Ícaro nos meus sonhos e de Cassiopeia
Escrevi este texto inspirada pelas palavras mágicas da Cassiopeia, aqui.
Viajei nas suas palavras, voei, voei e quando finalmente voltei ao chão tinha nascido este texto.
Devo dizer que este é um blog que encontrei recentemente e que tenho descoberto com ardor e fascínio... Quase acredito ler as minhas palavras na sensibilidade de outrém. Aconselho vivamente a todos.
Quando se perde o cabelo que já escasseia e as nódoas negras surgem num corpo que não tem porque sofrer de anemia, não se pergunta o porquê destas degenerescências: o próximo deve tomar consciência das asas de anjo que invisivelmente se alojam no dorso, porque de anjo tem de passar a ser a sua condição.
Para ele, o próximo – se é efectivamente próximo - deve bastar observar que aquele mortal, aquele intrépido Ícaro que deixou derreter as suas asas por avidez de verdade (porque na luz deve residir a verdade... afinal, Apolo é deus do Sol!), está em sofrimento. E então deve amá-lo, pois amar é a única maneira de guardar. Um ser assim tão fragilizado não está apto a expor porquês – a sua alma está balbuciante, titubeante, cada passo mais não é que a materialização do desequilíbrio.
Como podemos esperar de alguém que nos diga o que o perturba quando esse algo que o perturba é algo de tão perturbante quanto esse algo é o perturbado não se sentir amado? Não ficaria perturbado quem, perante tão estulta e escusada pergunta, recebesse tão perturbante resposta? Seria o arrogante interrogante capaz de articular uma frase decente, uma só que fosse, a quem isto lhe respondesse?
As palavras só são mágicas na poesia. Para um Ícaro, muito menos existem palavras mágicas que, ao serem proferidas, resultem mágicas. Mágico será que surja um ser alado que, solidaria e solicitamente, o tome nos braços e o eleve novamente às alturas por que tanto aspira (e às quais pertence) até estar refeito. E que, depois da convalescença, esse ser alado o acompanhe eternamente no voo.
Que não se peçam explicações, ofereça-se amor.
Enquanto subo a rua ouço as seguintes palavras que vêm do interior de uma casa: “O automóvel nunca há-de substituir o cavalo”. Não podia concordar mais.
Cassiopeia
"O automóvel nunca há-de substituir..." - o resto tornou-se num ruído ensurdecedor, deixei cair os braços enquanto olhava embasbacada para as asas queimadas de Ícaro.
Os seus olhos enormes, leitosos, brancos, completamente cegos por terem olhado a luz da Verdade.
Perguntei-lhe o que tinha visto, o que tinha ouvido, o que era a Verdade que queimava de forma irreversível a sua língua e o céu da boca e ele, louco, ria, ria, ria enquanto dançava lá fora à chuva, a chuva a lamber-lhe as asas enegrecidas e as íris brancas e cegas.
Outros dias vieram e eu via Ícaro perdido no olhar cego que o levava a mundos não meus. Pensava eu, que com o tempo, ele se habituaria à rotina calma da casa, do mundo e das pessoas.
Pensava eu, ele iria esquecer a Verdade, a tal que ele nunca me contou, nem a mim e nem a ninguém.
Às vezes, perseguia-o durante horas até chegarmos ao lago verde e ele se sentar calmamente na borda e ficar a olhar para o Céu com os seus olhos cegos de luz. Nesses momentos, podia jurar que ele murmurava coisas inaudíveis com a sua língua inexistente.
Quando regressávamos o velho mais velho que já conheci sorria-me e dizia-me: "menina não vale a pena perseguir a Verdade dos outros. a Verdade não é única. tem em si todas as cores do Universo".
Foi numa noite quente de Verão que soube que Ícaro partiria para sempre, e com ele todo o conhecimento adquirido.
Lancei-me pela porta, deitei-me a seus pés enquanto ele caminhava absorto e gritei, gritei, gritei "olha para mim. diz-me por gestos, por movimentos, diz que me sentes, que me vês, que me entendes... a minha verdade é acompanhar-te nas tardes solarengas até à beira do lago e para além disso nada me importa... eu adivinharei a Verdade nas tuas íris leitosas pela eternidade... eu irei deitar-me no teu leito, afagar-te os poucos cabelos, beijar-te a pouca porção de pele que não arde quando o Sol se põe".
Mas nem ele parou e nem os meus gritos me sairam pela garganta. Ficaram presos nos olhos.
Nessa noite, nessa mesma noite, as crianças ergueram-se das camas e vieram cantar e dançar em torno da fogueira onde o velho aquecia os ossos "hoje em dia eles estão sempre frios, enregelados seja qual for a estação" justificava ele.
Ícaro sorriu ao velho... Dançou por momentos com as crianças. Dançou e olhou o Céu e quem viu jurou por uma vida que nos seus olhos brancos raiou a luz da Verdade.
Lembro-me dele. Lembro-o queimado na fogueira, a dançar, a dançar enlouquecido, enquanto as chamas o lambiam por completo e apagavam de si todo o peso de uma caminhada de solidão.
O velho ria com a sua boca escancarada, os poucos dentes a reluzir e as crianças a gritar alto, êxtasiadas.
Para elas, era tudo uma festa imensa. um teatro.
Ícaro queimado na fogueira até à última célula.
Ícaro queimava em si toda a demanda da Verdade, a imensidão do Universo branco do Sol.
Ícaro morreu-me e com ele, os meus sonhos sepultados no verde do lago.
Sílvia
Publicado por Fairy_morgaine em março 19, 2005 10:21 AM