagá-lo de vez em quando, dizem os habitantes daquela vila. Ele não as sente, porque só sabe chorar e afagar o carvalho antigo.
O homem pobre e bom, esse enlouqueceu em busca do rapaz-que-encontrara-numa-noite-de-chuva e que era toda a sua vida e o seu sentido.
Entregou-se ao vento, num sacríficio último e nas noites de Lua é ainda possível ouvi-lo a chorar e gritar: "filho...filho eu ensino-te a sonhar...vem...eu ensino-te".
Mas o rapaz não o ouve. O rapaz só ouve o vazio. O rapaz é o ser mais belo do vale. É um anjo que caíu do céu, dizem as gentes da terra. É assombrado pela dor de viver, dizem as velhotas enquanto bordam. É filho das fadas, é amigo dos deuses, murmuram à noite quando embalam as crianças.
O rapaz... nunca soube sonhar porque a sua pele era de sonho e ele não viu, garante as mulheres.
Eu digo que o rapaz era docemente humano. E por isso morreu por um sonho que não soube sonhar. Sem saber que a vontade é o sonho... O sonho que nascia na sua alma e brotava dos olhos em dias de vento e mar.
Publicado por Fairy_morgaine em 12:16 PM
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abril 16, 2004
Traição
O tempo desacelera dentro de mim.
Só os meus dedos se mexem para tentar expressar algo que os meus lábios não conseguem. O sono gelado da morte. Aproxima-se terrível e grandioso. Nestes momentos morro para o mundo e renasço para mim.
Afasto o corpo da estrada para não ser atropelada de novo. As pessoas passam mas raramente vêem os corpos que estão deitados no asfalto. Têm pressa de chegar. Onde, não sei. Pressa de chegar a qualquer lado que não seja aquele de onde vêm. Qualquer um onde possam fugir de si mesmas e das vozes que as acusam. Há sempre em nós uma voz estridente que nos acusa de qualquer coisa. De certeza que tu também a conheces e a odeias.
Ela incomoda. Tal como eu incomodava. A minha voz. O meu tom de voz. A minha voz acusadora e pressionante. A minha voz estridente. A que odeiam. Porque é estridente. Porque incomoda.
A minha voz atravessa os ossos. Entra pela boca, sai pelos olhos, deleita-se com as entranhas. Foi o que me disseram no tribunal. Mas disseram ainda mais. Disseram que era condenada por ter uma voz que acusa.
Uma voz proibida aos mortais.
Existem pessoas que chamam consciência a essa voz. Outras chamam-lhe voz interior. Eu digo que é um demónio que nos lambe as mãos. Porque todos os demónios foram belos anjos, puros, inocentes. E depois cairam, loucos de sofrimento e horror.
Eu sou o teu demónio. Eu sou a voz que grita no escuro e te incomoda. Eu sou a voz que te viola a mente.
Por tudo isso sou condenada. Arrastaram-me o corpo pela lama até uma árvore onde me amarraram e chicotearam. Deram-me o meu sangue a provar. Eu conheço-lhe o sabor. E sorri.
A voz morreu-me nos lábios entreabertos.
Depois arracaram-me a língua e sussurram-me ao ouvido: "para que nunca mais fales, nem corrompas os tímpanos dos outros, para que nunca mais acuses, para que nunca mais sussurres, para que nunca mais sejas gelo, para que nunca mais cuspas palavras que são dedos esticados que nos condenam".
E deixaram-me ali. Entregue aos cuidados da natureza. Choveu como nunca chovera antes, no meu mundo. Contorci-me febril.
Arranco-te de mim. Perdi toda a noção, todo o rumo. Amanheceu lá fora e eu não disse nada nem nunca mais vou dizer porque já não posso.
Por isso atirei-me na estrada. Para que me atropelassem tantas vezes até a dor passar à força de sentir dor física. Mas nem assim melhorei. Por isso agora afasto-me para não ser atropelada de novo.
Olho para o céu. Quero acreditar que um anjo me vem resgatar. Mas nunca ninguém vem. Só a chuva. E dentro de mim nada mais ficou que o vazio.
Publicado por Fairy_morgaine em 08:46 PM
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abril 15, 2004
Ópera dentro do coração
(Ela)
Cresce em mim uma vontade de gritar.
Quebrar os vidros. Quebrar-te e às tuas certezas,
despojar-te de emoções, despir-te, humanizar-te, comer-te...
oh sim comer-te, trazer-te em mim, penetrar-te os olhos
com os dedos, assimilar as tuas experiências,
ver pelos teus olhos, ver o teu corpo nu no acto do nascimento,
deitar-me a teu lado anos a fio, ver o teu corpo crescer.
