março 31, 2004

Compõe-me

Toca-me como se eu fosse o teu piano.
Passeia as tuas mãos nas teclas dos meus seios,
nas notas dos meus mamilos,
faz música com os meus gemidos...

Compõe-me...
Compõe uma sinfonia perfeita
no meu sexo,
entra em mim como um maestro
que conduz uma orquestra
a um orgasmo triunfal
a uma explosão de sons e sentimentos.

Deixa que a noite nos aplauda.
Deixa que os lençois chorem
com a intensidade de Bach,
Beethoven, Mozart...

Toma-me como se eu fosse o teu violino.
Sê como o arco que rasga notas
das cordas em crescendos de sentimento.

Delicia-te em mim...
Quero que ouçam as nossas vozes
alteradas, entrelaçadas,
a cobrirem a música
de prazer.

Deita-te sobre mim.
Faz-me sorrir-te por entre
os altos e baixos dos ritmos.

Amo-te como amo a música...
Em sintonia com a sua beleza...
com o seu correr no tempo e no espaço.

Toma-me.
Compõe-me...
Ama-me apenas.


Publicado por Fairy_morgaine em 09:00 PM | Comentários (12)

Estou

Estou sem palavras.
Estou sem poesia.
Estou despojada de sentimentos...
Estou despida de ti.
Estou miseravelmente dentro de mim...

Publicado por Fairy_morgaine em 08:18 PM | Comentários (6)

março 30, 2004

memórias liláses

Existem coisas que são demasiado grandiosas para serem ignoradas.
A morte é uma delas. Quando chega é sempre devastador por muito avisadas que as pessoas estejam.
A morte nunca me meteu medo... a minha não...
Mas a ausência dos que amo apavora-me... E comigo estão todos os humanos que amam e têm medo de serem privados dos seus entes queridos.
Nunca se prepara ninguém para a evidência estonteante da morte.
Ela cobre-nos de um silêncio perturbador, que grita, que rompe, que rasga todos os possíveis esgares de sorrisos.
Hoje as perguntas eram quase palpáveis à mesa do jantar onde em vão se tentava ocultar os olhares apreensivos, os fungares e os sentimentos em catadupa.
Eles escorriam para os pratos onde os engolíamos de novo, em garfadas moles. Ninguém queria desrespeitar o silêncio.
Só eu. Só eu queria poder falar de ti, dos teus sorrisos e da tua filha.
Só eu imaginava a voz dela quando disser pai e receber silêncio, esse silêncio que nunca nos cabe nas mãos.
Nunca ninguém explica a uma criança que o corpo que jaz deitado é a pessoa que mais lhe vai fazer falta, são as mãos que nunca lhe irão acariciar os cabelos, são os lábios que nunca mais lhe vão beijar o rosto...
E ela... nunca te irá recordar. O tempo encarregar-se-á de apagar qualquer vestígio nobre que possa ter ficado na curta memória dela.
Mas comíamos em silêncio a mastigar a tua morte que está impressa em todos os nossos gestos.
O mais horrendo não é a morte... é a dor... A dor que devassa todos os familiares, todos os amigos...
Queria poder imprimir as tuas palavras e dá-las à tua filha, um dia...
Como eu disse hoje... "não tenhas medo de falar dele pois é nas nossas palavras que ganha vida e sorri por entre os nossos sorrisos".
Mas há neste momento um freio de dor que amarra todas as palavras e inunda de lágrimas os que te amaram...
Espero que seja onde for que a tua alma repouse haja paz... Aquela paz que transmitias aos outros e nunca encontraste.
Queria chorar mas só posso sorrir... Sorrir porque quero acreditar que viverás em nós... E nela... E nas memórias liláses que plantamos no chão.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:25 PM | Comentários (6)

A morte

É absurda.
É obtusa.
É indiscriminatória...

Quando chega deixa um rasto atrás de si,
de sangue, suor, lágrimas,
dejectos,
de afectos
que não se conseguem conter.

É um abraço gélido...
É medo, é sombria,
é magoada...

É a perda dos amados,
dos amantes, dos pais, dos filhos...
É uma imensidão de horrores...

É o grito.
É o silêncio...
É o grito que quebra o silêncio...

A indesejada,
a maldita,
a temida,
a mal amada,
a intensa,
a salgada,
a amarga,
a ceifeira...

A morte.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:36 PM | Comentários (4)

março 29, 2004

Busca

Nunca poderia ter-me habituado a beijos
que não me sabiam aos teus lábios.
Não poderia deixar de ansiar
pelos teus braços, quando
outros braços me estreitavam.

Nunca poderia ter amado outros olhos
que não os teus.
Nunca os seus sexos fizeram
que o meu parasse de latejar com
a fúria que é nunca ter o orgasmo
que só tu me podes dar.

Nunca poderia ter desejado palavras
que não fosses tu a proferir.
Em todos os semblantes procurava
os contornos que saberia que o teu rosto
teria de tanto o sonhar e desenhar
à noite, no frio do meu quarto.

Em todas as almas procurei pedaços
da tua, em todos os beijos o teu sabor,
em todos os sonhos a tua luz.

Nunca poderia ter cessado a minha busca
antes que chegasses.
E agora que te tenho
o tempo não me chega para te amar.


sílvia
29-03-2004

Publicado por Fairy_morgaine em 10:10 PM | Comentários (12)

Avalon de regresso

Mudei o outro lado de mim para outro servidor. São pedaços de reflexões, são críticas a livros, músicas, são partilhas, é tudo o que acho que não pertence directamente ao meu mundo mais literário. Embora esteja tudo ligado.
Para quem tiver curiosidade visite avalon do outro lado do espelho.
Beijos muito doces a todos vocês que perdem tempo a partilhar-me :)

Publicado por Fairy_morgaine em 10:00 PM | Comentários (0)

A arte

A arte é a forma mais perfeita que temos de capturar o divino.
De procurar a verdade. De atingir o infinito.
De sabermos onde estamos, para onde vamos, de onde viémos.

Sobretudo é a forma mais perfeita que tenho de me capturar a mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 12:05 AM | Comentários (8)

março 27, 2004

A todos vocês que me lêem

Criar é um acto de amor solitário que aprendemos a partilhar com todos aqueles que nos lêem e consequentemente nos despem e ficam suavemente a olhar-nos nos olhos, a sorrir-nos, a pensarem mil e uma coisas sobre os motivos e sentimentos que nos levam a escrever aquela palavra e não qualquer outra, a colocar aquelas reticências e não um ponto final.
A escrita é assim um momento em vários actos. A criação que é sempre apaixonada e no meu caso célere, o acabamento e posteriormente a leitura por todos aqueles que perdem algum do seu tempo a descobrir-me por entre as brumas das minhas próprias dúvidas e facetas.
Às vezes pergunto-me: será que entendem a coragem que é necessária para despir-mos as certezas cómodas do dia a dia e lançarmo-nos dentro de nós mesmos numa viagem em que não sabemos de onde partimos e muito menos para onde vamos?
Nunca ficarei a saber.
Mas sei que amo cada pessoa que me lê, porque é impossível não amar cada mente que me toca assim, tão nua e fragilizada, tão exposta aos beijos dos seus lábios rubros.
E é nesse constante ritmo de paixão que me entrego, que me dispo, que me reeinvento para vocês e para mim, me pincelo, me descasco até que um dia ficarei apenas eu totalmente desprovida de máscaras e enganos...
Nesse dia uns vão-me amar, outros vão odiar, outros apenas nem se darão ao trabalho, mas eu estarei feliz porque ao ver-me no espelho sou APENAS EU e não uma sílvia que moldaram e eu aprendi a rasgar.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:56 AM | Comentários (9)

março 26, 2004

Preciso que precises de mim

Anseio-te.
Preciso que me desejes, que bebas de mim
dos meus mamilos,
que sem mim tudo perca o sentido.

