março 14, 2005

O eterno grito do silêncio

Quero escrever mas de novo caem lágrimas pesadas nas minhas asas que me colam no

chão, me colam às árvores e às pessoas que lentamente se afastam de mim.
Quero deixar a alma voar nas palavras ditadas pelo tempo, o tempo magro que me

leva, me empurra, me sussurra ao ouvido que a única coisa que posso fazer agora é

deixá-lo escoar e acreditar.
Se acreditar com muita, muita força, talvez amanhã o dia clareie e eu possa finalmente

descansar em paz e agarrar um bébé contra o meu peito cansado. Cantar-lhe canções

de embalar.
Ensinar-lhe tudo o que sei e aprender com ele um mundo novo de sentimentos e

espelhos que reflectem o rosto de Deus.
Deus sorri-me calmamente e murmura que tanto desespero irá calar o grito que irrompe

no meu silêncio, irá afundá-lo ainda mais na minha garganta, atirá-lo pelas minhas

artérias, corromper-me o coração.
Quero escrever, quero criar, quero envolver-me em poesia, fugir da realidade,

deleitar-me no teu amor sem sentir os quilómetros que afastam os nossos corpos e

aproximam as nossas almas.
Mas hoje não consigo. Hoje tudo o que sei e sinto é um imenso grito a romper-me a

garganta, a lançar-se egoísta no espaço, a tentar em vão alcançar-te e fazer-te

entender que a dor que me consome é ínfima perante a impossibilidade do futuro. O

futuro com que acalentei minh'alma em dias de loucura e degredo.
O futuro com que enganei minhas lágrimas, com que afaguei meu corpo cansado, com

que deitei a minha cabeça nas almofadas molhadas e cantei canções de ninar.
Esse futuro, amor, foge-me.
Esse futuro, as minhas crianças, os teus filhos, os nossos sorrisos, o meu ventre

assustadoramente grande, foge-me.
Hoje, não o consigo sequer desenhar. Não passa de uma imagem desbotada numa

qualquer composição de escola primária.


O grito irrompe pela garganta, rasga as asas da pequena fada, afasta-se cego, atira-se

na procura dele e do futuro intermitente.
Enquanto ela jaz nas margens do lago, aproxima-se um vulto que a segura e lhe

murmura ao ouvido estórias milenares, mitos, contos, frases soltas de pessoas que um dia

pisaram a terra e tiveram medo.
Não faz mal ter medo, assegura-lhe o vulto. Não faz mal ter gritos imundos a romperem o

sagrado silêncio.
Ela ergueu-se, apanhou o que restava das suas asas e partiu.
Ali nada mais restava senão a morte.
E havia ainda muita vida a conquistar, havia ainda esperança, esperança nos seus

passos e nas mãos abertas ao vento.


Amanhã, disse ela, o dia clareia mais cedo.

Publicado por Fairy_morgaine em março 14, 2005 08:47 PM
Comentários

Querida Sílvia
Vale a pena esperar pelos teus textos. Dizem tanto a muitos, como te dizem a ti o que sentes.
Um beijo
Daniel

Afixado por: Daniel Aladiah em março 14, 2005 09:31 PM

quando não sei o que dizer e fico em silêncio apenas é porque acabei de ler algo de que gostei muito. Cada vez que aqui venho encontro aquela que encerrei em mim nas palavras tuas. uma certeza: virei sempre. Ainda que me remeta ao silêncio

Afixado por: lyra em março 14, 2005 11:10 PM

Querida... devoro cada palavra tua, sinto a a penetrar me no meu corpo, mergulhando na minha mente
fazendo me sorrir
Um beijo doce e um abraço bem apertado

Rose**

Afixado por: black rose em março 15, 2005 12:36 AM

Gostei muito do teu blog.
www.poesias-minhas.blogspot.com

Afixado por: Miguel Nobre em março 15, 2005 01:04 AM

"Grito" aqui, grito "aí", O GRITO. Tuas palavras me fazem refletir, e lembrar de coisas minhas outrora escritas. Teu "post" anterior me fez recordar de um poema do qual gosto muito, porém, por ser teus textos extremamente subjetivos, implicando somente a ti a realidade das palavras, não se sabe bem a natureza, somente os sentimentos. Deixo-te aqui abaixo um trecho do meu poema:

"Escuto minhas palavras se dissiparem ao eco do silêncio,
Vejo as lembranças como lacunas para preencher seus erros,
Sentimentos escritos, nunca ditos, nesse vazio que nos separa,
Desejos reprimidos pela realidade a fora".