(voz)
e depois, depois, depois do acto do amor, do acto de pavor
o que resta? restas tu... ah só tu. a tua alma desprotegida dos ataques
falsos e cobardes da filosofia que te enche de dúvidas.
merda para a filosofia, para o certo e o errado, para a complexidade,
para a simplicidade também, para a dualidade de sentimentos e emoções
roufenhas. ah amor. o que amo em ti é a ausência de espírito,
os olhos vagos de qualquer espelho de alma.
entendes finalmente que em mim ninguém pode viver?
(eu)
Sou um campo, um campo minado de incertezas, sou um ponto de interrogação,
contorcido sobre si mesmo, a espinha torcida em dor, a pele queimada,
toda consumida em ácidos que nunca tomei e me fizeram engolir:
"faz bem, vais ver, vais ver mais longe, vais ver branco e azul,
vais ver verde, negro, vais ter o arco-irís dentro de ti".
(outros)
a quem importam os teus gritos, os teus silêncios e ausências dentro de ti mesma?
diz-me. és patética. o corpo agarrado em espasmos.
liberta-te. voa. tu sabes voar. só tu sabes voar. ninguém te pode ensinar.
dos teus olhos nasceram pombas negras. e elas ainda voariam, não tivessem
sido abatidas no natal passado para aquecerem os pézinhos de Cristo.
assassinaram as tuas pombas. não... não chores. não vale a pena.
ninguém vale a pena.
(eu)
Tudo vale a pena se a alma... (a quem quero eu enganar?).
Calo, calo, calo, calo tudo em mim. Prendo, repreendo, amarro,
não liberto, não, não, não, não liberto.
O grito rasga-me a garganta ao meio, o sangue jorra para o chão.
(outros)
o teu sangue... aquele que cospes e engoles com uma velocidade medonha.
quem és tu, anjo-menina-demónio-mulher?
não. não sorrias esse sorriso escarninho. de nada te adianta.
entendes isso? entende que em ti nem mesmo a filosofia pode proliferar.
(eu)
Sim. Sou árida. Sou seca. Sou imperfeita. Sou cruel.
Porquê? Porquê?
(voz)
esconde-te de novo.. como és cobarde.
esconde-te deles. dos que te magoam. não os rasgues de novo (riso louco)
rasga-te a ti. ÉS LOUCA. como pode alguém não retaliar?
(eu)
(silêncio)
(outros)
VIRGEM MARIA, CHEIA DE GRAÇA...
(voz)
derrotada.
assume.
(eu)
NÃO! Ainda não morri. Eu vivo... eu respiro!
Eu vou aprender a ser eu.
(voz)
de novo o grito do silêncio... até quando?
(outros)
vem... vem até nós. vamos julgar-te.
(eu)
Assim seja.
Publicado por Fairy_morgaine em 06:15 PM
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Solidão
No fim, apenas a solidão é palpável.
Ouço as vozes lá fora dizerem
que nunca estou só, que tenho os seus corpos
e as suas almas para me alimentar.
Mas o negrume que me cresceu no ventre
só eu posso entender. Só eu
consigo sentir. É mais do que uma simples tristeza,
é mais do que amargura, é muito mais
que um corpo que escondo.
Dentro de mim há um casulo.
Dentro de mim eu erigi um túmulo onde
a deixo a repousar,
eternamente bela e jovem.
As mãos quedadas nos seios,
a selarem o coração.
Um dia ela sussurrou-me,
a voz parecia uma melodia tão antiga
como a canção nocturna do vento,
e no entanto o seu canto era jovial
e inocente. E ela sussurrou-me:
"vou dormir. acorda-me apenas
quando alguém chegar. até lá sorri.
sorri e inspira fundo. vou inundar-nos
com a água do tempo. o tempo é uma água
que Poseídon não soube controlar.
espalhou-se pelas frestas das casas,
pelos frutos, pelas romãs,
e agora é toda a realidade.
só o tempo... só o tempo é real aqui dentro,
dentro de ti"
Depois desse adeus sem palavras,
deixei-a adormecer e beijei-lhe a testa.
Ela ainda dorme dentro de mim.
As vozes dizem-me que a sentem. Eu
apenas sorrio. É impossível.
Porque ela dorme em mim.
A doçura, a beleza, o ar de anjo
é dela. É só dela. E eu não o sei ter.
A mim pesa-me. Desfiz a beleza em fios de
algodão, prendi os pulsos com eles
à árvore mais próxima e deixo-me beijar
enquanto dos olhos me escorrem lágrimas
lágrimas de tempo, não são de água as minhas lágrimas,
são de tempo.
O tempo que me cresce em mim e me inunda.
Mal consigo respirar.
E ela dorme ainda. Por vezes quase juro
que a vejo sorrir.