Preciso que precises de mim.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:28 PM | Comentários (5)

Carta aberta

Sabes.. às vezes quero-te dizer que a dor é demasiado real para ser apenas alucinação.
Às vezes, quero abraçar-te e implorar-te que não vás... Que fiques aqui e me embales como a uma criança pequena.
O pânico invade-me. Depois começo a sentir uma espiral, uma espiral que me atira contra a parede e me engole toda a vontade de estar perto das pessoas.
São as lágrimas que se cristalizam na garganta e criam um imenso nó. Elas já não descem pelos olhos. Desaprenderam esse movimento ancestral. Agora só querem viver eternamente nas minhas cordas vocais, onde se depositam e se deixam desfalecer.
Sabes... às vezes quero-te dizer que só a tua presença me acalma esta ânsia da tua voz e dos carinhos, dos afagos que habituaste a minha pele.
Outras apenas quero ficar a ouvir o silêncio gritar enquanto de olhos fechados te transmito anos e anos de fantasias quebradas e gelos que inundam o meu corpo.
Ouço músicas, vejo filmes, tento em vão esquecer o teu rosto e o calor das tuas mãos e só elas, só elas, amor, me conseguem acalmar esta intensa mágoa de todos os beijos que nunca dei.
Não consigo falar com eles, sabias? Eles percorrem a mesma casa que eu, mas são meros espectadores silenciosos das minhas constantes mudanças de humor.
Sempre tive riso fácil. Prostituo a minha boca em gargalhadas que nunca me beijam o coração.
Sempre fui a mais forte. Sempre fui o farol em dia de tempestade. Então eles acham que será sempre assim, que sempre nos maus momentos eu irei confortá-los e que também me confortarei a mim mesma.
E tu? Confortas-me?
Estou tão doente.. sinto-o nos ossos. Sinto-me a definhar, a minha mente está tão debilitada...
Sabes, amor, o cansaço é uma doença que nos deixa fracos. E eu estou tão cansada... Quando acordo penso que acordo para um novo sonho porque tudo se me é baço aos olhos.
Eu sei que isto vai acabar. Eu sei que esta espera que me gasta os joelhos vai terminar e tudo vai ficar bem.
Eu repito-o para os outros. Como se fosse uma ladaínha. Sorrio-lhes. Afago as suas temeridades e sussurro que a vida é um imenso rol de pedras na estrada e que nem por isso a estrada acaba.
E é verdade... quem acaba sou eu. Eu é que me acabo nestes silêncios, nestas constantes implosões, nestes destroços que escondo por trás do ar desleixado e confiante.
E depois inundo-te de dor e dúvidas, e lágrimas que nunca sei chorar e que só escorrem na voz.
Eu sei que amanhã é um novo dia e que eu sempre fui mestre a fingir forças e ternuras.
Eu sei tudo isso.
Fui eu que inventei as mais belas frases de consolo e depois as repeti a mim mesma enquanto no ar choviam acusações.
Fui eu que acariciei os meus dedos nas noites em que ninguém vinha ver se os cobertores eram brancos e perfumados.
Fui eu que escrevi os mais poéticos contos para me entreter os gritos que se semeavam nos cadernos, nos diários, nas paredes, nas palavras que nunca deixei sair do peito.
Sim amor. Fui eu. Eu que teci muros em volta do meu eu tão moribundo e me resgatei suavemente.
Porque não o sei fazer agora?
Porque agora não estou sozinha. Agora estás aqui. E o meu eu já não responde aos contos, nem aos meus dedos, nem às minhas frases.
Apenas às tuas.
Só a tua presença acalma esta necessidade de me refugiar.
Nunca falei a mesma língua que as outras crianças. Nunca fui inocente e pura. Mas fui sonhadora.
Ainda sou.
E depois veio a escrita. O meu pecado e a minha redenção.
Eu queria dizer que ela existe porque tu existes. Ou que ela existe porque é boa. Mas não. Ela existe simplesmente porque eu existo.
É consequente da minha voz apagada como a sombra é consequência do Sol.
Sabes... às vezes quero tão só dizer que te amo... E é essa a única certeza que tenho neste lodo que é a minha alma. Onde chafurdo nos meus próprios dejectos e indecisões.
Outras... nas outras estou demasiado entretida a fingir felicidade para me lembrar o que penso ou quero ou planeio.
Vou aguardar o teu regresso. Sei que voltas sempre para os meus braços. E eu vou alimentar-me da tua presença como um malmequer se alimenta dos raios solares.
Até lá grito silenciosamente. Para não os acordar e assustar... Vou continuar a tolerar as suas presenças tão subtis, tão cómodas, tão cegas.
Vem salvar-me... preciso de ti... A noite é demasiado assustadora. Vem... estou aqui... porque não me ouves? Onde estás? ... Quase te posso sentir, mas não te consigo tocar. Aqui ao lado eles continuam as suas vidas paralelas à minha.
À minha vida que só o é quando estás comigo.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:10 PM | Comentários (5)

março 25, 2004

medos

As pessoas nunca podem amar demais. Nunca podem sofrer demais.
Nem sorrir demais.
Senão são inocentes, patéticas, aborrecidas, sem senso, sem limites.
Os limites são uma barreira eterna que nos impõe assim que as flores das casas se tornam rubras (inicialmente eram brancas).
Depois aguardam o nosso primeiro deslize para de novo nos provarem docilmente (aquela doçura dos que nos acham perdidos para as morais e bons costumes) e dizem-nos "a falta de limites é uma linha demasiado ténue que separa a demência da vulgaridade... por isso recompõe-te e mostra-nos que aprendeste bem a lição".
E de novo voltam às suas posições nas sombras a farejar. A farejar a nossa imensidão de sentimentos.
Eles podem existir. Desde que correctamente comedidos. Desde que lineares. Desde que sejam todos eles aprendidos na escola e repetidos até à exaustão como repetimos as tabuadas e as formas verbais.
O único sentimento que podemos sentir sem limites é o medo.
Porque o medo é o ópio desses espectros que se denominam humanos.
O medo do amanhã. O medo da morte. O medo das palavras. O medo dos silêncios. O medo de mim e da minha loucura de ser tão pouco limitada.
"És demasiado..." - dizem-me eles com as bocas babosas.
"És... és... és..." e catalogam-me, reproduzem-me, despojam-me da minha unicidade.
Mas eu não sou... sorrio eu. Eu FINJO fingir e assim acalmo-lhes os anseios e os dedos em riste.
Quero ser ilimitada. Quero ser intensa. Quero ser louca. Quero ser tudo. Quero ser nada. Quero a imensidão do espaço, quero o alternar constante do tempo.
QUERO. E não tenho medo de o admitir.
Só tenho medo do medo de sermos nós.
E eu serei eu. Mesmo quando finjo ser outra.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:05 PM | Comentários (7)

março 24, 2004

teatro de sentimentos

A música é o bálsamo da alma. O teatro dos sentimentos.
Invade-me o corpo, liberta-me toda esta intensa mágoa dos dias que correm e se esquecem de mim... Imprime os meus dedos nos meus ombros à força de me abraçar, de me embalar a mim mesma.
Anathema toca uma e outra vez, dezenas, centenas, milhares de vezes até sentir que as notas do piano se me cravam na pele.
Não quero parar.
Quero que esta intensa dor se purgue do corpo, se destile pelos olhos, me morra nas mãos.

I feel I know you
I don't know how
I don't know why

I see you feel for me
You cried with me
You would die for me

Libertem-me deste destino que é doer-me toda a alma, todo o corpo e não saber de onde me nasce esta torrente de espasmos...
Matem-me!!! Matem este eu que sofre e que se abandona a si mesmo nas ruas imundas e cheias de nada.