(...)

PD: tomei a liberdade de te linkar em minha página, espero que não se incomode.

Beijos.

Afixado por: Deni em março 15, 2005 02:55 AM

Simplesmente sublime. Gostava de contemplar esse momento de inspiração, é calmo, nervoso, contrói-se aos poucos, ou sai tudo de repente ?
Um beijo em silêncio.

Afixado por: Luis_Duverge em março 15, 2005 10:21 AM

Esperança+vento=asas imensas de liberdade e ispiração.Em sintonia contigo fada incandescente.Vénia ao texto e ao regresso à margem do lago das verdades perenes.**

Afixado por: hirondelle em março 15, 2005 11:20 AM

inspiração

Afixado por: hirondelle em março 15, 2005 11:21 AM

Por sorte as tuas lágrimas agregam-se até formar novas palavras que com asas parecem voar. O teu silêncio é um lago que começa na tua garaganta e acaba na boca. Na tua boca há uma ondulação que quer ser tempestade com raios que são gritos, granizo que são lágrimas. E essas ondas espalham-se pelo universo levadas pelo vento por passos voados tão perto do solo mas sem nunca o tocarem.
Beijos

Afixado por: André em março 15, 2005 12:28 PM

o silêncio é um ruido...

Afixado por: Luis em março 15, 2005 04:49 PM

Embrelha-te...embrenha-te na folha de papel negra...poderás passar testemunho...de tudo o que és e já foste. Mergulha de braços erguidos...faz escorrer a tinta plas tuas veias...e baila sobre o papel desenhando as memórias...os desesperos...as lágrimas mas também as crianças...um sorriso...um fio de cabelo ao vento...porque aquilo por que bailares serás tu...e isso ninguém pode tirar. Ver-te bailar assim...é belo. Baloiça no parque ainda que ninguém te veja...baila sobre a areia fina daquela praia ainda que ninguém o saiba... Não tenhas medo...és um ser...existes...baila...baila Sílvia...não deixes nunca de bailar...na praia...na escuridão...envolta em lágrimas...numa qualquer folha de papel...mas baila.

Beijo enorme

Afixado por: Luana em março 15, 2005 05:53 PM

Sílvia,
É essa esperança renovada depois de percorrido o Hades que o poeta nem sempre consegue renovar. Muitas vezes, ou deus cessa de murmurar palavras de conforto, ou nós perdemos essa audição mística. Admiro-te porque, sendo tu verdadeiramente poeta, tal não te acontece.
Beijos

Afixado por: Cassiopeia em março 15, 2005 09:09 PM

Pena nem sempre aparecerem vultos para nos confortarem, dizerem que não faz mal, que as asas secam...

Afixado por: ebola em março 16, 2005 10:37 AM

Estava aqui a pensar numa coisa diferente para dizer. hum.... vou ser original. Gostei. ...Pronto não fui original....passa a escrever porcarias para eu comentar de outra maneira. Eheheheh :D

Afixado por: Ofeliazinha em março 16, 2005 02:16 PM

Poético, e profundo...!

Afixado por: Paula em março 16, 2005 04:32 PM

uau... ler-te é descobrir um mundo... lindo, simplesmente lindo...Volto sempre...

Afixado por: soldeinverno em março 17, 2005 10:01 AM

Gostei. Estava a precisar de ler algo assim profundo e sentido...

Abraço ;-)

Afixado por: Menina_marota em março 17, 2005 12:02 PM

Muito belo, Fairy! É muito bonito vermos um texto que retrata um processo de redenção, uma renovação luminosa, num talento impressionante. Parabéns!

Afixado por: Dora em março 17, 2005 05:02 PM

não faz mal tu seres
não faz mal acreditar
não faz mal tu escreveres
não faz mal gritar

o futuro

numa alva esperança
clareia cedo
lambendo(te) as asas


Afixado por: Ardente_Mente em março 17, 2005 05:25 PM