Mas é mera ilusão. O tempo cobre-me os lábios,
sela-me os olhos, abandona-me moribunda dentro
deste casulo onde ela nos encerrou.
"Quando morrer quero morrer contigo"
beijo o seu túmulo de cristal, arranho-o,
abraço-o..."volta...volta para mim... não me deixes
sozinha.. NÃO ME DEIXES SOZINHA COM ELES"
Publicado por Fairy_morgaine em 05:43 PM
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abril 14, 2004
Procura febril
Procuro a tua mão, a tua sombra
nas ruas, nas esquinas,
corro e corro e corro
e procuro-te sem cessar,
olho para os espelhos,
dentro dos caixotes,
nos bolsos das crianças,
nos rebuçados ainda por desembrulhar,
procuro-te na tinta das paredes,
procuro-te ainda nos filmes,
nas músicas,
no vento norte,
nos olhos do meu irmão,
no regaço da minha avó,
no bigode do meu avô,
na água do banho, na alface,
no arco-íris de oito cores
(o meu arco-íris tem mais uma cor e mais um tesouro),
no sapato da Cinderela.
Procuro os teus olhos dentro do tacho
e não estás,
procuro a tua boca na maçã vermelha,
na lágrima do gato persa da D. Maria do terceiro andar,
no assobio do vento,
no dente podre do presidente,
no cabelo loiro do bébé
e não te encontro.
Procuro-te no peito do meu amor,
procuro-te na minha pele ao acordar,
nas minhas pantufas velhas,
na promessa de um dia melhor,
vou pela manhã a procurar-te,
baixo-me para espreitar pelas saias
da menina gótica do metro
e não te encontro,
eu nunca te encontro,
eu busco-te e não te sei.
Numa última tentativa
tento ver-te na Lua,
na nuvem, na fauna,
mas não estás.
Não me surpreendo por não estares.
E no sonho, à noite,
busco-te ainda,
as mãos trementes de ansiedade
e não te alcanço,
estremeço e não te sinto.
Acordo suada pela viagem,
torno a buscar-te no espelho,
na sanita, no prato,
no quotidiano,
na filosofia, na psicologia,
na matemática,
nas flores, em Beethoven,
espreito-te em Dali e não, não te encontro.
Mas não páro. Parar é morrer.
A busca é que me alimenta,
a procura de ti,
de Ti,
de ti que me escondes a mim,
que me encerras, me ocultas,
me embriagas,
me seduzes,
me amarras
e me aqueces, me dás vida
para buscar-te, para te amar,
para ser tua, para te querer,
e não recuar perante nada,
perante NADA e
amanhã é outro dia e vou-te procurar
nos mesmos sítios,
em sítios diferentes,
em sítios ousados,
em todos eles, em todos, mesmo em TODOS
porque tu... tu és EU.
Publicado por Fairy_morgaine em 10:31 PM
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abril 13, 2004
O porquê do ser
O amor é o sentimento que nos faz rastejar na direcção desse Sol que ofusca, da Verdade que não começa nem termina, que é espiral de vida e de morte.
O amor é a única esperança que remove o ser humano dos seus próprios dejectos e o faz procurar uma sombra que lhe permita curar as suas feridas abertas e fétidas.
O amor é um doce engano um véu que nos cobre os olhos e nos faz ver a vida por outros tons, outras linhas, outros pontos finais.
Será possível amar a mesma pessoa anos a fio? Será que essa pessoa ao sofrer a mutação que se sofre sempre no continuar da vida ainda nos irá preencher, mesmo 20 anos depois? Ou tudo não passará de uma mera ilusão que nos faz procurar, procurar incessantemente esse amor perfeito, essa comunhão eterna?
Será o amor exclusivo? Será o ser humano monogâmico? Será a fidelidade um conceito parco e em decadência?
Será que o cíume permite que o ser amado nos rejeite, na busca de outra alma, outras características, outro sexo? Porque dizer: tu não me chegas, tu não me completas... é mostrar-nos inúteis, é rejeição disfarçada.
Poderá o ser humano encontrar o equílibro na linha do amor, da paixão?
Não será inevitável que o fascínio nasça entre outras pessoas, várias pessoas, que nos fascinam, nos apaixonam?
Dar forma aos pensamentos é agudizá-los, é torná-los nítidos, é dar-lhes validade.
Não posso fugir deles. Eles vivem em mim.
Eles nascem de mim. É na procura das respostas que a minha vida se justifica. A busca do porquê do porquê.
O porquê... do ser.
Publicado por Fairy_morgaine em 11:56 PM
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abril 12, 2004
As palavras que ensinaste o silêncio a calar
- Deixa-a - exigiu Ela, as faces rosadas de raiva e desespero, as mãos crispadas e pálidas.