You would die for me

Morrias comigo agora? Abraçado a este espectro aterrorizado com a hipótese de viver anos e anos presa aos limites desta realidade, desta dimensão, deste tempo, deste infinito MAS, deste eterno PORQUÊ...
Abraçavas-me a alma e atiravas-te na noite, a morrer no lago, a morrer... A MORRER... a sentir a boca, os ouvidos, os olhos, os nossos amanhãs todos hipotecados nesse momento de vida?
A vida só é vida no último segundo. Nesse espirar da corrente de ENFINS, de LIMITES, de SEI LÁS, de NÃO SEI... e eu não sei, não sei porque quero tanto agarrar-te e atirar-me ao lago.

You cannot hide
I know you tried
To be who you couldn't be
You tried to see inside of me

And now i'm leaving you
I don't want to go
Away from you

Meu amor... meu amor... não olhes dentro de mim, não vejas a face mais ímpia da insatisfação, não me queiras...
Foge. Foge das minhas constantes alterações de humor, corre e refugia-te porque eu vou-te rasgar, vou-te consumir nos meus desejos e paixões.
Eu tento. Tento ser boa, tento ser certa, tento ser direita, tento ser fascinante, tento ser válida, tento ser TUA mas só sou EU, tão só EU, apenas EU... incerta, magoada, conspurcada, tocada, quebrada, rasgada, viciada nesta permanente depressão de sentimentos poéticos e ácidos.

Please try to understand
Take my hand
Be free of all the pain
You hold inside

You cannot hide
I know you tried
To feel...

Please...try to understand...PLEASE TRY TO UNDERSTAND...e a música não pára, ela roda, ela rodopia, ela gira e torna a girar dentro de mim, a loucura tão saborosa, tão minha, tão.... (silêncio)

Eu vou parar. Vou parar o ciclo de dor e raiva. Prometo.

(mas ela não pára e consome-me até à última réstea de ternura...)

E no fim, do rosto comido apenas resta o silêncio da palavra que ela não soube libertar e nos livros do futuro nada mais constou que a cobardia da morte e da dor que é viver condenada a ser ela mesma.


Publicado por Fairy_morgaine em 07:22 PM | Comentários (8)

março 23, 2004

O sonho... parte 2

Ali estava ela.
E ele tinha partido, atormentado pelos seus fantasmas e abismos.
Tinha-a afastado, como se afasta uma tentação demasiado pecaminosa e tinha saído. E dos seus lábios nem uma palavra.
Era demasiado terrível para ser verdade e no entanto ali estava ela. Completamente só.
Não tinha forças sequer para arrastar o corpo para longe do espaço onde ele estivera e o amara de forma tão completa.
Queria apenas senti-lo mais uma vez. Poder saboreá-lo.
Sentia o peso da solidão em cada silêncio, em cada palavra que não dizia apenas porque ele não estava ali.
Ele era toda a sua vida... Ele era tudo o que precisava. Queria tomá-lo de novo e enchê-lo das suas dúvidas e de si mesma.
Poder espelhar-se nele vezes sem fim, até ao limite dos seus corpos cansados.
Queria amá-lo, queria poder ouvir o grito do orgasmo, queria ser dele... E sabê-lo seu.
Porém... estava só.
Ele tinha partido para viver longe da sua urgência, das dores que ela lhe infligia, das suas perguntas e amargos de boca.
Ele não a tinha amado e isso deixava-a com vontade de morrer.
Gritou até deixar de ouvir a sua voz... Gritou e o seu grito quebrou todos os abismos, percorreu todos os dias e tempos e espaços e voltou ainda sem o perfume dele.
E isso era demasiado injusto... Como viver se o nosso alimento é a mente do outro?
Quando a voz lhe morreu na garganta deixou que as lágrimas lhe consumissem o rosto e lhe criassem uma máscara de gesso e dor.
Terminava ali a sua força e a sua alegria.
Terminava ali a sua eterna vontade de o abrir porque ele não estava lá para ser aberto.


Deitou-se e deixou-se invadir pela febre, pelo vazio, pelo frio intenso que lhe gelava os ossos...
"Amo-te!" murmurava ela, no auge do seu delírio, enquanto apertava na mão a faca com que tatuara o coração dele.
Parecia-lhe ouvi-lo ao longe, muito ao longe a chamar o seu nome... E o abismo estava ali à sua frente, a febre, a morte, o delírio...
E parecia ouvi-lo gritar... Mas era impossível...
Agora ele estava noutro mundo que não o dela. Amava outras que não a ela. Apaixonava-se por outras mentes, por outros becos..
E isso era demasiado doloroso. Ainda assim...quase jurava ouvi-lo gritar.
Num último momento de amor lançou-se no abismo da sua mente e entregou-se totalmente à febre e à doença que a iria consumir como ela o tinha consumido para sempre.

Publicado por Fairy_morgaine em 04:06 PM | Comentários (5)

a poesia

A poesia é um capricho dos deuses.
A linguagem perfeita dos amantes, é um coito perpetuado. Sou eu e tu no abraço que se segue ao orgasmo.
É um subtil roçar dos teus dedos nos meus cabelos.
Sereno sugar do leite materno.
A poesia é uma exigência, é vender a alma aos demónios, às musas, aos insatisfeitos, aos criadores... Aos pastores, aos pescadores, aos padres e a ti, só a ti, só a ti, só a ti... (eterno repetir dessa palavra colorida).
A poesia é o meu dedo que desenha um círculo na janela embaciada.
É loucura, é tesão, é uma lua na lagoa prateada.
Uma dança perpetuada naquele minuto em que não é hoje mas também não é amanhã e que só existe uma vez por ano quando todas as fadas sorriem ao mesmo tempo.
A poesia é tudo.
É nada.
É antítese. É violação dos dedos. É rasgar do ventre rubro.
A poesia é a paixão, é a amante que faz o mundo girar à volta do meu corpo nu.
Quando todos estão longe, quando todos estão entretidos a rezar rezas para afastar de mim as febres, os delírios, os momentos de subtil demência, é ela que me beija os lábios, que me morde a língua.
A poesia é a minha pele, a minha capa, sou eu, o meu verdadeiro eu, o meu eu criador, o meu eu-deusa, o meu eu-criança.
A poesia... é o compassado respirar que me faz viver.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:29 AM | Comentários (6)

março 22, 2004

o mar branco

O papel na tua mão.
A caneta na minha.
Há sempre uma fragmentação de nós
em nós mesmas.
Há sempre uma voz na noite a
sussurrar-me palavras
aveludadas que sangram e pulsam
nas minhas mãos.

A caneta presa nos teus cabelos
e no meu imenso respirar um pássaro
que voou desses dias para os meus.
As minhas tardes compassadas e mortas.

O papel junto das minhas narinas,
o perfume intenso a amanhã,
míudos na rua, míudos pequenos,
grandes, miseráveis, todos eles
cheios, totalmente inebriados
com essa vida, esse deslizar de tempo
que ainda é todo deles.

E já tão pouco nosso.

E o mar é sempre azul.

Mas naquela manhã tu disseste que o mar era todo branco
e eu acreditei.
Porque só tu me farias acreditar
que o branco das nuvens se pode espelhar no mar
e transformá-lo no papel
que agora me entregas
pedindo-me com um sorriso
que escreva e dê asas aos míudos,
aos míudos que são donos do tempo,
a quem dizem sempre que têm todo o tempo
do mundo para serem tudo
o que nós não conseguimos ser.

Embora também tenhamos sido míudos
e o tempo se tenha deitado suave no nosso colo.

O mar era azul e tu reeinventaste-o em ti...
Todo branco e prata.


E eu... Eu mais não consigo que
gritar que o mar é branco mas devia ser azul
e enlouquecer perante essa evidência
que em ti nada é como deveria ser e porém
é tão delicadamente perfeito.

