maio 27, 2005

Estrelas

Existem caminhos trilhados, pisados, engolidos.
Existem até mesmo pedaços de nada que ficaram pendurados entre nós e foram mais tarde usurpados pelos filhos que um dia teremos.
Eles dizem, e têm razão, que são tudo o que resta no final.
Os filhos são sonhos que o Universo sonhou, são um resto de caminho que ficou por trilhar.
E no entanto, são tão seus e tão pouco nossos.
Temos filhos para o Mundo, dizia o outro.
Eu digo que temos filhos para o Passado. Para corrigirem os nossos erros, para sorrirem os nossos sorrisos, para chorarem as nossas lágrimas. Ou então, para terem outros filhos e esperarem inocentemente que eles sorriam os seus sorrisos.
Eu digo que o Passado é tão só o nosso Futuro. Um imenso repetir de erros e mais erros, até que o final seja o esperado. Até que o erro cesse e o corpo caia no abismo do esquecimento.
Porque parar é morrer, dizia o outro.
Eu digo que parar é viver a vida do vizinho, é assistir à telenovela da noite e sonhar os sonhos dos personagens, é esquecer o homem que dorme a nosso lado, é deixá-lo desejar as outras e não a mulher que repousa e sonha. E sonha com ele, ou com outro, e ele sonha também e esquecem-se da presença escolhida.
Da presença que um dia quiseram fosse para sempre.
Assim morrem as relações. Perdidas no imenso esquecer do amor.

Mas eu não esqueço. Porque és tu que povoas que os meus sonhos, porque é a ti que encho de beijos quando te ausentas, é o teu corpo, os teus braços, a tua pele que acaricio quando não estás.
E as tuas ausências, amor, semeiam-se-me nos olhos, crescem-me nos ossos, deitam-se na nossa cama. Anseio-te. Anseio-te até à loucura, e penso-te, penso-te, imagino-te aqui, deitado a meu lado a dormir, a sonhar sonhos que nem imagino nem sei.

Se sonhasses, amor, a ânsia que tenho de ser o teu sonho. De ser o teu início e o teu fim. Se pudesse inverter o caminho do Tempo, o passar surdo dos dias, o correr lento das horas, iria resgar-te nos teus caminhos, embalaria o teu ser no meu regaço e estaria sempre, sempre envolvida em ti.

Fico a imaginar as horas pesadas em que não estás. Fico a imaginar os labirintos da tua mente. Fico a imaginar todos os pedaços de ti que me escondes.
Fico a imaginar-te. O todo. Os retalhos mais recôntidos. Os pesadelos mais obtusos.
Fico a imaginar-te.
Quando sonhas. Quando te contorces na cama, quando foges dos teus monstros particulares. Quando percorres espaços em que eu não estou.

Os nossos filhos nunca serão um fim neles mesmos e sim um continuar perpétuo do amor que depositei em ti e vejo florescer.
Eles serão estrelas a iluminar o espaço-tempo que somos nós, o sistema-solar que cresce nos nossos peitos e culmina no crescer de vida que iremos ver amadurecer.

Entendes, amor, que o amanhã começa mais cedo?

Publicado por Fairy_morgaine em maio 27, 2005 11:20 PM
Comentários

começa mais cedo quando o tempo avança e nós ficamos petrificados à espera de receber um alento na putrefacta manhã...beijinho.

Afixado por: lacshimi em maio 28, 2005 01:02 AM

tudo tem o começo que desejamos, sonhamos ou alcançamos, nunca mais cedo ou tarde...mas no exacto momento das emoções! Parabéns Silvia! Um jinho

Afixado por: fatyly em maio 28, 2005 11:51 AM

O amor tem que ser partilhado, se não é um poema publicado, como tantos que por aí estão...

E, eu adoro poemas de amor... especialmente do amor, que arranco do meu coração.

Abraço terno e que o teu amanhã, seja repleto de amor...

Jinhos :-)

Afixado por: Menina_marota em maio 28, 2005 04:29 PM

as fadas têm bébés..? *

Afixado por: Rita em maio 28, 2005 10:13 PM

Acabaste por te deprimir no final do primeiro parágrafo pareceu-me... :)
Depois retomaste.
Estamos desde a aurora da espécie a tentar criar uma experiência perfeita para a vida através de filhos e eles através dos deles.. e tudo bem.
Mal seria se tentar viver melhor e desejar melhor fosse algo de terrível.

Afixado por: OffLimitZ em maio 28, 2005 10:41 PM

e sempre, mas sempre o amor...

Afixado por: Mariadalua em maio 29, 2005 03:49 PM

sê feliz**

Afixado por: Persephone em maio 30, 2005 01:13 AM

Que saudades de ler-te assim luminosa, Morgaine!
Um grande beijo para ti :-)

Afixado por: Dora em maio 30, 2005 02:01 AM

Para mim um dos melhores textos que li aqui. O amanhã começou ontem, é assim que o passado constroi o futuro.

Afixado por: ebola em maio 30, 2005 09:16 AM

o passado serve paranos tornar quem somos.. pessoas melhores, mais vividas...

te beijo

Afixado por: em maio 30, 2005 02:42 PM

Numa estória do Borges existia uma seita para a qual a cópula, como os espelhos, era uma coisa abjecta porque reproduz os homens. No teu texto os filhos são a perpetuação do universo, a ligação entre as diversas épocas, como se afinal o Homem fosse sempre o mesmo pelas eras fora. Talvez os filhos mais do que corrigirem os nossos erros, como ecoa nas tuas palavras, os repitam! Mas depois o teu texto resolve-se, essa repetição é quebrada...
Beijinhos

Afixado por: André em maio 31, 2005 10:34 AM