Não aguento pensar que ela te tem de uma forma que nunca poderei ter, não aguento - e deixou escapar um suspiro de cansaço e dor.
- Pensar que ela te tem todas as noites a seu lado, que te pode percorrer a pele com a língua, que pode despir-te e observar-te nu, deitar-se nas tuas costas, beijar-te a nuca, desenhar o teu rosto, não aguento, não aguento, o cíume corrói-me...
- Ela tem-te e eu não, ela move-se contigo dentro dela e eu não, ela pode consumir-te e eu não... é demasiado doloroso - encolheu-se no seu próprio corpo e chorou as lágrimas de sangue que lhe escorriam do coração.
- Diz-me que me amas a mim e não a ela, diz-me que me queres a mim e não a ela, diz-me que pensas em mim enquanto a penetras, diz-me que sou eu e não ela, DIZ-ME POR FAVOR, não aguento a consumição do desejo... do cíume que me rói por dentro, o cíume rói sabias? - apertou-o contra Ela, apertou-o e crivou-o de beijos sôfregos.
- Quero descobrir as tuas fantasias, quero realizá-las, não quero que a tomes hoje, não faças nada com ela hoje, hoje não, não quero pensar que a fodes enquanto durmo na cama que não te tem e nunca te terá, diz que me queres, que me desejas, diz que me queres agarrar, que me queres rasgar de tanto me possuir.
As palavras eram torrentes, eram rios que lhe desciam pela garganta.
- Amo-te, amo-te, não aguento mais sem gritar, não aguento que a queiras a ela e não a mim... Diz-me ao menos que hoje não a vais ter... Diz-me que comigo farias amor loucamente...
- Diz-me todas as palavras que ensinas-te o silêncio a calar...
Escrito por Ela
Publicado por Fairy_morgaine em 11:45 PM
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My immortal
Tu disseste: "és imortal em mim".
Tu disseste: "és única".
Tu disseste: "marcaste a minha vida e o meu futuro".
E choraste todas as lágrimas que nunca te vi chorar.
Tu disseste: "nunca me deixes".
Tu disseste: "vou partir".
Tu disseste: "não aguento viver com o cíume...o cíume mata"
E semeaste todas as lágrimas que nunca quis chorar.
Tu disseste: "dá-me os filhos que nunca me deste".
Tu disseste: "nada faz sentido.. tu és o sentido para mim".
Tu gritaste com a voz num murmúrio: "amo-te".
E paraste o tempo naquele momento
em que me penetraste, em que escreveste o teu nome em mim
a sangue virginal e eu te tatuei as minhas mãos
nas costas para que nunca mais outras mãos
te soubessem às minhas. Para
que nunca mais outros lábios
te matassem a sede dos meus.
Disseste: "não é um adeus"
mas eu sei, eu sinto,
que é mais que um adeus.
É uma morte anunciada.
Publicado por Fairy_morgaine em 10:42 PM
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abril 11, 2004
Sem rumo
As coisas não fazem sentido.
As palavras não fazem sentido.
Tu não fazes sentido.
Eu não faço sentido.
A verdade não precisa de sentido
para doer.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:19 PM
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Três amanhãs
Três destinos, uma única mulher.
Três momentos, um só tempo
a roçar o infinito.
Três filhos e um só chorar.
Apenas um sorriso
para três lábios.
Apenas três amanhãs para a humanidade.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:16 PM
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Voltei
A todos os que me lêem um beijo. Estive ausente durante alguns dias. Mas voltei :)
Espero que todos tenham passado um excelente fim de semana alargado (para os católicos espero que tenham passado uma boa Páscoa).
Voltei às palavras... Inspirem fundo. Aí vamos nós.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:15 PM
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abril 07, 2004
Palavras
Estou oca de palavras.
Elas fogem-me pelos dedos. Formam rios de cera que se cristalizam nas palmas das minhas mãos.
Ficam ali a sorrir-me e eu a murmurar-lhes baixinho que preciso delas, preciso moldá-las... Mas elas não se importam. Elas nunca se importam com a vontade da pessoa que as toca.
Ainda tento seduzi-las com promessas de poemas, com curvas de frases... é impossível.
Sorriem-me e cantam-me músicas suaves. Depois fogem de novo, crianças traquinas e sardentas que se afastam das minhas madeixas de cabelo escuro.
Depois repousam no meu colo. Evito de me mexer, até de respirar para as sentir ali, serenas.
Esses momentos são céleres. De novo acordam e se aninham no meu pescoço, contornam-me os lábios, penduram-se no nariz.
Já não as quero capturar. Só as quero ver brincar. Vê-las sorrir.