Publicado por Fairy_morgaine em 05:51 PM | Comentários (4)

a chuva na janela

A chuva na janela.
O teu peito a servir-me de almofada.
A música a ondular nos vidros.
E eu perdida nas tuas mãos.
A chuva a criar música.
A música a criar o teu peito.
O teu peito a criar as tuas mãos.
Tu a criares-me na janela.

silvia

Publicado por Fairy_morgaine em 12:03 AM | Comentários (4)

março 21, 2004

reflexão

Por vezes é na ausência de palavras que residem as maiores verdades.

Publicado por Fairy_morgaine em 06:42 PM | Comentários (4)

março 20, 2004

Os meus olhos

Dois olhos. São tudo o que vejo no meu rosto.
São grandes e imensos e leitosos e neles pode-se ver a minha alma toda ela azul e prata.
É nas íris que me vivem os anos da infância.
É no contorno castanho dos círculos que me emolduram a face que nascem as mais imensas frases de amor.
Amor pela poesia. Amor por ti e pelas crianças que me vivem nas mãos.
Quando nasci pintaram-me os olhos com cores festivas e disseram à minha mãe "a sua filha nasceu para ser uma eterna menina de olhos grandes e humores fáceis". E a minha mãe chorou com o meu destino.
Os anos passaram e os olhos aumentaram o espaço que ocupam nas minhas fotografias. Até que só se vêem eles.
Só as duas enormes janelas para o meu interior.
Anos houve em que me quiseram cegar os olhos... Diziam que uma menina que nasce para ser fada não pode ter olhos de cristal. Rasgaram-me a pele, dizimaram-me as lágrimas e nelas tatuaram nomes que jamais proferi pelos lábios cansados.
Mas eu ergui-me... E curei os meus olhos com aromas de orquídea.
Delinei-os com tinta suave que tirei de flores e nuvens altas e no fim olhei-me ao espelho e vi que os meus olhos ainda eram grandes. Ainda viam...
E ninguém mos podia cegar. Só eu.
Foram anos de guerras e fomes. Os corpos caiam em catadupa nos patamares das varandas... E eu... Eu salvei os meus olhos à custa do meu sorriso.
Um dia vieste tu... Tu, anjo caído, tu que sonhas e sorris e me amas. E és o único que soube apertar junto do meu seio.
E desenhaste-me o sorriso de volta na face. Aquele sorriso que apaguei para salvar as íris.
E de novo me deste vida.
Porém são ainda os olhos que mais se sobressaem nas fotografias.
Elas aprisionam-me a alma. E a alma está espelhada nas palavras que me nascem dos dedos e se enterram nos teus cabelos.

Hoje o dia amanheceu bonito. Hoje o dia amanheceu nas tuas costas. E eu...amor...sou tua.
Como nunca antes. E nos meus olhos apenas uma palavra. Amor.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:47 AM | Comentários (5)

Hoje estou feliz

Estou feliz...
É um sentimento que me cai dos ombros para o chão, como um manto invisível de alegria e bem estar... (e são tão raros, tão preciosos, tão únicos estes momentos...)
Visto-me nele e bailo pela casa, com as mãos cheias de pombas azuis que solto na manhã quente de Primavera.
Estou feliz.
E é como se o Verão este ano me abraçasse o corpo mais cedo.
Afinal a felicidade é isso mesmo. Maçãs na estação estival.
Meu amor... Agarra-me o corpo curado dos humores que o acometeram e o fragilizaram (e que tu curaste à força de amor e beijos aveludados) e aninha-te nos meus braços brancos.
Hoje a manhã é nossa. E vai durar a eternidade dos momentos que se recortam no coração.
Hoje.. estou e sou feliz apenas porque estás comigo.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:29 AM | Comentários (5)

março 19, 2004

num último suspiro de esperança

Arrasto o corpo sulcado por rios de sangue
e lágrimas e num suspiro de esperança
gemo o teu nome.
É essa a última palavra que quero que
me rasgue os lábios comidos do sal
e se semeie no regaço dos filhos
que ainda não te dei.

És a quimera que me arrasta os ossos
na estrada que reneguei à nascença.
(sempre fui pária aos olhos dos que
me dizem amar e o escreveram nos muros
das escolas por onde triturei a pouca sanidade
que a genética me permitiu herdar)

Quero que me dês colheradas de amor
à boca, como darias a uma criança febril
colheradas de um xarope com sabor a fel
balbuciando: "toma, faz bem e cura...".

Não estivesse eu para além de toda a cura
e tu serias certamente o meu salvador.

Ainda assim quero que sejas o meu Messias
e me faças desejar-te e comer-te pedaços
da alma enquanto o sangue que ainda me resta
se espalha no chão do hall.

Vem.. Toma-me...
Hoje sou a tua boneca particular.
Ama-me como nunca antes...
Num último suspiro de esperança.


silvia

Publicado por Fairy_morgaine em 10:34 PM | Comentários (4)

O abuso

Existem dias em que a nossa mente é tão gravemente abusada pela mesquinhez humana, pela merda que lhes brota das bocas fétidas, buracos imundos de onde surgem cadáveres de tempos a tempos de crianças que foram inadvertidamente engolidas enquanto se curvavam para espreitar o imenso abismo que são esses mesmo buracos, que os dedos se recusam a pincelar quadros com receio de conspurcarem a perfeição do vazio e assim verem-se negados para sempre da poesia.
Hoje... é um desses dias.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:19 PM | Comentários (2)

março 18, 2004

Egoísmo

Olho-os nos olhos, aqueles que escondem as almas, e pergunto-me saberão eles que me arrasto tão gorda de poesia?
Ela cresce-me no ventre, como se eu fosse dela, uma pequena escrava dos seus caprichos e vontades.
Existem dias assim. Dias em que ela me exige cada suspiro, cada respirar e não me deixa enquanto não me souber arfante pelas suas investidas violentas.
Como podem eles viver sem esta sensação de gravidez eterna, de palavras a nascerem-me pelos dedos, pelos olhos, pela boca...
Saberão eles o prazer que é limitar uma linha, atravessá-la com um ponto final, cortar a respiração do leitor e assassinar a heroína, desligá-la da vida como uma boneca de trapos demasiado inútil?
Sinto-me tão longe de todos os que não sabem o que é este constante arrepio de letras a crescerem dentro da minha carne...
Como se vivesse num mundo à parte e já ninguém me conhecesse.
É esta a solidão mais implacável... A de ser de um mundo que não é nosso. Que não conseguimos aprisionar por entre letras e tinta da china.
Nem tu me podes acompanhar nestes momentos de criação. Nem tu sabes o que é.
E por isso mesmo odeio-te.
Odeio-te porque não me podes amar. Não me podes amar a mim, poeta, incompreendida (todos os poetas são incompreendidos no ténue equilíbrio entre o grito e o silêncio), menina, mulher, cruel, fatalmente nua.
E no entanto quero que me tomes. Quero que apagues de mim este anseio de pele. De uma pele ainda não chicoteada pela intensa urgência das palavras.
Porque eu estou irremediavelmente perdida para este mundo... Estou perdida na minha mente, obcecada com a beleza dos meus próprios abismos. Vejo-me ao espelho e embalo o meu corpo à espera do dia em que chegará a palavra perfeita, a frase única. O MOMENTO.
Nesse momento estarei sozinha como estou agora. Como estive no nascimento e estarei na morte. Porque o ser humano é isto mesmo. Egoísmo...

Publicado por Fairy_morgaine em 06:37 PM | Comentários (6)

Nunca há tempo

Nunca há tempo para se ter tempo para sermos nós.
É tudo demasiado fugaz.
São apenas momentos de lágrimas
que nos caem pela pele branca
e se aninham finalmente nos nossos finais
de dia.

O dia hoje acabou mais cedo.
Acaba sempre quando a Primavera
se esquece de o provar.
De lhe sentir o trago.

E nós nunca temos tempo.
O relógio da sala é demasiado célere
no seu aprisionar das horas
e eu ouço-o tocar todas as badaladas à uma.

Assim é mais rápido e mais eficaz
diz-me ele, como para se desculpar,
e continua o compasso de espera,
de espera pela palavra
que ainda não expeliste...

E eu pensei que seria hoje finalmente.

Enganaste-me de novo.

Nunca há tempo, dizes tu,
e calças as luvas,
aquelas luvas negras que te ofereci naquela
madrugada em que me trincaste os dedos.

Afastas-te de novo.

Eu sei que voltas, grito-te eu
desesperada pela palavra que me negas
o sentimento que me escondes,
as portas em ti que me fechas.

E tu murmuras...
Volto sempre, amor.
Volto sempre quando julgas que poderás
repousar nos ponteiros do relógio da sala.


silvia

Publicado por Fairy_morgaine em 06:25 PM | Comentários (1)

março 17, 2004

Rebento

Rebento.
De pensamentos, de metamorfoses, de personagens a exigirem vida, de reflexões... De pensamentos, de tantos pensamentos, sempre eles, sempre urgentes, sempre apaixonados E INTENSOS.
Rebento pensamentos por todos os buracos do corpo.
Pela vagina, pela boca, pelos olhos... Eles dilaceram-me tal é a necessidade de os parir.
No entanto, a minha capacidade de mãe-criadora não me chega para todos eles.
Terei de os deixar a vogar no espaço vazio por entre duas palavras.
Não lhes quero dar forma.
Não quero que eles me violem desta forma.
E mesmo assim venho-me. Uma e outra vez. Gemo alto de tanto prazer ao parir todos estes pensamentos obtusos.
Queria poder partilhá-los mas eles não permitem... São possessivos, seguram-me os pulsos e fodem-me um após outro, mal conseguem erguer-se nas patas traseiras.
Rebento...
Rebento de esperma de onde nascerão mais pensamentos, mais personagens, mais urgência.
Eles querem que os ame, que os embale, que seja puta, que seja mãe, que seja amante.
E eu sou tudo isso e muito mais.
E muito menos também.
Enquanto me venho uma e outra vez com o teu nome preso nos lábios e os pulsos presos nesta cama que se construíu dos nossos olhares e pernas que acasalaram sem a nossa permissão.

Publicado por Fairy_morgaine em 12:27 PM | Comentários (4)

março 15, 2004

Os meus eus

Existem em mim tantos eus, tantas facetas, tantos pedaços que no meio deles não sei quem sou Eu.

Publicado por Fairy_morgaine em 10:37 AM | Comentários (9)

março 14, 2004

o amanhã nunca chega

Existem vazios que nunca se irão preencher.
Os meus são demasiado profundos. São ecos de dias tão tardios. São apenas uma sombra do meu sorriso ido...
Queria que entendesses a dor que é não haver mais razões para chorar e no entanto o corpo rasgar-se a cada minuto...
Ouves? Há um murmúrio de ternura que atravessa o tempo em nós.
Mas... eu estou tão vazia. Eu era eu, sabias? Contra tudo, contra todos era eu.
E ainda nem sabia o que isso era, só sabia ser, só sabia lutar, nadar em direcção à costa, desesperada por um momento de paz.
Existem viagens que quando terminas já não importa se chegaste ou não, porque o preço é demasiado alto.
Eu fiz muitas. Muitas viagens. Cá dentro. Dentro do meu ser. Conheci pedaços de mim que não amo. Encarei-os.
Eles ainda vivem.
Hoje eu já não sou eu. A viagem acabou e eu fiquei moribunda à espera de um amanhã que nunca chega.
Amei os filhos que não tinha, sonhei com a casa que não construi, acaricei um rosto que não conhecia, deliciei-me com os progressos das crianças que o meu ventre se nega a carregar.
E subitamente chegou o vazio.
Nada importa quando o ontem te rouba o amanhã.
E o amanhã amor... nunca chega.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:10 PM | Comentários (4)

A alma do silêncio

Deixo um poema já antigo mas que quero partilhar convosco... Bem haja a todos. E bons gritos na ausência do silêncio.

A alma do Silêncio


As pessoas que conheci sentadas no café
com chávenas numa mão e na outra um livro qualquer
do autor da moda, as pessoas que conheci
deitadas comodamente na praia a rabiscar uma
qualquer revista com a programação semanal,
as pessoas que conheci em diversos lugares
disseram-me que o silencio é temido e evitado
a todo o custo em qualquer corte que se preze.

Todos os cavaleiros que erguiam as suas espadas
em defesa do reino sabiam que não se podia deixar navegar
o silêncio. Era no silêncio que viviam todos os enganos.
Era no silêncio que habitava o estranho conhecimento.
Aquele vago saber que ninguém deveria tocar.
O som da musicalidade secreta. O violino sempre ausente
na orquestra da corte. Todas as damas que se prezavam
sabiam e tomavam por certo
que o silêncio não era para ser mencionado
no chá da rainha.

Cada camponês honesto e ignorante sabia, mesmo
sem saber contar ou ler, que o silêncio era o o inimigo
de todos os bons homens, daqueles que nascem e morrem
sem qualquer momento para assinalar.

O Rei sempre afirmou que o
silêncio era morada de vícios e terríveis pecados.

Só o menino da estrebaria não se lembrava desse
ensinamento essencial à sobrevivência.
Umas vezes conversava com os cavalos.
Outras sentava-se a ouvir o silêncio.
A senti-lo.
A prová-lo.
A ergue-lo nas mãos sujas.

Sempre que alguém entrava de rompante
o menino escondia as mãos atrás das costas e sorria
um sorriso pleno de silêncio.

Mas as pessoas do reino não sabiam o silêncio
e olhavam-no desconfiadas, de sobrolho carregado.
Comentavam algo que não rompia a parede de silêncio
do menino e partiam com as mãos torcidas e esgares
de uma qualquer palavra nas faces.

Depois...depois era sempre o saboroso silêncio.

(o erróneo, o quebrado, o amargo, o sentido silêncio)

O menino escorria o silêncio nos seus cavalos
favoritos e via os seus olhos grandes mudarem de cor
para aquele violeta-sagrado-silêncio.

O menino brincava de mago e sorria
de mãos dadas com o silêncio,
os dois tropeçavam um no outro
em rodas de cha-la-la.

Mas há sempre uma palavra.
Há sempre o fim.
Há sempre o homem que denuncia.

E o menino foi levado à presença
dos olhos inquisidores do Rei.
Afinal ele devia saber que o silêncio é
o arauto da desgraça.
Ele é o infiel, o adúltero, o para sempre amaldiçoado.

O menino ouviu cada acusação com os seus olhos
violeta-sagrado-silêncio
e no final abriu as mãos sujas
e delas voaram duas borboletas.
O Rei ergueu-se e com voz alterada condenou-o
à Morte.

Ninguém na sua presença ia libertar borboletas
impunemente.

Acenderam-se as fogueiras...
Aguardou-se o grito.
Mas o menino, eterno amado do silêncio
apenas sorriu.

O corpo tombou nas cinzas
e dos olhos violeta-sagrado-silêncio
nasceram duas lágrimas, dois pássaros libertos
no céu azul-tristeza.