Senti-las dentro de mim, fora de mim, no meio, em todo o lado. Amá-las.
Afinal parece que não estou oca de palavras.
Simplesmente elas não se querem partilhar. São minhas. Apenas minhas...
E não querem ser aprisionadas neste espaço-tempo do agora.
Querem eternizar-se em mim. Como um quadro que fica para sempre tatuado na alma.
Para sempre.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:52 PM
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Verdades
As verdades são como o Sol.
Ofuscam-nos os olhos.
Queimam-nos as írias.
Não podemos ter mais do que um vislumbre da sua luz
ou então um calor dos seus raios,
como braços de mãe que nos afagam.
Publicado por Fairy_morgaine em 09:11 PM
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abril 06, 2004
Adeus
Venho aqui, a esta rua, a esta casa, a este quarto, a esta janela sussurrar-te que preciso que me deixes em paz.
É que ser assombrada por fantasmas é um pouco ridículo e talvez até mesmo absurdo.
Estás sempre em mim e eu não quero trazer-te agarrado à minha pele. Os nossos destinos romperam-se e tu, hoje, já não me recordas. Para ti não passo de uma criança que se sentou ao teu colo, te beijou a face e te recusou os lábios.
Sei que esqueceste o meu nome, agora sou só um espectro de qualquer coisa que signifiquei para ti, ou um espectro de nada, talvez nem seja, o que ainda me angustia mais.
Porque tu foste o meu sonho mais amado, refinei a tua imagem, cinzelei o teu rosto, reconstruí-te em mim a cada noite, a cada momento em que me apertava contra mim mesma na cama fria.
Foi o teu nome que chorei por entre noites de inocência queimada. Foi o teu perfume que quis impregnar para sempre no meu pescoço para que nenhum outro se colasse a mim.
Mas isso foi num outro tempo. Eu era outra menina. Hoje sou uma mulher. Tenho as veias abertas a salpicar o chão e as paredes com o meu sangue.
Quero que deixes os meus sonhos. Quero que me devolvas o meu sono. Quero que te apagues de mim.
Ou será que em ti me procuro a mim? Dei-te uma parte preciosa de mim que talvez já não guardes, pelo simples facto de que nunca soubeste que a tinhas.
Dei-te o meu eu-menina. Ainda o escondes em ti? Importas-te de me deixar beijá-la uma vez mais no rosto?
Sinto falta dela.
Por favor... Deixa o meu sonho comigo. Não o invadas. Ele precisa voar.
Agora parto... Estar aqui nesta rua, nesta casa, neste quarto, nesta janela ainda é profundamente doloroso e exige de mim as poucas inocências que guardo.
Deixo-te aqui. Onde estarás sempre. Na minha memória. Na minha alma.
Mas não no meu sonho... por favor.
Deixo-te...
Adeus.
Publicado por Fairy_morgaine em 11:40 PM
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Dá-te
Dás-me o teu sangue quando anseio água.
Dás-me o teu rosto que me arranha suavemente
para que eu te beije o queixo,
te lamba os lábios apenas com a ponta da língua.
Arrancas a tua pele para me cobrires.
Embriagaste em mim e no meu cheiro
embora saibas que te drogo nas minhas complexidades.
Gemes quando te espremo as feridas,
as abro, as purgo, as limpo,
tirando delas palavras, pontos, reticências,
dás à luz silêncios
com que me cobres os ombros.
Soluças a minha ausência,
desenhas-me nua na madeira da mesa,
contornas-me,
abraças-me,
beijas-me
e... e... e...
e não sei.
Que fazes depois?
Grita-me.
Quero ouvir...
Quero ouvir o grito que irrompe
da tua garganta,
quero sentir os poemas que me inspiras
a romperem-te os olhos,
a cairem no chão.
Dizes com sorrisos amplos
que não comentas,
não me desvendas a tua alma
e por isso te amo de uma forma
absurda. Por isso te pego suavemente
com as minhas mãos pequeninas
e te aperto contra mim
como se fosses o boneco
que me apagava as lágrimas
enquanto menina.
Entras dentro do relógio,
pulas os ponteiros,
seguras-me na tua imaginação
nas telas que constróis.
Sonhas-me e eu sou tua.
Presa no sonho.
Presa em ti.
Bebo de ti para em seguida
te dar a beber de mim
como um ciclo abençoado
de fluídos, de trocas, de necessidades.
Dás-me do teu sangue quando anseio água.
Descubro que só dele consigo beber.
Só tu me matas a sede...
Só tu...
Dá-te...
Escrito por Ela
Publicado por Fairy_morgaine em 06:47 PM
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abril 05, 2004
Eu
Estou tão seca de ser eu.