Nesse dia decretou-se que o silêncio também
tinha uma alma
e que essa alma chorava de dor pelo menino
de olhos violeta.


silvia
21-08-03

Publicado por Fairy_morgaine em 09:55 AM | Comentários (5)

Os gritos que não posso libertar

Estou cada vez mais ausente dos blogs e das minhas sagradas palavras porque a minha condição física já não me permite longas estadias na cadeira do computador.
Ainda assim morro de saudades vossas.
Hoje não há tempo para sérias reflexões ou mensagens da alma.
Apenas um pedido de desculpas a quem aqui vem todos os dias à espera de algumas partilhas.
A espera é sempre agressiva para quem a vive.
Até ao dia do meu regresso em pleno beijos doces.
Vou sempre tentar passar por aqui, ler os comentários, talvez deixar algo novo... mas sem promessas.
A todos... uma vénia... até um dia.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:54 AM | Comentários (2)

março 09, 2004

Inusitado silêncio

Se eu as deixar sair por um momento prometes que não contas a ninguém?
(pergunto eu enquanto aperto os braços em redor do meu próprio corpo)
Não digas, pequena fada, não deixes sair a confissão da tua tristeza...
Aguenta... é apenas mais um momento...
Se as deixares sair suavemente...
Ninguém irá ouvir... Ninguém.

Eu não conto (murmura a pequena fada)
Chora. Sacode o teu corpo mutilado enquanto os soluços se expandem em ti.
Eu não digo a ninguém.
Se as deixares sair suavemente...
Ninguém irá ouvir.
Ninguém.

E no entanto...
Nem uma gota.
Uma única gota...
E eu preciso tanto...
Eu preciso!!!

Não desesperes (geme a pequena fada)
Eu estou aqui.
Eu sou tu... Lembras?

NÃO...
Perdi-te...
Perdi-me...
Estou tão seca...
Sou infértil de corpo e alma.
Não há nada que me brote dos olhos
que não este sentimento inútil de desassego...

Eu sou este imenso e inerte nada.

Sou tão obtusa que desaprendi de chorar...

Mesmo quando preciso...
MESMO QUANDO MORRO...
Pequena fada... Salva-me...

(inusitado silêncio)


silvia
09-03-2004

Publicado por Fairy_morgaine em 10:24 PM | Comentários (15)

Nunca te sentiste vazio? Eu já

Nunca te sentiste vazio apenas porque o dia amanheceu?
Nunca ouviste uma música que te tocou no mais profundo do teu ser
e encolhes-te de medo do que está para lá desse profundo?
Nunca te deixaste invadir pelas lágrimas
simplesmente porque as cicatrizes que coleccionas
no peito se abriram todas de uma só vez
devido a uma brisa malévola que as atingiu?
(e tu demoraste tanto a cosê-las, a terminar cada ponto com um esforço
para além do humano)
Nunca sentiste o desespero tão perto,
bastava esticares os dedos e tocar,
está mesmo ali embalado numa canção
tão sedutora, vestido de sereia
a chamar-te com os seus braços sedosos?
Nunca deixaste que o fio condutor de sentido
desaparecesse e tu demorasses eternidades a encontrá-lo?
Nunca valsaste com a loucura?


Eu já.

Publicado por Fairy_morgaine em 06:19 PM | Comentários (15)

As noites gritam-me o teu nome

A noite hoje gritou-me o teu nome cruelmente aos ouvidos.
Eu torcia-me, febril, espasmódica, e nos dedos apertava os teus, imaginários.
Ouviste o meu grito ecoar no teu silêncio?
Devias dormir, amor, solto como um anjo, tu que és tão isento de culpas.
Já te disse que te vou conspurcar toda a inocência? Que te vou apertar nos meus braços e apagar de ti os anos de solidão?
Devo ter dito quando gemo o teu nome. Ou talvez não tenha dito. Talvez apenas tenha sonhado.
Às vezes liberto mensagens nas nuvens e aguardo que elas te as entreguem. As nuvens são boas mensageiras, disse-me um dia uma ninfa que passou apressada por aqui.
E eu acreditei.
Então murmuro-lhes poemas e em seguida escrevo o teu nome no baço da janela e aguardo que nos meus sonhos venhas e me digas "ouvi-te... dizias que precisavas de mim. estou aqui."
Mas os meus sonhos são sempre dessassogados, amor.
São sempre amargos.
São restos, são sementes da intensa tortura de ser eu durante anos a fio (agir de acordo com o silêncio nunca é fácil).
Fecho os olhos e imagino o teu rosto, o teu sorriso sempre tão quente, os teus braços a estreitarem-me junto ao teu peito enquanto com os dedos me passeias os cabelos.
És só tu amor, que me acalmas a dor, que me limpas o rosto suado, que te inclinas e me dás água enquanto seguro o copo tremente.
E me murmuras: "estou aqui...amo-te..". Quase sem voz. Apenas suaves carícias dos lábios (existem palavras que são carícias que a língua faz e perpetua).
É o teu nome que grito silenciosamente nestas noites em que a dor se espalha por mim. Quando agarro os lençois desesperada é o teu rosto que desenho para me serenar.
Depois adormeço. Embalada na tua presença. Adormeço com a respiração alterada, o corpo cansado das lutas nocturnas.
De manhã quando ouço a tua voz doce, quente, serena a acariciar-me a alma digo jovialmente: "sim amor está tudo bem. sinto saudades tuas."
As noites são só das nossas almas. Não quero falar delas quando o Sol se levanta. Parecem demasiado irreais.
As noites amor... gritam-me o teu nome cruelmente aos ouvidos.

Publicado por Fairy_morgaine em 05:40 PM | Comentários (4)

março 05, 2004

O sonho

Ali estava ele. Tinha corrido tão rápido quanto os seus pulmões lhe permitiam.
Tinha-a deixado finalmente. Agora podia voltar a ser simples humano...
Ela estava demasiado longe. E no entanto, ainda sentia o sabor das mãos dela nos seus lábios. Agora que pensava nisso queria tê-la beijado... Como podia ser tão cobarde???
Tinha-a tido ali tão perto, a pele alva, as mãos pequeninas, o corpo quente, sedento, os lábios entreabertos, os olhos semi-cerrados enquanto lhe cravava a faca no coração...
Sabia que estava irremediavelmente perdido.
Queria amá-la... Queria TÊ-LA... Queria tomá-la e penetrá-la tantas vezes até que o seu esperma lhe escorresse insaciado pelas pernas.
Não. Agora era demasiado tarde. Ia voltar para os braços da outra. Ela era tão menos complicada. Era apenas uma mulher. Não era um espectro enlouquecido de fome e insatisfação...
Queria que a outra lhe fizesse um broche naquele preciso momento. Talvez assim se esquecesse dos olhos dela. A profunda desilusão. Os dedos. O corpo.
Tinha-a deixado.
Não havia retorno. Agora só precisava lavar o rosto e apresentar-se no dia a seguir no emprego e seguir a sua vida e esquecer as teias que ela tecera em redor de si mesmo.
Arrastou o corpo... FODA-SE...Porque não tinha ele abraçado ao menos o corpo febril dela?
Porque não tinha ele torturado os seios dela com beijos? Porque não a tinha feito sua? E ela...que tinha sido dele como nenhuma outra... As suas psiques entrelaçadas.
Preciso de facto de um broche, pensava ele, enquanto se arrastava pelas ruas da cidade... Pensou se saberia voltar ao covil dela.
Ela... Ela... Não se lembrava de um nome... De nada. Só das suas mãos a perscrutarem todos os seus espaços.
Tropeçou e deixou-se cair... Não tinha dito ao menos um adeus. Nada... Mas ela era o seu pecado...
Ele não a podia ter!... NÃO PODIA... Tinha de se afastar, ela era tão tentadora, toda ela promessas de uma vida tão diferente...
Sentia uma profunda falta da sua voz... Dos seus jogos mentais. Dos seus eternos porquês... Sentia-se vazio...
Mas eu tenho um emprego pensou ele em voz alta, uma vida, um caminho, um destino, estou condenado!!! CONDENADO a estar aqui...
Subitamente... elas vieram. As lágrimas. Invadiram-lhe o rosto, as mãos, a camisa, o peito... Tudo. Deixei-a... Deixei-a... e eu fiquei lá...
Estou morto... que me importa o emprego??? gritou ele, completamente louco de ausência, tomado por uma febre súbita, não podia, não podia deixá-la... Ela era tudo para ele... Que sa foda tudo... gemia ele totalmente entregue aos soluços que o varriam...
ONDE ESTÁS??? o desespero tomava-o e gritava pelas ruas como um demente...
Nada fazia sentido. Nada. Só ela. Só a voz dela. O seu cheiro a jasmim...
E então o solo abriu-se numa fenda profunda e ele caiu... Caiu num abismo sem fim. Quando finalmente se sentiu aterrar na relva molhada pensou estar no centro da terra. Mas não. Estava no centro de si mesmo.
Correu... Correu. Ela tinha de estar ali. Ela era parte dele.
Porque não tinha ele coragem de lhe dizer? Porquê? Porque era cobarde? Se nada mais importava...só o sorriso dela.
Então ouviu. A ténue respiração. Os cabelos negros a cairem-lhe na face, a esconderem-lhe os olhos grandes.
Aproximou-se devagar com medo que ela se desvanecesse à sua frente. O perfume a jasmim invadiu-o... Meu amor gemeu ele e deixou-se cair ao lado dela, as mãos nos ombros dela enquanto a puxava para si. Mas ela não o ouvia. Estava tão pálida... Tão mortalmente pálida.
Não me deixes sussurrou-lhe ele e estreitou-a contra o peito enquanto a semeava de lágrimas. Agora não... Eu sou teu... Ficarei aqui para sempre... Enquanto me violas, me rasgas, me abres...
É tudo o que desejo...
Ela entreabriu os lábios, molhou-os com a ponta da língua e num suspiro vago sorriu-lhe e tocou-lhe o rosto... Então voltaste? e a pergunta exigia-lhe tanto esforço...
Eu amo-te... murmurou ele junto dos seus lábios... EU AMO-TE... gritou ele desesperado.. Não morras... não agora... e as lágrimas caiam-lhe pelo rosto, iam depositar-se nos seios dela.
Eu sou teu...
Segurou-lhe na mão e nela depositou-lhe a faca.. Corta-me amor, corta-me de novo, tatua-me com o teu nome, faz-me teu, diz qualquer coisa.. mas não me deixes...
Mas era tarde. É sempre tarde. E ela deixou os olhos fecharem-se-lhe num último e derradeiro sonho.