Quero arrancar-me pelos olhos e deixar a carcaça a apodrecer no colo da minha mãe. Só ela, que me pariu pode beijar-me a face fria e os lábios retorcidos na palavra puta que não me chega a escapar enquanto morria a olhar para ela e os olhos marejados de lágrimas.
Tenho as órbitas comidas pelo ácido das lágrimas, tenho a pele queimada e descarnada a querer separar-se do crânio à força de me arranhar em desespero.
Tudo me enoja, tudo me cansa, tudo me rasga os pulmões tão frágeis de engolir este ar, de engolir as palavras, de engolir tudo.
Todas as palavras que me cospem morrem-me no estômago onde se misturam com a carne vermelha-sangue e numa mistura quase fatal me roem por dentro.
Puxo os que amo para perto de mim mas quebro-os, quebro-os à força de me olharem os olhos comidos pelas lágrimas ácidas, horrorizo-os, pobres deles que estão destinados a escancarar a boca enquanto os faço engolir pedaços de mim que arranco do ventre.
Depois mando-os embora, e consumo-me na miséria de estar sozinha, acompanhada tão só de mim e das minhas ironias.
Sempre tive os trunfos na manga, sempre fui eu que ditei as regras de todos os jogos e porém queixava-me que eram os outros. E deitei-lhes as culpas em cima de todos os meus erros, de todas as crianças que não acariciei, de todos os amantes que não amei, de todos os livros que não li.
Criei uma aura tão merdosamente inocente que só me apetece dançar nua na rua para pararem de dizer que boa menina eu sou. Quero gritar e gritar e gritar até que lhes expludam os tímpanos. Eles são tão surdos que só lhes poupava o trabalho de fingirem que ouvem.
E continuo silenciosa. E todos os outros me sorriem tristemente porque se sentem ultrajados com este silêncio que me faz viver num mundo à parte.
Mas eu estou aqui... Estou aqui e no entanto não moro em casa nenhuma, não sou de homem nenhum, não me agarro a nenhum sentimento linear e pacífico.
Onde é que falhámos - pensam eles. E têm de pensar porque criar uma gaja que resolve a meio da vida que mora num mundo que é podre e é dela e não deixa entrar mais ninguém é algo passível de pena de morte.
Porque é que ela não é normal, não come o que os outros comem, não fode como os outros fodem, não se arrasta como os outros se arrastam, não se queixa como os outros queixam, não grita como os outros gritam?
Porque é que ela grita quando estamos todos calados, porque é que vomita quando o lençol é mudado, porque é que lê estes livros que ninguém lê, porque é que vê filmes que ninguém vê?
ONDE É QUE ERRÁMOS?
E eu não digo nada, eu nunca digo nada, eu não me queixo, eu não me valho a mim mesma, eu deixo-me cair para aprender a levantar-me, eu deixo-me cair para aprender a estar caída, eu sou eu, eu sou estupidamente eu, eu quero ser outra e não sou, eu quero ter tudo e não tenho, eu quero ter o nada e não posso, eu quero, eu, eu, eu, eu, eu...
Mas será que ninguém lhe ensinou o resto dos pronomes pessoais? rebentam eles e dilaceram-me, é demais, é demais, não há poesia que te valha, pára de ser estúpida, pára de ser egoísta, pára de ser diferente...
Estou mesmo seca de ser eu. Adormeci assim que me ensinaram o tu, ou lá o que o valha, e o resto então fez-me rebentar a rir tal é o absurdo do ele, do nós... Nós? Peço desculpa mas preciso rir mais um bocadinho... Vós e coisas assim parecidas.
O mundo é um receptáculo de Eus, todos somos eus, tu és um eu, e eu nem sei, eu sei lá o que sou, eu sou uma merda qualquer mas sou.
Preciso parar. Preciso parar que hoje ainda rompo as últimas amarras que me agarram ao mundo, à vida, à sanidade.
Vou viver mais um dia, vou comer mais um dia, vou trincar mais um dia, vou aguardar mais um dia, vou fingir mais um dia, vou pintar mais um dia, vou escrever mais um dia, reinventar mais um dia, acelerar mais um dia, vomitar mais um dia, deglutir mais um dia, vou rebentar mas não hoje, vou gritar mas não agora, vou triturar mas é só depois, vou chegar mais além num qualquer momento.