Publicado por Fairy_morgaine em 11:02 PM | Comentários (13)

Nesses dias não quero ser poeta

Existem dias em que a dor me queima a carne
até expôr os ossos frágeis.
Nesses dias não quero ser poeta.
Não quero deixá-la brotar de mim em
suaves sussurros milenares,
não quero que outros a leiam
e com ela se vistam e se sintam
mais vivos, mais líricos...
Existem tantos dias assim...
Mais do que a minh'alma quereria
supor.

Nesses dias não quero ser poeta!
Não quero a falsa reflexão,
nem o calor dos teus braços,
nem a frenética marcha das horas...
NÃO QUERO QUE ME DIGAM QUE VAI FICAR TUDO BEM...
Quero rasgar-me...
Quero arrancar-me...
Quero atirar-me de um abismo e
deixar a minha carcaça podre enfeitar
o vazio.

Nesses dias...
não quero ser poeta.
Queria apenas...
NADA!
(porém tu chegas e abraças o meu corpo
que dança em espasmo de intensa dor...)
Nunca sentes saudades da morte?


Eu sinto.
Saudades da imensidão
que é o não-sentir,
a antítese do sofrimento,
da queima.

(abraças-me, acalmas-me
e eu a chorar e a gritar,
a esmurrar-te a face alva,
enquanto me torço em dores
tão minhas)

Nesses dias... Não quero amor.
Não quero doces carícias.
Não quero ser poeta.

E eu tenho tantos dias,
tantas noites,
horas miseráveis em que me perco dentro de mim...
À procura...
À procura da criança que não fui,
das cicatrizes que me sangram,
do colo surdo de mãe
que me negas
e me envenenas o olhar...

Nesses dias.
É demasiado duro.
É demasiado gritante.
NÃO QUERO SER POETA.

Só quero ser eu...
Apenas eu...
E eu...sou miseravelmente pouco.
Miseravelmente humana.
Inequívocamente não-poeta.

silvia
05-03-2004

Publicado por Fairy_morgaine em 09:34 PM | Comentários (10)

março 04, 2004

O último reduto de inocência

Fica - pediu ela desesperadamente, as mãos em concha em redor da esfera que era o âmago do outro.
Deixa-me ao menos escrever em ti o meu nome para que jamais me esqueças - e suavemente, com uma navalha reluzente cortou-lhe as entranhas e nem mesmo o gemido que brotou dos lábios do outro a fez recuar... És tão belo... tão imperfeitamente labirintico, murmurava incessantemente enquanto o sangue rubro lhe escorria pelas mãozinhas inocentes. E cravava mais fundo...
Quero que te lembres de mim para sempre, que tenhas algo meu, algo teu, algo... rezava ela, uma ladaínha sagrada, um sussurro apenas e iniciava no outro a marcha lenta da mudança, da inevitável mutação que sempre se opera quando dois seres incomuns se juntam, se tocam, se revelam...
Não... não quero que chores e beijava-lhe os olhos enquanto lhe violentava a mente, se espraiava nos seus segredos e nuances... Não sabes... não imaginas como te quero abrir, tomar, tocar, dar-me, sorrir-te, lamber-te, comer-te... Deixar-te num grito ímpar, num momento de criação... Criar em nós os laços eternos do conhecimento...
Beijava-lhe o cérebro, engolia-o num arfar constante, num ritual quase carnal, quase louco... Sim... abre-me como se me descobrisses a pele, toma o coração nas mãos e aperta-o, sente-lhe o pulsar, eu sei que o queres abrir com uma faca, ver como funciona, ver o interior, revirar-me por dentro...perscrutar-me...
Deitaram-se finalmente ao lado um do outro à espera do amanhecer e ele murmurou-lhe ao ouvido: "é aqui o fim, o momento da partida, o final dos segredos, dos labirintos, das revelações... é aqui a encruzilhada em que nos abandonamos e continuamos cada um num trilho diferente"....
Sim... disse ela e lambeu a lágrima que escorreu do rosto dele, pura, cristalina, o último reduto de inocência dos seus corpos febris...
Engravidaste-me das tuas dúvidas... gemeu ela, e eu abortei esse filho inesperado, esse começo do fim dos dias do reino da psique, abortei-o e quando me levantei escorreste-me pelas pernas, num misto de sangue e lágrimas, e restou isto, sorriu ela, estendo-lhe nas mãos abertas a semente da árvore que para sempre corrompeu a humanidade.
E ele tomou-a nas mãos e num último respirar sofreu a última mutação... transformou-se num ser humano e partiu. Partiu para a sua vida, para ter os seus filhos e os seus orgasmos e não sementes de árvores e lágrimas de cristal.
Ela deitou-se. À espera. À espera que ele voltasse. E a tomasse. E a abrisse de novo, a engolisse, a matasse talvez, mas não a deixasse ali, na fria morbidez do vazio de palavras.
Se ele voltou? Não sei. Se ela morreu? Também não. Subitamente, a escritora rasgou as últimas folhas do livro, apenas para que as pessoas pudessem sonhar o seu final... Ou para não ter de escrever a dura palavra f i m.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:30 PM | Comentários (5)

março 03, 2004

A saudade é a doença dos olhos

A saudade é a doença dos olhos.
Queima-nos por dentro. Porém planta-nos sorrisos na face.
Significa que há algo que sentimos falta, porque o temos ou porque o tivemos.
Eu tenho-te.
Isso basta-me