Por agora fico por aqui... Aqui neste lugar que não conheço, neste corpo que não é meu, estes olhos que são comidos pelas lágrimas, este rosto que arranho todas as manhãs, fico comigo, fico sozinha porque nem comigo consigo estar, mas fico, prometo ficar quieta não vos incomodar a benéfica surdez, não vos incomodar com a minha parca existência, vou fazer tantas coisas, vou elaborar mil planos, vou falhar todos eles, vou chorar a sua morte, vou reerguer-me das suas cinzas, vou tão só seguir a rotina, vou ser boazinha, não me vou despir, não vou dançar, JÁ DISSE QUE NÃO VOU DANÇAR... Guardem os frascos de remédio, peguem nos vossos psicólogos e arrumem-nos nos vossos bolsos, as vossas modernas bíblias que ensinam o bem estar em vinte passos, eu não acredito nisso, eu não acredito em vocês, eu nem acredito na vida, eu quero acreditar apenas no sonho, eu quero apenas trazer palavras, eu nunca mais vou comprar livros, nem ver filmes, nem passear, nem ver a Lua, nem falar.
Eu vou parar de falar, eu vou parar de falhar, eu vou até parar de escrever... minto. Não consigo parar de escrever.
É compulsivo. É compulsivo, mãe. Não vou ainda atirar-me no teu colo e morrer, ainda te vou enterrar, ainda vou chorar à tua campa sem ter gritado toda a merda que trago cá dentro, e ao outro então não direi nada, quero apagá-lo do meu bi, quero apága-lo do meu adn, quero fingir que o cabrão nem existe, quero rompê-lo, quero acreditar que ele é miserável como eu, quero acreditar que ele tem dor como eu, que acorda cheio de raiva de viver, quero acreditar que vai morrer de overdose ou algo ainda mais doloroso e lento.
Não vou ainda dar-vos o direito de pensar que eu morri e já não estou aqui para gritar quando não é o momento de gritar e fazer silêncio quando choram, quando se dilaceram uns aos outros.
Eu espero enquanto me ensinam os restantes pronomes pessoais. Será que quando morrer podem escrever na lápide EU e não aqui jaz a não sei das quantas, um nome qualquer e uma data qualquer e umas lamúrias quaisquer de pessoas que nem me conhecem?
Ahh... a herege. A quebrada. A insana. A doente. A sem nome. A sem pronome.
Eu.
Publicado por Fairy_morgaine em 11:46 PM
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abril 02, 2004
nós
Nunca sentes esta necessidade de gritar?
O peito a pulsar,
o som atravessado na garganta,
esta ânsia, esta terrível angústia
de te abraçar,
de te agarrar,
de te fazer olhar para mim,
tão só para mim
e ver-te com os olhos rasos de lágrimas
perante a visão.
Esta intensa necessidade de te ter
junto a mim,
lamber a tua voz,
engolir toda a tua mente...
Saber-te em mim.
De te amarrar aos meus pulsos
atravessar-te de beijos,
afagar-te até que o Sol se deitasse com a Lua...
Nunca sentes esta necessidade de voar?
Voar dentro da tua alma,
conhecer-te todos os segredos...
Ter-te sempre em mim,
sintonizado nas minhas nuances,
inebriado com os meus perfumes...
Drogar-te com o sabor do sal
das minhas lágrimas,
tatuar-te com o meu nome...
Queria mais que artefactos
exteriores que te dissessem meu...
queria que a minha posse estivesse pintada,
cravada onde mais dói..
na alma!
Nunca sentes esta necessidade de arder,
de nos consumir-mos
em desejos, em suspiros, em abraços,
em ternuras, em amarguras...
Saber-te todas e quaisquer
frases que pudesses
escrever nos cadernos de escola...
Rasgo-me e rasgo-te
enquanto me arrasto dentro do teu peito
a alimentar-me da tua seiva,
do teu íntimo.
Quero ver o mundo pelos teus olhos,
quero ouvi-lo pelos teus ouvidos,
quero senti-lo pelos teus dedos...
Preciso de ti...
Preciso da tua voz a acariciar-me
nas noites vazias.
Anseio ouvir-te dizer: "quero-te..."
embora a minha mente me grite
que não o dirás...
Ainda assim... espero...
desejo... sonho...
Contigo e com o teu cheiro.
Com o teu sabor a mar.
Com a tua voz deitada na palavra proibida
de querer.
E de noite agarro-me ao sonho
enquanto adormeço...
os olhos cheios de ti,
as mãos vazias de mim.
E o peito... a rebentar de nós.
escrito por Ela
Publicado por Fairy_morgaine em 11:06 PM
| Comentários (8)
Desejo
Consome-me em desejo...
Lava a minha pele no teu corpo coberto de musgo.
Tira-me a roupa... deixa-me nua nos teus braços
enquanto me apertas, me chegas contra ti.
Queima-me com beijos sôfregos,
com sexos que se roçam,
as tuas mãos presas nos meus seios,
os teus lábios a beberem as curvas dos meus olhos.
Deita-me na cama,
crava-te em mim,
faz-me suspirar o teu nome
e amar-te vezes sem conta
enquanto te digo ao ouvido
"desejo-te...desejo-te loucamente"...
E tu me perguntas:
Desejas-me porque me amas
ou amas-me porque me desejas?
E eu páro a nossa valsa
e gemo antes do orgasmo:
Desejo-te porque és tu,
amo-te porque és assim...
Tão imperfeitamente meu.
Publicado por Fairy_morgaine em 10:50 PM
| Comentários (2)
Perguntas
Pergunto-me
onde depositas o olhar
que não me vês arranhar-me.
Pergunto-me
onde vagueias errante
que não me vês procurar-te
sem te conseguir tocar.
Pergunto-me
onde te escondes
que não ouves o grito
do silêncio...
Pergunto-me...
Mas ninguém me responde.
Porque onde tu estás...
Eu não consigo chegar.
Publicado por Fairy_morgaine em 10:08 PM
| Comentários (1)
abril 01, 2004
Pedido
A tua voz serena-me.
A tua voz nos meus cabelos,
os teus ombros nas minhas mãos.
Apaixono-me pelas tuas palavras,
pelos caminhos que desbravas
em mim. Pintando-me em ti.
Fala...fala para mim.
Serena-me os ímpetos.
Prende-me aos teus pés
enquanto caminhas nessas salas
que eu queria caminhar.
Queria ir contigo.
Ouvir-te em todas as tertúlias
em que eu não estou.
Leva-me escondida nos teus bolsos.
Dá-me a mão...
Quero ser criança em ti.
Deixas?
Ensinas-me a ser mais corajosa?
Mais audaz?
Quero voar mais alto,
mais longe, mais para dentro,
mais para fora.
Quero voar com a tua mão
na minha.
Quero ser tua filha, teu amor,
tua herdeira,
quero aprender os teus abecedários,
quero ser a tua princesa,
quero ser a criança
que ensinas a caminhar.
Dás-me as tuas asas?
Crias-me novas asas?
Deixas-me voar nos teus jardins???
Deixas?
Prometo aprender...
Prometo aplicar-me.
Prometo...
Prometo...
Deixas?
Serena-me de novo.
Estou a ser impulsiva como sempre.
Estou a ser quebrada.
Estou a quebrar-te.
(deixas?..)
Não te importuno mais por agora...
Quero ver-te trabalhar.
Quero ver-te criar.
Fico aqui em silêncio
apenas a olhar-te...
(mas deixas?)
(silêncio...)
Publicado por Fairy_morgaine em 10:52 PM
| Comentários (9)
Os meus caminhos negados
Estou cheia...
Cheia de palavras. Querem sair-me todas ao mesmo tempo.
Por isso o tudo é igual ao nada. Porque quando chega não conseguimos gerir tanta vontade de partilha e acabamos por não escrever nada, não permitir que os nossos lábios se curvem no sorriso da criação. Sorriso ensanguentado.
Sabes o que é criar? Sabes mesmo?
Como podes ficar indiferente aos meus gritos, aos meus solavancos, aos meus ecos amargos de anos de solidão dentro de mim mesma e da minha carcaça?
Estou cheia.
E no entanto hesito em deixar que os meus dedos moldem o barro das frases curtas, longas, meias entupidas.
E tu tão distante. Tão entretido a ver o horizonte que se estabeleceu na linha das minhas pernas.
Não há forma de me ouvires, de me leres os olhos fartos de ti e de tudo.
A negação... A negação que me arrasta pelos cabelos pelo asfalto da tua rua e me expõe nua a teus pés e tu não vês.
Tu nunca me vês.
Nunca me amas. Nunca dizes nunca. Nunca me bates. Nunca me largas abandonada, despojada de sonhos.
Mas também nunca me fazes declarações de amor nos beirais da casa de campo.
Não vês que preciso ser apaixonada pelo proibido? Não vês que anseio os lábios que não tenho, que anseio os corpos que nunca se deitam na minha cama?
E tu tão absorto com a tua pila.
E eu que não não fico absorta com a tua pila.
E que por isso me espalho em cinzas por terrenos inférteis e beijo as sementes que ousam romper a terra.
Amor... amor... porque não crias? Porque não me sentes criar?
Porque não me engravidas de ti? Porque não entras pelos meus olhos, porque não me rebentas nos poros?
Estou cheia.
De palavras. E tu vazio delas. Roubo-tas para as espetar no papel.
Não amor. Não me segues quando vagueio sozinha sem ti nos meus caminhos. Existem pedaços de mim que não sabes partilhar, que não sabes comer.
Nem mesmo quando te abro a boca e te enfio poemas pelas goelas. Nem mesmo assim...
Nem mesmo assim...
Publicado por Fairy_morgaine em 10:09 PM
| Comentários (3)
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