Publicado por Fairy_morgaine em 09:58 PM | Comentários (8)

Deixo que a Lua me cante canções

Deixo que a Lua me cante docemente canções de embalar. Deixo-a acariciar-me a pele branca e com os dedos desenho os teus contornos na cama, um ritual aprendido na solidão da noite fria.
As noites sem ti são sempre frias. Meras insónias em que o teu rosto não está para que o pudesse acariciar até adormecer.
Nesse dia, amor, serei tua. Não apenas no corpo mas na alma, o meu destino irrecuperavelmente enterlaçado no teu, como duas estradas que subitamente se unem e se perdem de vista na poeira dos caminhos.
Existem laços que só dois corpos adormecidos podem tecer. Os dedos criam vida própria e suavemente entrançam uma malha retorcida invísivel em redor de nós, unindo-nos, amarrando-nos...
Há em mim uma urgência de ti e do teu rosto. Uma urgência de entrega.
De te dar as palmas das mãos para que nelas escrevas o teu nome com beijos salgados.
Deixo que a Lua me cante canções que me lembram de ti... Deixo-a acariciar-me a pele branca e com os dedos desenho os teus contornos na cama, mais uma vez, uma milésima vez, enquanto adormeço com o teu nome preso nos lábios.

Publicado por Fairy_morgaine em 09:19 PM | Comentários (8)

março 02, 2004

Amanhã o dia começa mais cedo (talvez ainda me consigas salvar da dor)

Preciso tanto ouvir a tua voz no vazio...
(vem tocar-me... vem dizer-me que amanhã o sol nasce mais cedo)
Preciso desesperadamente da tua pele,
do teu peito, da tua capa por cima dos meus ombros.

Assusta-me amar-te. Assusta-me
ser tua, ser dependente do teu cheiro.
Assustas-me.

Preciso demasiado do conforto
que apenas as tuas mãos nos meus cabelos
me trazem.
Preciso de precisar de ti.

Assusta-me esta estranha forma de estar
em ti, mesmo quando não estás.

(hoje a tua ausência
pesa-me na solidão das imagens
que me assolam a mente,
a esperança que me escorre dos seios
para o chão,
o meu ventre seco,
os meus cabelos a taparem-me
os olhos castanhos,
o medo,
o ventre,
a loucura,
a demência ali tão perto...)

Preciso tanto ouvir
os teus passos no meu chão,
ouvir-te chegar,
preciso que me agarres,
me apagues as lágrimas,
me apagues o rasto
para que os meus monstros
não me encontrem...

(esconde-me no teu abraço,
esconde-me em ti, meu amor)

Assusta-me a noite que cai
e tu não estás.
O frio.
A noite.
O cabelo.
O ventre,
o seio que te amamenta de sangue,
estou seca,
estou oca,
estou perdida
perdida em ti,
em mim,
em nós
nos filhos que quero ter
nos filhos,
nos meus
nos teus
nos nossos...

(salva-me hoje de novo
abraça-me,
lava-me o corpo cansado
com as tuas lágrimas...)


Amanhã o dia começa mais cedo
e tu ainda não estarás em mim.
Mas o teu amor ainda me prende
as asas às costas.
Talvez quando chegares,
os olhos vermelhos dos gritos que deles emanaram,
eu ainda te aguarde, meia louca,
meia morta, meia viva,
ainda tua,
o peito a respirar aos solavancos
e tu ainda me consigas salvar
da dor.

02-03-2004
silvia

Publicado por Fairy_morgaine em 11:09 PM | Comentários (11)

Um silêncio demasiado meu

Disse. Disse que te amo. Deixei a palavra libertar-se vagamente dos lábios como uma sentença proferida demasiado cedo.
Foi um amo com sabor de despedida. A despedida que nunca queremos fazer, que queremos sempre adiar.
Dei-lhe asas e deixei-a voar. Existem palavras que nos carregam a alma toda nas costas amplas. E nessa palavra depositei todo o sentimento.
Era eu. Eu cosida em cada letra. Eu, espelhada em cada nuance.
Existem palavras que nos ensinam que por vezes nem o silêncio supera a sua força.
Hoje, o silêncio a que me remeto grita de uma forma que me rasga o coração.
Mas não o vou calar. Sei que hoje o silêncio tem sabor de ti. Tem sabor de adeus, de "amo-te" em cada pedaço do seu corpo disforme.
Só o silêncio, só o seu grito, me pode apagar a dor...
Existem silêncios demasiado nossos. Este... é um deles.

Publicado por Fairy_morgaine em 07:06 PM | Comentários (8)

E eu ainda nem te disse que te amo...

Procuro a inspiração nas músicas
de ontem. Procuro e desfio as notas
em provérbios de amor.
Quero escrever-te para que jamais te esvaias
por entre o passar dos dias.
Quero poder dizer-te que ainda te recordo
noutros dias, noutras músicas,
eram outros sonhos,
eram outras vontades.

Era menina no teu colo,
pendurada no teu pescoço.
E hoje procuro a inspiração
embora ela se me negue,
embora ela seja ainda insuficiente
para te escrever docemente
em cada linha, em cada
palavra.

É como a semi-recta que ondula
no limiar do Universo
e se ri dos nossos esforços
para a alcançar com a ponta dos dedos.

Escrever-te hoje
é como pincelar o teu sorriso na areia
da praia, para que o (a)mar
o lamba com uma vontade voraz
de te levar de mim
tão precocemente.

(e eu ainda nem te disse que te amo)


silvia
30-01-2004

Publicado por Fairy_morgaine em 06:58 PM | Comentários (6)

março 01, 2004

As tuas ausências

Preciso do teu corpo, do sal das tuas mãos em mim, preciso de ti...
As tuas ausências despem-me os ombros nus ao luar. Hoje a luz da lua não me beija como antigamente. Hoje queima-me a pele branca. Porque está grávida de ti e da tua ausência.
Eu sei. Não o digas. Eu sei que a despedida é sempre inevitável. Eu sei tudo isso e porém nem por isso me dói menos quando te arrancas da minha carne e me deixas aqui.
(cubro-te os lábios com a fome dos meus)
Vou dormir todos estes dias em que não estás. Vou-me deitar quieta na minha cama, vou encolher o corpo, vou quedar-me na posição fetal (aquela em que sempre durmo, lembras?) e aguardar que a tua voz me desperte suavemente deste torpor e que com os teus braços me salves dos pesadelos particulares.
Vou esquecer que lá fora, fora do meu quarto, há pessoas a gritarem, há pessoas a viverem, há pessoas a parirem.
Nada me importa.
Quero apenas que quando ao chegares te debruces suavemente e me murmures ao ouvido: "cheguei amor" e me tomes nos teus braços como uma criança que se aninha no colo da mãe.

Publicado por Fairy_morgaine em 04:01 PM | Comentários (15)

O fim do ínicio

Bem... Depois de longos dias de criação (não minha e sim do meu manito e padrinho do grito do silêncio que tanta paciência teve para mim e para a minha ignorância quanto a pormenores informáticos e de linguagem html :s) parece que finalmente podemos abrir o champagne.
Sinceramente o bom gosto da apresentação do blog, tudo o que está aqui de visual tenho de lhe agradecer... Quem senão tu ?
Pois é... É a ele que temos de bater palmas, porque pelo menos na minha opinião este pedaço de mim, este grito do silêncio foi perfeitamente aperfeiçoado e apreendido por ele. Deu-lhe forma e ajudou-me a criar este espaço.
Concebi este grito para ser isso mesmo. Um grito. Um espaço poético. Um espaço meu. Obrigada a ti, mano, e a todas as pessoas que futuramente percam algum do seu tempo a ler-me *rebenta a garrafa de champagne*

Publicado por Fairy_morgaine em 03:44 PM | Comentários (12)